Terapia de Risco (Side Effects)

"Terapia de Risco" é o efeito colateral da mente criativa de Steven Soderbergh.

A carreira de Steven Soderbergh é definitivamente uma das mais versáteis de Hollywood. Mesmo apostando alto em ideias ousadas, a receptividade de seus trabalhos - na maioria das vezes pelo menos - acaba sendo positiva. 

Por exemplo: o cara trouxe a atriz pornô Sasha Grey para o mainstream cinéfilo com "Confissões de uma Garota de Programa", fez da lutadora de MMA Gina Carano a protagonista de seu explosivo "A Toda Prova", demonstrou de maneira factual como o mundo desmoronaria diante de uma epidemia em "Contágio", transformou o remake do clássico "Onze Homens e um Segredo" em uma franquia de sucesso, realizou uma análise completa da vida de Che Guevara em "Che: Part One" e "Che 2: A Guerrilha", e no pequenino "Bubble", escalou apenas não atores, que após participarem da obra abandonaram a carreira. É sério, todos os atores creditados no filme nunca atuaram em nada antes, e nem depois. Esse é o tipo de excentricidade que alavanca a popularidade de Soderbergh. 

Em um de seus mais recente lançamentos, "Terapia de Risco", o diretor novamente entrega a tal versatilidade. Isso se deve ao fato dele dividir a história do longa em partes completamente distintas, que consequentemente possuem linguagens completamente distintas - é um artifício maluco, utilizado por poucos. Manter o andamento de uma produção tradicional já é um grande desafio, agora ousar transmutar praticamente tudo dentro dela (gênero, trama, personagens), e mesmo assim manter o ritmo, é algo digno de aplausos.



Fica difícil explicar o enredo de "Terapia de Risco" sem liberar algum spoiler, por isso, infelizmente, terei de ser vago. O filme começa como um drama pesado, que explora a fundo os efeitos da depressão e o que ela pode causar em uma pessoa. Para tratar esta praga que assola o novo século, existem os mais diversificados remédios tarja preta no mercado, e estes são esmiuçados de maneira didática pelo roteiro preciso de Scott Z. Burns, outro responsável direto pelo sucesso da fita. Resumidamente, temos o primeiro ato.

Já no segundo e terceiro ato o clima muda drasticamente, junto com todos os personagens. O filme ganha um caráter de thriller criminal, cheio de surpresas e reviravoltas inacreditáveis. O final, ironicamente, vai contra quase tudo já feito no gênero, o que mais uma vez se revela uma ousada opção do realizador. Mesmo sendo exagerada ou improvável, a trama não deixa de ser inteligente, e faz com que o telespectador pense e discuta sobre seus argumentos mesmo depois do filme ter acabado. E como isso é bom.

Os protagonistas se revezam no centro da história. Primeiramente temos o foco voltado para a interpretação visceral de Rooney Mara como a apática Emily Taylor. A atriz - que chamou a atenção do mundo em "Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres" - consegue descrever com fidelidade o tormento da jovem e bela garota que sofre de uma severa depressão, proveniente do mal funcionamento da química de seu cérebro. Emily vive a beira do abismo, e se torna uma potencial suicida.



No segundo ato é a vez do britânico Jude Law se tornar o alvo das atenções com o Dr. Jonathan Banks. Mesmo sendo um profissional respeitado e tudo mais, sempre achei Law um pouco repetitivo, teatral em demasia, mas aqui o ator se destaca do resto do elenco. Ele consegue balancear de maneira envolvente a coesão e obstinação de seu personagem, e no final, prepara o terreno com perfeição para as alterações vertiginosas ao redor do mesmo. Apoiado por um excelente texto, ele realiza um excelente trabalho.

Cathrine Zeta-Jones se reinventa no longa como a Dr. Victoria Siebert, um papel complicado que atriz encarou com muito empenho. A participação de Channing Tatum como Martin Taylor (marido de Emily) também funciona bem, apesar de ter menor importância em caráter interpretativo.

Em resumo: "Terapia de Risco" é obrigatório. Steven Soderbergh consegue multiplicar todos os sentidos daquilo que diz e faz no filme. Em termos de roteiro, temos não só uma análise apurada do voraz mercado capitalista farmacêutico - que associa, por exemplo, seus anti-depressivos com uma imagem de felicidade irreal -, mas também vemos expostos os limites da condição humana quando empenhada em conquistar espaço e recursos, mesmo que para isso seja preciso passar por cima de tudo e todos. No entanto é necessário lembrar que para toda ação perpetrada existe um efeito colateral.



Só que o grande mérito da obra está na virtuosidade narrativa de Soderbergh. Ele oferta um classicismo autoral incrível com suas cenas, misturando influências e experiências de maneira primorosa. O cara constrói um dinamismo inabalável para sua trama, conectando tudo de forma concisa e ousada. Como disse no início, sua versatilidade é gritante. No final, fica a sensação de que tudo no longa poderia ter dado muito errado se tivesse sido conduzido por qualquer outro cineasta.

PS: Soderbergh disse que iria se aposentar como diretor em breve. Ele já completou seu novo filme "Behind the Candelabra" - que conta a história do famoso pianista Liberace (Michael Douglas) e seu amante Scott Thorson (Matt Damon) -, e não tem nenhum outro projeto programado para este ano. Mesmo parecendo ser verdade este anúncio de aposentadoria precoce, prefiro pensar que o cara está tirando umas férias.





Terapia de Risco/ Side EffectsEUA/ 2013/ 106 min/ Direção: Steven SoderberghElenco: Rooney Mara, Channing Tatum, Jude Law, Cathrine Zeta-Jones, Vinessa Shaw

Projeto "Video Games: The Movie" no Kickstarter

Confira um novo clipe de "Video Games: The Movie", que tem tudo para ser o documentário definitivo desta arte que a cada dia cresce de maneira exponencial. No vídeo vemos os maiores nomes da indústria discutindo o futuro da nova geração (que está prestes a chegar), suas expectativas e desejos.



Lembrando que o diretor Jeremy Snead está pedindo sua ajuda para finalizar a pós-produção do filme, por isso acesse a página no Kickstarter e doe, pois este será um dinheiro bem gasto. Assista também (logo abaixo) o primeiro vídeo da campanha, que traz pioneiros da área falando sobre o tema. 

Visite a página de "Video Games: The Movie" no Kickstarter clicando AQUI!

PS: Caso ainda não conheça, veja também o excelente "Indie Game: The Movie", que se foca exclusivamente nas árdua realidade dos criadores independentes de games.




Veja 8 Pôsteres Animados do Filme "Truque de Mestre"

Confira estes oito pôsteres animados, extremamente maneiros, do filme "Truque de Mestre", que tem Louis Leterrier na direção ("Carga Explosiva", "Cão de Briga", "O Incrível Hulk"), e Isla Fisher, Morgan Freeman, Mark Ruffalo, Jesse Eisenberg, Dave Franco, Woody Harrelson e Michael Caine no elenco. Uma galera e tanto.


Maniac

Um retrato violento e aterrador da mente de um serial killer.

A proposta estética central de "Maniac" é bem interessante: colocar o telespectador na pele de um assassino extremamente perturbado. Para isso, o diretor Franck Khalfoun resolveu filmar quase todas suas cenas em primeira pessoa, ou seja, vemos tudo através dos olhos do maníaco Frank, interpretado de maneira assustadoramente convincente por Elijah Wood - que possui um perfil que se encaixa perfeitamente/estranhamente no papel (algo que também foi devidamente aproveitado em "Sin City - A Cidade do Pecado").

E diante desta abordagem incomum, o resultado alcançado não passa desapercebido. Khalfoun realiza inteligentes trucagens de câmera para posicionar Elijah Wood por trás dos olhos do assassino (em espelhos e reflexos), a fotografia trabalha de forma eficiente ambientes de pouca luminosidade, e a trilha sonora consegue apoiar o clima bizarro da produção, com músicas sintetizadas e andrógenas, oriundas dos anos 90. 

São ofertados também ótimos efeitos especiais, que colaboram para que a violência seja a mais realista possível. Este é outro ponto de destaque que faz de "Maniac" um filme diferenciado: ele é insanamente violento, e pode até mesmo ser perturbador para os mais impressionáveis - por exemplo: como todo bom serial killer, Frank coleta troféus de suas vítimas, que neste caso são os escalpos de lindas mulheres. O que vemos então são sequências brutais do ato, efetuadas sem nenhum tipo de censura, muito pelo contrário, a violência é valorizada, o que a torna morbidamente distinta.



Em contra-partida, o roteiro adaptado acaba se revelando falho em alguns fatores - lembrando que este é um remake do slasher homônimo de 1980, dirigido por Willian Lustig. A história de "Maniac" não é forte o bastante para manter seu andamento de forma concisa, sendo que no segundo ato sentimos o ritmo se arrastar um pouco, e o desenvolvimento dos argumentos não encontra um propósito mais enfático. Outro ponto que lesou a produção foi a escolha da atriz francesa Nora Arnezeder para o papel de Anna, figura central que se transforma no fetiche máximo de Frank. Apesar de belíssima, Nora ainda precisa evoluir muito para se tornar mediana no ofício.

Já a construção do personagem principal é excelente. O texto explora bem a edificação da insanidade de Frank. Em sua infância, ele por muitas vezes testemunhou a mãe fazendo sexo em lugares públicos, com dois homens ao mesmo tempo, consumindo drogas e por aí vai. Quando adulto, o jovem demonstrou vocação para um trabalho que pode ser considerado por alguns como pouco masculino, o de restaurador de manequins, e isso com certeza adiciona algumas perturbações na sua conta.



No entanto é impossível dizer claramente o que motiva a sede de sangue de Frank. A causa é muito bem explanada, mas não o real significado disso para ele. É tudo simbólico, e fica a cargo do público tirar suas conclusões. Obviamente existe uma ligação com a mãe, mas é algo muito mais deturpado que isso. 

E tornando este complicado personagem crível, temos a interpretação de Elijah Wood, que de tão visceral chega a ser desconfortável. Estamos falando de um sujeito altamente doentio, que lava suas mãos compulsivamente com palha de aço - lacerando-as -, que usa o escalpo de suas vítimas como perucas de manequins (objetos que cultua e mantém estranhas relações), que tem visões vívidas de acontecimentos terríveis de sua infância, e que sofre de escruciantes dores de cabeça. Acompanhar tudo isso pela visão do personagem definitivamente causa um impacto maior, e o trabalho - principalmente vocal de Wood - é um dos fatores que potencializa esta experiência.

Em resumo: "Maniac" é um filme que vale a pena ser visto, ainda mais para quem curte um cinema gore realista e cruel. Apesar da história que serve de guia para o filme ser ligeiramente pobre, e se arrastar no segundo ato, a elaboração da psicopatia de Frank se mostra bem estruturada, e Elijah Wood colabora para que ela seja inesquecível e aterradora. Além disso, toda a concepção da obra é inovadora, o visual é excelente, temos longas e eficientes cenas sem cortes, filmadas com muita atenção ao detalhes, e carregadas de uma violência que já se tornou atípica em Hollywood, ainda mais com atores de visibilidade na produção. Recomendado.

Uma curiosidade - estou acompanhando a série "Hannibal", e devido a isso, recentemente, resolvi assistir mais uma vez o filme "O Silêncio dos Inocentes". Após ver "Maniac", percebi que o diretor Franck Khalfoun utilizou a música tema do psicopata Bufallo Bill em uma de suas cenas. O nome da banda em questão eu já não sei... e nem quero, para ser honesto.





Maniac: França, EUA/ 2012/ 89 min/ Direção: Frank KhalfounElenco: Elijah Wood, America Olivo, Nora Arnezeder, Liane Balaban, Megan Duffy, Jan Broberg, Sammi Rotibi, Genevieve Alexandra

Especial: Arquivos do Rock 'N' Roll # 3


São muitos os bons documentários sobre Rock 'N' Roll, por isso ainda temos dezenas de coisas para falar aqui nos Arquivos do Rock. Confira agora a terceira parte de nossa epopeia da sonzeira, e se faltou algum doc que você curte, não se alarme, ele provavelmente será comentado em breve. Caso tenha perdido a primeira e segunda parte, clique AQUI 1 e AQUI 2
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Sound City (2013)

Para começar esta primeira análise é preciso dizer que, infelizmente, o lendário estúdio Sound City já fechou suas portas. Como um verdadeiro símbolo, ele tombou diante do imediatismo da música atual, que tornou tudo mais fácil, comercial e bem menos interessante. No documentário "Sound City", o músico e (pela primeira vez) diretor Dave Grohl (Nirvana, Foo Fighters), além de prestar uma sincera homenagem, também realiza uma espécie de tributo pessoal ao mítico local de pura criação.

O grande mérito (e maldição) do Sound City foi sua honestidade. A primeira vista o lugar não parecia muito coisa, e sua localização era bem estranha (em Van Nuys, na Califórnia, ao lado de uma fábrica da Budweiser, sendo o cheiro podre do lúpulo um cartão postal das bandas). Ele era sujo e mal organizado, do tipo onde se apagava bitucas no chão e ninguém se importava em derramar uísque. Mas como disse, o estúdio era honesto, e sua maior batalha foi tentar permanecer no ramo da música, mesmo com toda sua autenticidade. Leia a crítica completa do filme AQUI.



Sound City: EUA/ 2013/ 108 min/ Direção: Dave GrohlElenco: Vinny Appice, Joe Barresi, Brian Bell, Frank Black, James Brown, Lindsey Buckingham, Mike Campbell, Tim Commerford, Kevin Cronin, Rivers Cuomo, Warren Demartini, Mike Fleetwood, John Fogerty, Neil Giraldo, Christopher Allen Goss, Taylor Hawkins, Peter Hayes, Joshua Homme, Rami Jaffe, Alain Johannes, Barry Manilow, Paul McCartney, Steve Nicks, Rick Nielsen, Krist Novoselic, Tom Petty, Trent Reznor, Keith Olsen, Paula Salvatore, Ross Robsinson, Shivaun O'Brien, Tom Skeeter, Corey Taylor, Pat Smear, Lars Ulrich, Rick Springfield, Butch Vig, Lee Ving, Brad Wilk, Pat Wilson
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Anvil: The Story of Anvil (2008)

O documentário corajoso do diretor Sacha Gervasi, juntamente com Steve 'Lips' Kudlow (vocal e guitarra Solo) e Robb Reiner (baterista) - membros originais da banda Anvil - é um atestado daquilo que existe de mais real e puro no Rock 'N' Roll.

Em 1984 o grupo estava no auge. Um show no Japão para milhares de pessoas foi um dos pontos máximos da carreira. No mesmo show tocaram Scorpions, Bon Jovi, Whitesnake... conjuntos que superariam o número de um milhão de cópias vendidas nos anos seguintes. Mas o Anvil era de longe a melhor das apresentações. 

O problema foi que com o passar dos anos o quarteto caiu no esquecimento, e essa dura realidade, chamada anonimato, atingiu a cabeça dos caras como uma sentença. Leia a crítica completa do filme AQUI!



Anvil! The Story of Anvil: Canadá / 2008/ 80 min/ Direção: Sacha Gervasi/ Elenco: Tom Araya, Scott Ian, Robb Reinner, Steve 'Lips' Kudlow, Lemmy, Slash, Lars Ulrich, John Zazula
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Raul - O Início, o Fim e o Meio (2012)

Quando Raul Seixas nasceu, em 1945, não existia o Rock 'N' Roll. Muitos talvez nunca pensaram nessa estranha realidade, essa difícil concepção em que... o Rock... simplesmente não existe. Deveria ser algo enlouquecedor. Mas para salvar o baiano havia Luiz Gonzaga.

Muitos outros garotos esperavam naquela época, inconscientemente, um sinal para despertar - como espiões adormecidos que saberiam o exato momento de atacar. Lennon disse certa vez que, após ver um cinema lotado de garotas histéricas gritando para o Elvis da tela, decidiu então, naquele exato momento, que seria uma estrela do rock. E o mesmo aconteceu com Raul Seixas.

O som vindo da América foi algo que mudou o garoto para sempre. A voz marcante de Little Richard, a guitarra desafiadora de Chuck Berry, a atitude e personalidade do Rei... tudo isso moldou a base da carreira de um dos mais influentes músicos desse país, mesmo ele acreditando não ter nada a ver com a linha evolutiva da Música Popular Brasileira... Mas sim, ele teve a ver... pois Raulzito fazia arte, e não apenas Rock 'N' Roll. Ele compunha boleros, forrós, tangos em que dançava com a morte, valsas orquestradas e de letras profusas, que de tão inteligentes, talvez nunca recebam aquele "tal cuspe" merecido. Mais ou menos isso. Neste documentário temos finalmente um retrato consistente de quem foi o maior rockeiro de nosso país. Leia a crítica completa do filme AQUI!



Raul - O Início, o Fim e o Meio: Brasil/ 2012/ 128 min/ Direção: Walter Carvalho, Leonardo Gudel/ Elenco: Paulo Coelho, Luiz Carlos Maciel, Roberto Carlos Menescal, Marcelo Nova, Caetano Veloso, Tom Zé, Pedro Bial, Kika Seixas
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Botinada: A Origem do Punk no Brasil (2006)

Dirigido pelo Gastão Moreira, "Botinada: A Origem do Punk no Brasil" é com certeza um dos melhores documentários nacionais sobre nossa "música popular brasileira". O filme narra a ascensão do punk rock no país, que alcançou o ápice de sua glória entre os anos de 1976 a 1984. Reunindo então os porta-vozes deste movimento, podemos entender melhor como tudo aconteceu.

Acompanhado de um humor natural (devido a porra louquice de que se trata o tema), a fita é extremamente envolvente, muito bem detalhada e conduzida. Todos os elementos da fase inicial são destrinchados pelos entrevistados: a dificuldade de acesso ao som que vinha das gringas, a reivindicação da origem do movimento (SP x Brasília), os shows de fita, o Construção e o Templo, a galera do Carolina, as primeiras bandas, os primeiros discos, o show para a burguesada do Gallery, O Começo do Fim do Mundo, as tretas violentas entre as gangues "Warriors" de SP e ABC, o preconceito, a calúnia e difamação da mídia, e claro, os punks da época, dos quais já não se fazem mais.

O documentário faz questão de enfatizar a importância das pessoas que lutaram por tudo aquilo, como o Kid Vinil com seu influente programa de rádio na Excelsior em 1978 (entre muitas outras coisas que o cara fez), o empenho do Fabião (vocalista da Olho Seco) para gravar o primeiro álbum independente de punk do país, ou do Redson (vocalista do Cólera, que morreu prematuramente em 2011) para gravar o segundo. Além desses caras temos entrevistas com: Clemente (Inocentes), Ariel (Restos de Nada), João Gordo (Ratos de Porão), Marcelo Nova (Camisa de Vênus), Mau (Garotos Podres), Wander Wildner (Replicantes), Pádua (Passeatas), Frango (Fogo Cruzado), Morto (Psykóze), Mingau (Ratos...), Tikinho (Lixomania), Valson (AI-5), Zorro (M-19), Antonio Bivar (Jornalista), Pierre (Cólera), Miro (Lixomania), Muniz (Fogo Cruzado), Tikão (M-19), entre muitos outros.

"Botinada: A Origem do Punk no Brasil" é um filme de baixo orçamento feito com muita raça e determinação - e nada é mais punk que isso. Um documento importantíssimo (e talvez definitivo) sobre o punk nacional, que deve ser consumido com ódio e satisfação. 

PS: PAU NO CÚ DA GLOBO!



Botinada: A Origem do Punk no Brasil: Brasil/ 2006/ 75 min/ Direção: Gastão Moreira/ Elenco: Fabião, Redson, Kid Vinil, Clemente, Ariel, João Gordo, Marcelo Nova, Mau, Wander Wildner, Pádua, Frango, Morto, Mingau, Tikinho, Valson, Zorro, Antonio Bivar, Pierre, Miro, Muniz, Tikão
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The Doors: When You're Strange (2010)

É realmente triste (e um pouco perturbador) entender como foi a desintegração psicológica e física de Jim Morrison. "The Doors: When You're Strange" foi um documentário feito para a famosa série de filmes para TV, "American Masters", e oferece um retrato investigativo da história do quarteto com imagens raras, exclusivas e uma narração generosa do astro de Hollywood Johnny Depp.

No entanto, o que fica do filme é a personalidade distorcida de Morrison. Criado por um pai militar, o cara se rebelou de maneira vertiginosa com sua música, e mesmo não tendo alcançado o sucesso que deveria na época (devido ao seu comportamento errático nos shows), hoje ele é canonizado como um dos maiores ícones do Rock 'N' Roll. Nada mais justo, afinal.

Temos então todos os fatos e lendas em torno dele, como sua perturbada declaração em que diz que gostaria de matar o próprio pai e fazer sexo com a mãe. Foram muitas ofensas, prisões, porres homéricos e agressões ao público. Após um tempo, devido ao excessivo uso de drogas e álcool, ele já não conseguia compor nada, nem mesmo ensaiar. Se tornou um elefante no quarto, inconsciente, que amarrava o sucesso da banda, os arrastando à deriva.

Como disse no início, é algo muito triste de fato, levando em consideração o poder de suas letras e a alta qualidade sonora dos músicos. Mas esse é um dos preços a se pagar por voar alto demais, e Morrison praticamente beijou o sol.



The Doors: When You're Strange: EUA/ 2010/ 86 min/ Direção: Tom DiCillo/ Elenco: Johnny Depp, John Dnsmore, Robby Krieger, Ray Manzarek, Jim Morrison, Jim Ladd, Adolf Hitler, Janis Joplin, John F. Kennedy, Martin Luther King, Richard Nixon, Elvis Presley, Ed Sullivan, Andy Warhol
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Imagine: John Lennon (1988)

Os Beatles foram, inegavelmente, uma força que influenciou não só a musica mundial, como também seu comportamento em geral. Mesmo com diversos documentários sobre o Fab-Four a disposição, o mais interessante de "Imagine" é que ouvimos as versões dos fatos diretamente da boca de John Lennon (por meio de infindáveis entrevistas), além de outras pessoas importantes, como seus filhos Julian Lennon e Sean Lennon, da ex-esposa Cynthia Powell, também Yoko Ono Lennon, e por aí vai.

O filme alicerça de maneira elaborada todo a trajetória que fez do cantor um ícone do rock, com suas qualidades e perturbações. Podemos entender melhor a complicada relação dele com a mãe, os shows e bebedeiras em Hamburgo, o sucesso assustador quando jovem, as declarações polêmicas, as crucificações, o fim do sonho, os Bed-Ins, os vícios, enfim, o filme demonstra através dos erros e acertos de Lennon que o mesmo era um ser humano comum, dono de uma naturalidade que já não existe mais no universo do showbiz. Acima de tudo, o cara não tinha medo de errar, ou pelo menos tinha muito menos medo do que a maioria de nós.

Como pano de fundo podemos ver também a produção do álbum "Imagine", um dos mais emblemáticos de sua carreira. Vê-lo cantarolar a canção que dá nome ao disco para seus amigos pela primeira vez é algo de valor inestimável. Em certo momento da fita, John recebe em sua casa um sujeito visivelmente perturbado, que rondava a enorme mansão que lhe servia de estúdio na ocasião, querendo conversar com ídolo para confirmar "que tudo se encaixava". O ex-Beatle se comovia com essas atitudes, se sentia responsável por estas pessoas. No final, este foi apenas um indício de quão assustadora poderia se tornar a idolatria em torno de sua pessoa.



Imagine: John Lennon: EUA/ 1988/ 100 min/ Direção: Andrew Solt/ Elenco: John Lennon, Yoko Ono, Paul McCartney, George Harrison, Ringo Starr, david Bowie, Phil Spector, Cynthia Lennon, Julian Lennon, Sean Lennon, Dick Cavett, Salvador Dalí, Brian Epstein, Mal Evans, Elton John, George Martin, Klaus Voormann, Andy Warhol
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A Todo Volume (2008)

A principal motivação que levou o diretor Davis Guggenheim a realizar o documentário "A Todo Volume" foi prestar uma homenagem ao mais simbólico instrumento do Rock 'N' Roll: a guitarra. E para compreender melhor este objeto mágico, ele convidou três guitarristas extremamente distintos para contarem e discutirem suas histórias, influências, crenças e filosofias.

Os caras escolhidos foram Jack White - conhecido principalmente pelo seu trabalho no The White Stripes, este é praticamente um artista conceitual do rock, que sente um prazer incomensurável em se manter natural, enraizado nas origens do blues, tirando som até mesmo de um pedaço de pau com uma corda amarrada nele -, The Edge - o espirito criativo do U2, um arquiteto sonoro fundamentalmente adepto de novas tecnologias, como pedaleiras, sintetizadores e tudo que possa acrescentar algo diferente ao seu estilo e sonoridade -, e o lendário Jimmy Page - conhecido por seu papel de protagonista no Led Zeppelin, o cara se encaixa entre o rústico e o novo, um compositor experiente, mestre em seu ofício e dono de riffs fodásticos.

O filme traça então, de maneira instigante, todo o background dos guitarristas: o passado conturbado da Dublin em guerra de The Edge, a prolífera carreira como músico de estúdio de Page - que não supria suas necessidades por Rock 'N' Roll -, e a personalidade diferenciada de Jack White, um cara jovem que merecia ter nascido nos anos 30.

Com uma direção atenciosa, e oferecendo uma bela fotografia, o diretor Guggnheim produz um eficiente documento que edifica o poder da guitarra. A edição sagaz mistura algumas sequências lúdicas (quase todas de Jack White), e utiliza animações inteligentes para exemplificar situações, o que torna tudo ainda mais cool. É maneiro demais ver os caras conversando e tocando juntos.



A Todo Volume/ It Might Get Loud: EUA/ 2008/ 98 min/ Direção: Davis Guggenheim/ Elenco: Jimmy Page, The Edge, Jack White, Link Wray, Bono, Michael McKean, Robert Plant, Meg White
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Foo Fighters: Back and Forth (2011)

É muito interessante entender melhor como foi o fim do Nirvana para Dave Grohl. Talvez este seja o mais importante elemento de "Foo Fighters: Back and Forth", pois o músico detalha minuciosamente todos os seus passos após os suicídio de Kurt Cobain. Grohl teve que se reinventar, e certo dia gravou uma fita cassete na garagem de sua casa, e estas músicas foram basicamente o primeiro álbum do Foo Fighters. Ele recusou se estabelecer como baterista do lendário Tom Petty, para assim iniciar sua banda do nada, tocando em espeluncas, por muito pouca grana e pouco reconhecimento.

Mas o batera que se tornou vocalista se saiu bem, e o Foo Fighters se tornou um grande sucesso. Os caras fizeram turnês colossais, mas um problema sempre os acompanhou: o entra e sai de integrantes. Primeiro foi o batera original que saiu, e Taylor Hawkins o substituiu. Depois vieram uns quatro guitarristas, que, ou eram dispensados por não se entrosarem, ou abandonavam o barco sem motivo aparente - Pat Smear, ex-The Germs, decidiu sair fora no auge do sucesso, por exemplo.

Bem, resumindo, eu não sou tão fã assim de Foo Fighters, mas respeito o seu trabalho e reconheço o enorme valor de Dave Grohl para a história da música. O documentário é muito bem produzido e se torna relevante até para quem não conhece muito a banda.



Foo Fighters: Back and Forth: EUA/ 2011/ 150 min/ Direção: James Moll/ Elenco: Shawn Cloninger, William Goldsmith, DavidGrohl, Taylor Hawkins, Rami Jaffee, Krist Novoselic, Pat Smear, Butch Vig

Videocast Pipoca & Nanquim 160 – Alfred Hitchcock

Está no ar mais um vídeocast da galera do Pipoca & Nanquim. Neste novo episódio eles decidiram homenagear um dos maiores diretores de cinema de todos os tempos, o grande Alfred Hitchcock – autor de clássicos como "Psicose", "Um Corpo que Cai" e "Janela Indiscreta". E, para tanto, contaram com a colaboração do amigo e colaborador Diego Penha, uma autoridade no assunto. Não perca tempo e dê logo o play!



LISTA COMPLETA DE EPISÓDIOS

Killer Joe - Matador de Aluguel (Killer Joe)

"Killer Joe - Matador de Aluguel" é o retrato ácido de um Texas brutal, ignorante e impagável.

É possível perceber que uma experiência cinematográfica será diferente quando, um filme que contém atores hollywoodianos, logo no início esfrega uma vagina na cara do público.

"Killer Joe - Matador de Aluguel" foi dirigido por Willian Friedkin ("O Exorcista", "Operação França"), e é uma comédia de humor negro que não demonstra pudor algum, que exalta o poder da ignorância redneck do caipira americano (no caso texano), e que não se preocupa em usar meias palavras.

A história é bem simples, por isso fica a cargo dos os ricos personagens transformarem a obra em algo inesquecível. É o seguinte: o jovem pilantra Chris está com alguns problemas com seu negócio (tráfico de drogas, mas bem pequeno). O cara está devendo uma grana que não tem para pessoas, digamos, perigosas. Munido então de um cérebro não tão excepcional (provavelmente um resultado de sua criação), ele tem a brilhante ideia de contratar um assassino de aluguel, conhecido como Killer Joe Cooper, para matar sua mãe e assim faturar a apólice do seguro de vida da velha (não se preocupem, a mãe é mil vezes pior do que ele). 

Para por o plano em prática, Chris pede ajuda de seu pai Ansel, sendo que sua nova madrasta, Sharla (dona da vagina da qual falamos), vem a tiracolo no acordo. Sua estranha irmã caçula Dottie (com a qual tem uma estranha relação) também acaba fortemente envolvida na negociação. Obviamente algo sai errado, e todas as arestas são aparadas em um ótimo jantar em família. O prato, você pergunta? Frango frito do "K Fried C", claro.



O bom resultado da fita se alicerça principalmente no elenco escalado, que colabora de maneira inspirada para o desenvolvimento da trama e suas personas. Temos Emile Hirsh, Juno Temple, Gina Gershon e Thomas Haden Church realizando um excelente trabalho. Mas é o texano Matthew Conaughey quem rouba a cena com um dos melhores papéis de sua vida, o famigerado protagonista Killer Joe. Sua interpretação é riquíssima em detalhes, trejeitos e particularidades assustadoras. Sua cadência de voz é fantástica, e seus olhos, hora esbugalhados, dizem "morte" sempre que esta em cena - as veias de seu pescoço saltam como se procurassem uma saída. Algo milimetricamente desenvolvido. A direção de Friedkin se revela concisa ao valorizar tudo isso ao máximo, se mantendo focada na exploração do roteiro de argumentos absurdos de Tracy Letts

"Killer Joe - Matador de Aluguel" ultrapassa limites, exige de seus atores das tripas coração, oferece momentos pesados, sangrentos, inconvenientes e que revelam o lado sórdido da humanidade, neste caso em especial dos malucos que vivem no Texas - aliás, o filme é uma grandessíssima homenagem (as avessas) ao estado. O humor consegue atenuar certas atitudes, e faz com que absurdos sejam apenas hilários (talvez repugnantes também). É um filme indicado para adultos, uma espécie de pulp noir deturpado, que tem um golpe/assassinato como pano de fundo. Ele dificilmente pode ser descrito somente em palavras, é preciso ver com o próprios olhos. Com um desfecho memorável, a fita é sem dúvida uma opção válida para quem busca algo ousado e honestamente vulgar.

PS:  A capa do filme, que apresenta uma coxa de frango frita no formato do estado do Texas, aparentemente faz uma brincadeira com a capa do também polêmico "A Serbian Movie", que traz uma montagem de imagens no formato da bandeira da Sérvia. Apesar do resultado ser engraçado, ele gera um certo sentimento de filme B, coisa que "Killer Joe" não é.  

PS2: O trailer abaixo contém muitos spoilers, e infelizmente não achei outro. Por isso se for ver, esteja avisado!





Killer Joe - Matador de Aluguel/ Killer Joe: EUA/ 2011/ 102 min/ Direção: Willian FriedkinElenco: Matthew McConaughey, Emile Hirsch, Juno Temple, Thomas Haden Church, Gina Gershon