Especial: Arquivos do Rock 'N' Roll



O Crítica Daquele Filme resolveu fazer uma dessas famosas listas tão queridas internet adentro, e nada melhor do que começar com o bom e velho Rock 'N' Roll. Reunimos alguns dos melhores documentários de rock lançados até hoje, mas vamos dividir tudo em alguns capítulos ok!? Hey Ho, Let's Go!

  • The Beatles Anthology
Sendo, sem sombra de dúvidas, a mais importante banda de rock surgida por estes lados da galáxia, podemos começar nossa lista de documentários de rock com "The Beatles Anthology", o mais completo e definitivo documentário sobre o Fab Four. O ambicioso projeto foi lançado em 1995 em 8 partes, e apresentou um incrível arquivo de fotos e vídeos inéditos, além de oferecer as últimas imagens de Paul, George e Ringo tocando juntos. Para os fãs de rock, é simplesmente obrigatório.


  • End of the Century: The Story of the Ramones
"End of the Century: The Story of the Ramones" conta a estranha, conturbada e triste trajetória desta que é provavelmente a banda mais disfuncional e menos valorizada da história da música. O excepcional documentário investiga a fundo todas as camadas dos integrantes da banda, passando pelas obsessões e sensibilidade de Joey Ramone, a liderança rígida e necessária de Johnny e a importância de Dee Dee, talvez o primeiro punk que o mundo conheceu. Sempre rodeada por brigas e tensões, a banda trilhou seu árduo caminhou sem o sucesso que merecia, sendo só hoje reconhecida por, simplesmente, ter inventado um gênero musical. Um retrato revelador, até para os fãs de longa data.



  • No Direction Home
Parece simples realizar um documentário de sucesso, basta reunir dois ícones como Martin Scorsese e Bob Dylan. O diretor, que ama o Rock 'N' Roll (paixão comprovada em obras como "The Last Waltz" ou "Shine a Light", também extremamente recomendadas) esmiúça todas as origens, influências, traições e revoluções desencadeadas por este verdadeiro profeta de uma geração,  e de todas que vieram depois.


  • George Harrison: Living in the Material World
Seguindo a linha de "No Direction Home", Scorsese novamente presta um tributo à música, sendo o foco dessa vez o icônico guitarrista George Harrison, o "quiet one" dos Beatles. "George Harrison: Living in the Material World" demonstra a evolução do jovem de Liverpool ao posto de divindade da música mundial. Scorsese aborda de forma enfática a filosofia de vida de Harrison, assim como seu caráter complexo e contraditório, sempre alicerçado por uma espiritualidade extrema, fatores que foram base para uma carreira solo rica, produtiva e muito bem sucedida.


  • The Devil and Daniel Johnston
Daniel Johnston virou um hit cult underground, efetivamente, quando Kurt Cobain se revelou um fã do cara, usando camisetas estampadas com seus desenhos malucos em shows e premiações. O documentário "The Devil and Daniel Johnston" mostra como Johnston se encontra hoje, como lida com sua incrível história, seu amor pela música e arte, sua leve demência e obsessão pelo diabo, suas gravações caseiras que viraram sucesso e foram comparadas a obras clássicas como Bob Dylan e Beatles. Deveras Interessante.


  • Lemmy
Quando você vê a casa (o muquifo na verdade) em que Lemmy mora, entende na hora porque o cara é considerado o deus do Rock. Neste documentário acompanhamos o dia a dia do mesmo. Sua rotina, suas coleções de armas e vestimentas nazistas, toda sua filosofia de vida, seu amor pela música dos anos 50 e 60, e seu vício em máquinas caça-níqueis. Histórias incríveis, desabafos ofensivos e piadas infames estão presentes nesta honesta obra.

O documentário conta com a participação de rockeiros como David Grohl, Alice Cooper, Metallica (rola uma jam bem legal), Joan Jett, Duff McKagan, Dave Navarro, Ozzy Osbourne, Marky Ramone, Slash, Dee Snider, Nikki Sixx, Billy Bob Thornton, Steve Vai, Katherine von Drachenberg. Realmente uma galera responsa.


  • God Bless Ozzy Osbourne
O mais interessante de "God Bless Ozzy Osbourne" é que, além de contar de forma perfeita a formação e evolução do Black Sabbath, o filme pega pesado com Ozzy: seus filhos dizem que ele foi um péssimo pai, seu abuso de drogas é execrado e temos as provas cabais de como o show "The Osbournes" foi um lixo para a imagem do cantor. 

Toda a cronologia do cara é sem dúvida uma das mais interessantes dentro do mítico cenário do metal, e na fita temos informações ricas em detalhes, sendo o sumo pontuado basicamente por chapações homéricas, sua carreira solo cheia de altos e baixos, a parceria e perda do guitarrista Randy Rhoads (que morreu aos 25 anos no auge do sucesso) e muito mais.



  • Jimi Hendrix
O documentário foi feito três anos após a morte do guitarrista. Temos então alguns dos melhores momentos da carreira de Jimi (shows, entrevistas e reportagens importantes). Através da obra podemos entender um pouco mais sobre a formação do músico, seu passado como integrante de bandas regionais de baile, sua personalidade enigmática, o abuso de drogas e histórias simplesmente épicas envolvendo ícones como Eric Clapton, Janis Joplin, Mick Jagger, Pete Townsend, entre outros.


  • Metal - Uma jornada pelo mundo do Heavy Metal 
Este documentário é praticamente uma análise antropológica realizada pelo diretor Sam Dunn, tendo como foco a cultura Heavy Metal, como ela se formou e se bifurcou em diferentes vertentes que exploram religião, sexo, violência e morte. Podemos ver também a construção dos estereótipos preconceituosos que sempre rodearam o gênero, e valorizar os verdadeiros heróis desta resistência frente a sociedade. Uma edificante aula de sonzeira. O filme apresenta entrevistas exclusivas imperdíveis de Tom Araya, Alice Cooper, Bruce Dickinson, Ronnie James Dio, Tony Iommi, Kerry King, Lemmy, Tom Morello, Dee Snider, Corey Taylor, Robie Zombie, entre outros.



  • Metallica: Some Kind of Monster
O Metallica é a maior banda de metal do mundo. Isso não quer dizer que ela é a melhor, mas é, com toda certeza, a maior, pois gera mais grana no cenário. Muitos já criticaram, dizendo que ela se vendeu em alguns momentos de sua carreira. Polêmicas a parte, o documentário "Metallica: Some Kind of Monster" nos mostra como foi problemática a produção do disco "St. Anger", o mais repudiado pelos fãs. Devido a muitas dificuldades, o filme torna mais fácil entender as falhas do álbum (menos a lata de Nescau) e assim valorizar a garra dos caras. Até mesmo um terapeuta foi contratado para amenizar os nervos de todos (o que gerou algumas piadas infames, obviamente), mas no final fica claro como os integrantes respeitam o nome Metallica e tudo o que ele representa. São mais de 30 anos de doidera, e isso não é pouca coisa. Vale a pena conferir.


Estes foram alguns dos documentários mais populares, por assim dizer, do mundo do rock. Em breve continuamos nossa lista, pois tem muita coisa boa ainda. Fique ligado ok!

Rampart

Existe algo de contagioso em "Rampart". A desumanização de David Douglas Brown, interpretado de forma impressionante por Woody Harrelson, chega a causar certo incômodo. Talvez por isso o filme tenha sido bem recebido pela crítica e repudiado pelo público. A intensidade com que presenciamos o sofrimento de Brown é tão honesta e justificável que pode se tornar meio insuportável para alguns.

A trama se passa em Los Angeles, 1999. A corrupta Delegacia Rampart tem no veterano da LAPD, Brown, um símbolo de sua decadência moral gerada pela corrupção e por conflitos raciais que sempre dominaram a cidade dos anjos. As drogas, bebidas, o sexo e a violência fazem parte do cotidiano desses policias, supostos detentores da lei, que se afundam em um poço de problemas psicológicos, têm sua vida social comprometida, e se tornam instáveis e perigosos, tudo isso alicerçado (em alguns casos) por uma participação na vergonhosa guerra do Vietnã. 

Em meio aos escândalos de Rampart, a cabeça de Brown se torna a mais cobiçada. Seus diversos "supostos" crimes começam a ser esmiuçados, principalmente depois dele ser filmado abusando de sua autoridade na nuca de um cidadão. Vivendo uma estranha e insustentável relação com sua família (filhas e ex-mulheres), o homem já não tem nada que lhe seja palpável, apenas relacionamentos vazios com pessoas tão perturbadas como ele, e seu emprego, ao qual se agarra irracionalmente.

O diretor Oren Moverman, que já demonstrou talento no também visceral "O Mensageiro", impõe na fita um ritmo eficiente, apesar de em alguns momentos pisar um pouco demais no freio, nada que atrapalhe o resultado. Optando por uma abordagem asséptica e crua, ele encontra espaço para inovar, inserindo elementos e trucagens de câmera interessantes, simples e criativas. O roteiro do talentoso James Ellroy, em parceria com o Moverman, explora de maneira fria e calculista os limites de seu personagem, além de amarrar uma instigante linha investigativa de interesses burocráticos diplomáticos, que visam cortar cabeças e apontar dedos para um lado esperando que não olhem mais para o outro. Jogos do poder em sua mais pura essência.

Mas o grande destaque é Woody Harrelson, que parece prestes a entrar em chamas. Seu aprofundamento dentro do universo da obra é tão intenso que, como já foi dito, chega a ser contagioso. Mesmo Brown sendo uma pessoa de falhas corrosivas, Harrelson encontra sua humanidade,  consegue fazer dele uma vítima da situação, e isso fica palpável na sua incômoda tentativa de parecer normal perto das filhas. É como John Lennon dizia "uma coisa que você não consegue esconder, é quando está aleijado por dentro". Um ótimo trabalho de fato, digno de nota.

Outros atores presentes na película são: Ben Foster - irreconhecível como o mendigo Terry -, Ice Cube, Sigourney Weaver, Robin Wright e Steve Buscemi. 

"Rampart" é um filme pesado, que pune seu protagonista incessantemente pelos erros do passado e presente. Assim como a vida, está é uma resposta meramente verdadeira e cruel. Nada mais do que a realidade aqui. 



























Rampart: EUA/ 2011/ 108 min/ Direção: Oren Moverman/ Elenco: Woody Harrelson, Ben Foster, Anne Heche, Brie Larson, Steve Buscemi, Sigourney Weaver, Robin Wright, Ice Cube

Virada no Jogo (Game Change)

Mesmo que o presidente Obama nos dias de hoje não agrade como muitos pensavam que ele iria, quando vemos o filme da HBO, "Virada no Jogo", percebemos que ele foi, de longe (e quando digo longe me refiro a uma distância estratosférica), a melhor escolha para a presidência dos Estados Unidos em 2008. Não que John McCain fosse terrível, muito pelo contrário - aqui ele é retratado de maneira extremamente positiva, honesta e honrada -, o problema foi mesmo a vice Sarah Palin. Foi ela quem mudou o jogo... para pior.

A fita é baseada no livro homônimo dos jornalistas John Heilemann e Mark Halperin, e nos apresenta os sessenta dias de campanha do candidato McCain, que vai desde a escolha de Sarah Pallin (ela foi selecionada por seus vídeos verborrágicos no Youtube, acredite se quiser) até a derradeira derrota na urnas.

A veracidade da obra é o que chama mais atenção. Utilizando imagens reais de entrevistas e debates, somos atirados de cabeça no universo da campanha. E seguindo de perto o despreparo da (até então) governadora do Alasca, percebemos como tudo aquilo estava fadado ao fracasso. 

Palin se mostrou um poço de ignorância. Não tinha conhecimentos básicos de história, não entendia por que existiam duas Coreias e não sabia que a rainha da Inglaterra na verdade não possui voz política como chefe de Estado. Simplesmente absurdo. Em suas poucas entrevistas, as pérolas foram bombásticas, o que culminou na criação de uma caricatura impagável interpretada por Tina Fey no Saturday Night Live. Isso acabou minando não só a candidatura de McCain, mas também a sanidade da mulher durante a campanha.

Apesar de um currículo capenga (que inclui, por exemplo, "Entrando Numa Fria Maior Ainda"), o diretor Jay Roach realiza um trabalho formidável neste "filme de TV", que compete de igual para igual com qualquer fita hollywoodiana. A produção é grandiosa e a adaptação do roteiro, feita por Danny Strong, também merece destaque, assim como o excelente trabalho de edição, que une real e fictício com perfeição.

No papel principal temos Julianne Moore, desaparecendo nos trejeitos e cacoetes de Palin. Woody Harrelson vive Steve Schmidt, chefe de campanha de McCain - responsável direto pela escolha da vice e consequentemente pelo fiasco da campanha – e Ed Harris interpreta John McCain, um político que, contrariando a postura austera e fria, nos bastidores se mostra um veterano de guerra dedicado, gentil e aparentemente honesto.

Abaixo separei alguns links de vídeos com as entrevistas utilizadas no filme. Assisti-las antes talvez seja uma excelente forma de comparação (no meu caso tive de fazer o caminho inverso). Linkei também algumas entrevistas dos envolvidos, como Steve Schimdt, confirmando a veracidade dos fatos apresentados. Um prato cheio para quem aprecia a política em sua mais pura essência: um absurdo mascarado de democracia.




Virada no Jogo/ Game Change: EUA/ 2012/ 118 min/ Direção: Jay RoachElenco: Julianne Moore, Woody Harrelson, Ed Harris, Peter MacNicol, Jamey Sheridan, Sarah Paulson, Ron Livingston

Aqui é o Meu Lugar (This Must Be The Place)

Sean Penn parece estar sempre em busca de uma eclética e extensa lista de personagens interpretados. Ele já foi um doente mental em "Uma Lição de Amor", já encarnou o perturbado Samuel J. Bicke em "O Assassinato de um Presidente", com o homossexual Harvey Mik ganhou o Oscar em "Milk – A Voz da Igualdade", já foi soldado, fugitivo e por aí vai. Só que mesmo diante desta vasta gama de personalidades, é certo afirmar que nenhuma delas é igual ao rockeiro Cheyenne, de "Aqui é o meu Lugar".

A obra foi dirigida pelo italiano Paolo Sorrentino, que afirmou ter criado o personagem inspirado no cantor Robert Smith, da banda The Cure, sendo também seu nome uma referência a cantora Siouxsie, do Siouxsie and the Banshees. Visualmente, Cheyenne está idêntico a Smith, mas seu comportamento lembra bastante o vocalista lesado Ozzy Osbourne. Toda vagareza e rigidez corporal, a fala arrastada e sempre tranquila compõem o espírito do personagem. Um trabalho eficiente e apaixonado de Penn. 

A trama é simples, mas vem carregada de simbolismos. O rockeiro aposentado, apesar de não conseguir se desvincular daquilo que lhe fez um sucesso - ou seja, sua inocência, imaturidade e falta de noção (que lhe permite se vestir como um maluco todos os dias, por assim dizer) -, enfrenta problemas sérios, encarados pelo mesmo de maneira, as vezes mesquinha, outras vezes sábia, o que faz dele uma espécie de Buda excêntrico que abusou de muitas drogas e agora tenta acertar algumas importantes questões do passado. Para isso, nada melhor do que perseguir o nazista que humilhou seu pai no campo de concentração. Redenção em forma vingança, uma dádiva certamente inesperada que serve como mais um contraste deste homem incomum. 

Além da interpretação de Penn, a direção de Sorrentino também é destaque. Usando de um tom melancólico e contemplativo, seu andamento arrastado faz com que o humor ganhe ares diferenciados, não gratuitos. Um experiência interessante que une linguagens intercontinentais, temática e personagens criativos, ricos e cheios de possibilidades. Lembra em alguns momentos a verve de Wes Anderson.

O titulo original do filme, "This Must Be The Place", foi retirado da canção homônima presente no albúm "Speaking in Tongues", do Talking Heads. O ex-vocalista da banda, David Byrne, além de assinar a trilha sonora, faz uma participação na fita como ele mesmo. O elenco conta ainda com Frances McDormand - como a mulher/marido de  Cheyenne, Jane -, Kerry Condon e Eve Hewson (filha de Bono, do U2). Engraçado, estranho e recomendado.



























Aqui é o Meu Lugar/ This Must Be The Place: Itália, França, Irlanda/ 2011/ 118 min/ Direção: Paolo SorrentinoElenco: Sean Penn, Frances McDormand, Judd Hirsh, Eve Hewson, Kerry Condon, Harry Dean Stanton

The Last Lions

Uma coisa é certa: "The Last Lions" é, sem sombra de dúvida, uma das experiências mais viscerais e emocionantes já registradas no reino animal. O documentário realizado pela National Geografic Society, dirigido e filmado pelo casal Dereck e Beverly Joubert, nos leva ao coração da África, último local onde ainda existem leões selvagens... mas eles são poucos.

Há 50 anos atrás a espécie contava com meio milhão de animais. Hoje são apenas 20 mil, um triste e assustador número que nos leva a questionar fortemente a presença da raça humana  em nosso planeta. Ela obviamente desequilibra a vida por aqui.

Buscando primeiramente nos conscientizar moralmente da urgência da situação, o filme "The Last Lions" apresenta a história de Ma di Tau ("Mãe de Leões"). Devido ao habitat reduzido, os felinos se enfrentam constantemente em busca de território, e no meio desta batalha, Ma di Tau se encontra exilada após a derrota de seu parceiro, mas seus filhotes lhe dão a força necessária para compreender o significado de sua existência, um elo forte, belíssimo e inquebrável.

A captura de imagens não tem nada de excepcional. São lindas, claramente, mas podemos ver cenas de maior beleza em séries como "Life", da BBC, por exemplo. A força desta obra está na história destes "personagens" em especial. Tudo nos é passado de maneira tão orgânica que podemos compreender seus pensamentos, igualar suas atitudes primordiais com nossas próprias lutas diárias, admirar seu poder de destruição, momentos inacreditáveis de tristeza e coragem, nos afeiçoar a uns e detestar outros. A vida real se mostra inacreditavelmente épica, algo que nem ao menos parece verdade. 

O caminho trilhado por Ma di Tau é com certeza especial e diferenciado. E o mais triste é perceber que todo seu sofrimento vem da intervenção direta do homem sobre seu ambiente. Infelizmente o territorialismo é um dos instintos mais fortes da raça (nem precisamos nos perguntar por que, não é mesmo?). Eles já perderam todo seu território, e esta forma de defesa violenta acabou gravada em seu DNA... a ferro e fogo, literalmente. E diante desta realidade, uma mãe sem bando, e com crias, simplesmente não consegue achar um local seguro para desenvolver um macho que pode ser um provável líder no futuro. Para os outros, representa um grande risco.

E acompanhando todo esta epopeia, temos um texto poético e talhado com perfeição, que é narrado por Jeremy Irons (que já dublou Scar em o "O Rei Leão", ironicamente). Já a trilha sonora incrivelmente tocante foi composta por Alex Wurman ("A Marcha dos Pinguins") e é uma peça fundamental para o resultado final da obra. Premiado no "Palm Springs International Film Festival" de 2011, o documentário é o terceiro trabalho do casal explorando o tema "grandes felinos". Juntos, eles já entregaram "India: Land of the Tiger" e "Eye of the Leopard".

Em resumo: "The Last Lions" é uma crítica voraz a falta de proteção que, no mínimo, o governo local deveria conceder a esses animais. Mas o buraco é mais em baixo, como sempre. A indústria de eco-turismo arrecada cerca de 200 bilhões de dólares por ano mundialmente, sendo que ao mesmo tempo, leões precisam brigar em espaços praticamente confinados por sua existência. A hipocrisia deita e se finge de morta.  

A extinção desses predadores, que estão no topo da cadeia alimentar, causaria um total desequilíbrio nas raças abaixo, ocasionando um colapso no ecossistema que precisa ser levado em consideração o mais rápido possível. Um filme obrigatório. 
























The Last Lions: EUA, Botswana/ 2011/ 88 min/ Direção: Dereck Joubert/ Elenco: Jeremy Irons

Cinema & Arte #02







Plano de Fuga (Get The Gringo)

Depois do sofrível "O Fim da Escuridão" (parecia mais o começo né?) e o altamente vergonhoso "Um Novo Despertar" (conhecido lá fora como "The Beaver", e sim... assisti a pérola), Mel Gibson volta no melhor estilo "Máquina Mortífera" em "Plano De Fuga", só que diferente de Martin Riggs, seu personagem sem nome aqui é um bandido articulado e eficiente, algo mais próximo do noir frio e calculista "O Troco", só que mais bem humorado e definitivamente nada frio.

O filme foi escrito e produzido pelo ator, sendo dirigido por Adrian Grunberg, um iniciante na função que trabalhou como assistente de direção no contundente "Apocalypto" - gravado em Veracruz, locação também utilizada para este "Plano de Fuga". 

Na trama vemos um bandido que foi capturado na fronteira dos Estados Unidos com o México, mas especificamente do lado latino. Vítima da inescrupulosa e corrupta policia local, o cara é jogado em um presídio incrivelmente horrível e surreal. Sinceramente, é difícil acreditar que a realidade prisional mexicana passe perto do que foi apresentado, mas como eu realmente não tenho ideia de como seja uma prisão de lá, fica por isso mesmo - a violência é crível, tendo como comparação a bestialidade dos detentos brasileiros -, o mais estranho no entanto é a presença de crianças e mulheres, todos no mesmo lugar, que funciona como uma vila. Neste antro de decadência, o bandido americano começa a dançar um novo ritmo (falando em ritmo, a trilha dos ambientes é quase sempre tão insuportável como a existência dos mesmos), aprendendo então as regras do local, para assim conseguir se safar no final.

A roteirizarão é interessante e funcional. Fugindo bastante do convencional, o texto revive um pouco o "feeling" noventista dos filmes policiais consagrados por Gibson, mas tudo isso de forma ousada, politicamente incorreta, com crianças fumando, com um lado negativo do México exposto de forma crua e exagerada, violenta, desumana, ou seja, inusitada e ligeiramente instigante. Mel Gibson, após todas suas polêmicas, parece querer pagar seus pecados nesta terra quente e insalubre, mostrando que o fôlego para correr, brigar e atirar em latinos ainda está lá, assim como sua vontade de fazer um bom filme, entregar uma boa atuação.

No final, vale a pena ver "Plano de Fuga”. Não é uma obra prima, é estereotipado, o final é previsível, mas todo o resto é sim prazeroso de se assistir. Um filme de ação despretensioso, bem costurado, filmado com destreza e interpretado com certa determinação. O choque de ver uma fita basicamente latina, em toda sua essência, com um gringo como Gibson no papel principal, é, obviamente, deveras atrativo. Afinal é o Mel Gibson, um dos caras mais malucos do cinema.

Algumas curiosidades: estava certo que o filme iria se chamar "How I Spent My Summer Vacation", mas acabou mudando para o título (bem mais enfático e maneiro) "Get The Gringo". Devido a popularidade negativa de Gibson o filme nem passou perto dos cinemas e foi lançado direto em DVD e Blu-Ray Disc.



























Plano de Fuga/ Get The Gringo: EUA/ 2012/ 95 min/ Direção: Adrian GrunbergElenco: Mel Gibson, Peter Stormare, Dean Norris, Stephanie Lemelin, Kevin Hernandez, Sofía Sisniega, Bob Gunton

Os Vingadores (The Avengers)

"Os Vingadores" foi, com certeza, a estreia mais aguardada do ano até agora. E apesar de toda a responsabilidade contida neste dito "épico nerd", o resultado foi definitivamente surpreendente. No entanto, o sucesso da obra não está nas piadas infames de Robert Downey Jr. com seu emblemático Tony Stark (vulgo Homem de Ferro), nem nas curvas da Viúva Negra Scarlett Johansson, ou na fúria do melhor Hulk do cinema até agora, interpretado com perfeição por Mark Ruffalo. Quem merece os aplausos pela bem sucedida união megalomaníaca de "supers" é o diretor e roteirista Joss Whedon

Desde sua indicação fiquei confiante com o que estava por vir. Whedon tem um currículo diferenciado, ele nunca trabalhou tão enfaticamente com o cinemão hollywoodiano, era praticamente um virgem no meio, por assim dizer, sendo que seus grandes projetos foram séries televisivas como "Firefly" e "Buffy: A Caça Vampiros", altamente cultuadas por jovens espinhentos mundo afora. Tá certo, ele ajudou a roteirizar "Toy Story", mas o hype daquela época não era nem uma fração do que existe hoje, e nem os investimentos (estima-se que "Os Vingadores" custou 220 milhões de dólares). No final, foi a conhecida pureza autoral do diretor que trouxe confiança. Havia uma certeza de que ele não iria se corromper.
  
Whedon, acima de tudo, sabe como contar uma história. Escrever bons roteiros é sua missão primordial, e em "Os Vingadores" ele conseguiu: uniu contextos e personalidades, amarrou motivações e ofereceu novas possibilidades, promoveu entretenimento sem ser raso, respeitou seus personagens.

É claro que nem tudo é perfeito na fita. Talvez o Capitão América de Chris Evans tenha ficado um pouco apagado, e o Loki de Tom Hiddleston tenha se mostrado caricato e canastrão em alguns momentos (assim como seu "irmão" Hemsworth), mas mesmo com uma trama e vilão basicamente tirados da cartola, tudo foi bem costurado e consumado, a direção foi minuciosa, o elenco bem conduzido, cenas de ação inesquecíveis, efeitos especiais espetaculares e... o Hulk, o melhor do longa, de longe - sinceramente, Ang Lee e Louis Leterrier deveriam sentir vergonha, pois Whedon fez, com pouquíssimo tempo de cena, o melhor Hulk que o cinema já viu.

De forma inteligente, "Os Vingadores" começa sua trajetória com um inimigo peixe pequeno, guardando para sequência o grande figurão da vez, Thanos, e toda sua fama devastadora de Guerras Infinitas. E novamente, as expectativas são altas. Nem vou recomendar pois você provavelmente já assistiu, afinal, quem não?


























Os Vingadores/ The Avengers: EUA/ 2012/ 143 min/ Direção: Joss WhedonElenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Tom Hiddleston, Clark Gregg, Cobie Smilders, Stellan Slargasrd, Samuel L. Jackson, Gwyneth Paltrow, Paul Bettany

Poder Sem Limites (Chronicle)

O conceito de "Poder Sem Limites", em um primeiro momento, pode parecer meio batido. Já tivemos alguns exemplares por aí que utilizaram a interessante idéia de fazer dos personagens os responsáveis pelo registro de suas próprias histórias, o que teoricamente oferece mais realismo, pois a trama acaba sendo apoiada por um tom inevitavelmente documental.

Os atores escalados para este filme em questão são desconhecidos, e ainda precisam se desenvolver melhor na profissão. Dane DeHaan, talvez o mais completo dos três (os outros são Alex Russel e Michael B. Jordan), é o que faz girar a dramaticidade do longa, alcançando um resultado satisfatório, levando em conta que a obra pouco se importa com dramas elaborados.

O argumento principal é raso: três garotos – um cara normal, um freak e um popular - descobrem sem mais nem menos um buraco no solo, e lá vivenciam um contato imediato de terceiro grau. Este evento desencadeia poderes telecinéticos nos jovens, que se veem erguendo objetos com o poder da mente. Primeiramente as cargas são leves, mas elas evoluem para uma vasta gama de possibilidades "incríveis".

Mas o que no início era só curtição, com o passar do tempo se torna algo sério e sem controle, pois afinal, a vida não é brincadeira. Se todos os garotos deprimidos descobrissem que ganharam super poderes teríamos uma legião de vilões.

Apesar desta aparente simplicidade, o longa se destaca na diferenciada produção, talvez por causa de uma mãozinha européia por trás de tudo (os países de origem do projeto são Inglaterra e EUA). O diretor Josh Trank realiza um trabalho eficiente na condução da fita, valorizando detalhes que a enriquecem de forma exponencial, e um desses detalhes é sem dúvida a criatividade que reinventa a captação de imagens em primeira pessoa.


Inteligentemente, o diretor explora diversos elementos que atualizam o "gênero", como a ênfase em qualidades distintas de gravação, o esquema de levitação ou mesmo a utilização de câmeras de segurança e vigilância. Como foi dito, isso pode não parecer 
tão inovador assim, mas é inegável que o resultado não seja superior a diversos outros exemplares. Uma clara evolução no princípio. As tomadas estranhas, desfocadas e tremidas oferecem extremo realismo, um fato admirável quando temos garotos voando como malucos pelo céu. Isso torna a experiência instigante.

O roteiro, que é básico em seu esqueleto, ao menos trabalha bem a percepção e evolução dos poderes dos jovens. Eles se reúnem para treinar e se aprimorar como novos "jedis" que são. Por fim, os efeitos especiais perfeitos e orgânicos completam o pacote "isso parece muito com um vídeo real do Youtube", ou algo assim. 

"Poder Sem Limites", dentre os filmes "câmera na mão" de temática absurda, é talvez o mais convincente e interessante até agora. Apesar de alguns problemas, vale a pena conferir.



























Poder Sem Limites/ Chronicle: Reino Unido, EUA/ 2012/ 84 min/ Direção: Josh Trank/ Elenco: Dane DeHaan, Alex Russel, Michael B. Jordan, Michael Kelly, Ashley Hinshaw