Expresso do Amanhã (Snowpiercer)

Viagem ao fim dos tempos.

Todos foram alertados de que um dia poderíamos sofrer com a degradação de nosso meio ambiente. Sendo assim, irremediavelmente, a mãe natureza se tornou impiedosa, e o resultado desta fúria acumulada  combinada com estratégias científicas completamente equivocadas  foi o congelamento total do planeta Terra e a quase extinção da raça humana. Quase

Os poucos sobreviventes não tiveram outra escolha senão embarcar como tripulantes definitivos do gigante trem batizado como Snowpiercer, uma verdadeira maravilha da engenharia moderna. 

Estamos falando de uma locomotiva auto-suficiente, forte o bastante para furar seu caminho por entre o gelo que domina tudo e todos. Não existem estações para o Snowpiercer, ele se move sem parar, eternamente alguns diriam. Quando completa seu trajeto (um círculo desforme ao redor do globo), todos a bordo celebram com palmas o aniversário de 365 dias completos. E é mais ou menos dezoito voltas depois de sua derradeira partida que a história do "Expresso do Amanhã" se inicia.



Este trem representa a humanidade, uma nova humanidade, e também a única que resta. E como é de costume dos homens, separações de classe devem existir – nada mais apropriado para o meio de transporte em questão. Sendo assim, o Snowpiercer se transmuta em uma espécie de gráfico horizontal, que resume perfeitamente a essência de nossa raça humana: na frente temos a primeira classe, com centenas de pessoas que não se importam com as milhares de pessoas da segunda classe, estas localizadas na cauda do trem. Classes nunca se misturam. Ninguém de trás sabe como é a frente e vice-versa.

Neste confinamento perturbador, o famoso engenheiro Wilford, criador da milagrosa locomotiva auto-suficiente, mestre recluso e mítico, se tornou um novo papa a ser adorado, o pai fecundador do motor eterno. Seu trabalho é preservar e resguardar a santa peça de metal. Ele foi um dos principais idealizadores desta racional, mas desnecessária ideia, de dar esperanças a raça humana, como se ela houvesse possuído alguma anteriormente.



Nossa visão primordial, como audiência, é deste fundão, cuja simples concepção de vida provoca calafrios. Todos os dias os tripulantes desafortunados são contados e doutrinados pelos lacaios da primeira classe. Eles recebem sua alimentação de forma controlada, uma barra gelatinosa de cor preta e de aspecto asqueroso. Uma deliciosa iguaria proteica feita de... bem, nem queira saber do que ela é feita. 

Submissão é palavra de ordem para a segunda classe. Punições severas desmembram de forma simbólica aqueles que se opõem. Houve revoluções anteriormente, e muitos perderam a vida para que o controle deste status quo se mantivesse. Mas para o passageiro Curtis, um novo levante é mais do que necessário.

Esta progressão dos sobreviventes da cauda até o santo motor, e a problemática transformação de Curtis em um novo líder, são a base fundamental do eficiente roteiro do longa, talhado de maneira inspirada por Kelly Materson e o diretor sul-coreano Bong Joon-Ho. A obra é uma adaptação da HQ "Le Transperceneige", de Jacques Lob, Benjamin Legrand e o ilustrador Jean-Marc Rochette  tendo este último colaborado com o filme, provendo os retratos que servem como importantes arquivos históricos do Snowpiercer (veja mais aqui.)



"Expresso do Amanhã" é um Sci-Fi genial. A direção arrojada, inventiva e desafiadora de Joon-Ho faz da experiência algo memorável. A mistura multicontinental dos envolvidos na produção, oferta uma personalidade distinta, com os exageros romantizados do cinema oriental se mesclando ao realismo asséptico do cinema europeu. E de quebra, o protagonista é o Capitão América, conhecido também como Chris Evans. O ator entrega sua melhor interpretação até então. O elenco na verdade oferece constantes e gratas surpresas. Temos grandes participações de atores como Jamie Bell, John Hurt, Octavia Spencer, Alison Pill, Ed Harris e Tilda Swinton, sendo esta última destaque absoluto dentro do eficiente grupo.

"Expresso do Amanhã" é visualmente belíssimo. Um passeio sangrento por vagões desconhecidos, que revelam segredos cada vez mais intrigantes, revoltantes e mortais. A cenografia consegue reproduzir com perfeição a claustrofobia suja da parte de trás do trem, sempre abarrotada de pessoas. As câmeras de Joon-Ho desfilam com precisão por corredores estreitos e cantos apertados, tudo com extrema maestria, se desviando de balas e machados ensanguentados, dividindo o precioso espaço com dezenas de figurantes. E mesmo diante de tanta destreza cinematográfica, o melhor de tudo é o sombrio, violento e criativo cenário apocalíptico retratado. Uma imagem desfigurada, mas ainda sim realista, do que é nossa sociedade... hoje e sempre.





Expresso do Amanhã/ Snowpiercer: 2013/ Coreia do Sul, EUA, França, Repúlica Tcheca/ 126 min/ Direção: Bong Joon-Ho/ Elenco: Chris Evans, Jamie Bell, John Hurt, Octavia Spencer, Alison Pill, Ed Harris, Tilda Swinton

Free to Play

Uma nova geração de campeões

Gamers de todo o mundo ficaram mais que surpresos quando foi anunciado (lá em 2011) que o primeiro torneio de "Dota 2" para equipes (batizado como "The International") premiaria com um milhão de dólares seus vencedores. 

Realizado na feira GamesCom, o evento se tornou o epicentro de uma nova geração de campeões. Nunca uma competição de jogos eletrônicos (ou eSports) havia oferecido tanto dinheiro. 

A brincadeira então se tornou algo muito sério, e por isso a mítica empresa Valve decidiu realizar o documentário "Free to Play", que descreve detalhadamente todo o efeito transformador desta verdadeira revolução, e que também investiga auspiciosamente o "lado humano" dos jovens por trás das máquinas. Por algum motivo a fita foi liberada só agora.

Para aqueles que não sabem, "Dota 2" é um jogo multiplayer online insanamente consolidado. Seus conceitos são básicos: dois times de cinco jogadores se enfrentam em uma arena, e cada um tem uma base para defender. A equipe que primeiro conseguir quebrar a defesa do time adversário e destruir sua base vence a partida.



Toda a essência técnica de "Dota 2" é muito bem explanada, e a esquemática das partidas se torna compreensível para todos. Algumas animações feitas em computação gráfica, visualmente deslumbrantes, remontam os pontos altos do torneio. Podemos acompanhar de perto, literalmente dentro do campo de batalha, o momento exato em que personagens alcançam a glória ou fatidicamente encontram somente desolação. 

No entanto, a abordagem do tema vai muito além desse aspecto competitivo. "Free to Play" analisa a fundo o perfil dos jogadores de "Dota 2", e constata que, para alguém se tornar campeão mundial deste eSport, é necessária dedicação descomunal, além de extrema coragem. 

O preconceito enfrentado por aqueles que ganham ou pretendem ganhar a vida jogando vídeo game é sempre constante, e muitas vezes oriunda do próprio núcleo familiar. Para alcançar o entrosamento perfeito, equipes passam centenas de horas na frente do computador, muitas vezes se privando de noites de sono, para assim lapidar estratégias de um time multicontinental, que não divide o mesmo fuso horário, por exemplo. 

O futuro destes caras é totalmente incerto, pois apesar do patrocínio de equipes crescer cada dia mais, muitos deles não recebem salários e não possuem garantias por anos dedicados ao ofício. Eles vivem basicamente de competições, por isso a possibilidade de derrota se torna, acima de tudo, moralmente cruel.



Todos estes jogadores que se entregam totalmente aos eSports são desbravadores e revolucionários, que apostam alto em algo arriscado. Quanto mais tempo eles jogam, menos se dedicam a uma possível carreira que lhes forneça segurança e estabilidade. Porém, a possibilidade de se tornar um grande herói dos games é tentadora, e neste campeonato de "Dota 2" em particular, a chance se fez valiosa

E para exemplificar estas diferentes adversidades e paixões que fazem o universo gamer girar, "Free to Play" acompanhou três profissionais de "Dota 2". São eles: Danil "Dendi" Ishutin (da Ucrânia, equipe Na`Vi), Clinton "Fear" Loomis (EUA, equipe OK.Nirvana) e Benedict "HyHy" Lim (Sigapura, equipe Scythe). Por entre distintos relatos, somos apresentados ao núcleo familiar de cada um, e podemos conhecer melhor seus medos, tristezas, dilemas, e também suas habilidades acima da média.    

Dandi por exemplo gostava de dançar e tocar piano quando jovem, e hoje é considerado praticamente um jedi do "Dota 2". Já Fear foi abandonado pelo pai, e mesmo tendo sido expulso de casa, recebe total apoio da mãe para a vocação. HyHy por sua vez, enfrenta a mais genuína pressão negativa por parte da família, e para piorar, sua namorada o abandonou antes do mais importante campeonato de sua vida, só que ele não desiste dela assim tão fácil - até mesmo história de amor o documentário oferece.



"Free to Play" é antes de tudo um filme motivacional, que fala sobre a conquista de sonhos e a superação necessária para isso. O roteiro consegue amarrar muito bem a evolução do torneio com a exploração de seus protagonistas. Toda a parte técnica da produção se mostra eficiente, principalmente trilha sonora e edição, tornando a mensagem cool e atual.

No final, podemos constatar que estes profissionais de "Dota 2" dividem angústias semelhantes a de muitos outros jovens que hoje tentam fazer parte de um massacrante mercado de trabalho. Mas para os gamers existe uma solução simples para a equação: escolher uma carreira e ter todo o resto da vida para trabalhar nela, ou ter a chance de ser um deus dos vídeo games, respeitado e até mesmo idolatrado por milhares de pessoas. Como competir com isso? 

Assista o documentário, com legendas em português, logo abaixo:



Free to Play: 2014/ EUA/ 75 min/ Elenco: Benedict Lim, Danil Ishutin, Clinton Loomis

True Detective - Primeira Temporada

Luz versus escuridão.

[Este texto contém spoilers!] Eu nunca acreditei que a TV americana, quando analisada como peça de entretenimento e arte, fosse um dia, de verdade mesmo, superar o cinema. Muito já foi dito sobre isso, que a ascensão de novas séries é algo lucrativo, dominante, que oferecem altíssima qualidade autoral e fazem com que todo mundo deixe os filmes um pouco de lado pra se esticarem no sofá e assistir o series finale de "Breaking Bad" ou o Casamento Vermelho de "Game Of Thrones". 

Bom, no domingo passado eu finalmente acreditei que a TV foi mais maneira que o cinema, pelo menos naquele momento em particular, quando assistia o oitavo e último episódio da primeira temporada de "True Detective"

E se aconteceu uma vez, vai acontecer de novo.

Tá certo que a HBO não é simplesmente TV. Os caras já provaram isso com tantos outros trabalhos sensacionais, como "Band of Brothers" e "The Pacific" (citando apenas dois que me vêm à mente agora). Mas com "True Detective" as barreiras se expandiram. Começando pela dupla escalada para interpretar os detetives Rust Cohle e Marty Hart: ninguém menos que os texanos Matthew McConaughey e Woody Harrelson, amigos de longa data, que já trabalharam juntos muitas vezes e são renomados astros de Hollywood, ambos com clássicos memoráveis no currículo. 

McConaughey vive o ápice de sua carreira após ganhar o Oscar de melhor ator pelo excelente "Clube de Compras Dallas". Podemos ver que na série ele ainda recupera os 22 quilos perdidos para o papel de Ron Woodroof, libertário defensor dos portadores do vírus HIV.

Harrelson, que é mais prolífero, já trabalhou com diretores renomados como Milos Forman, Irmãos Coen e Terrence Malick. Mesmo assim, é possível dizer que este foi um de seus melhores trabalhos, senão o melhor trabalho de sua carreira. Temos então um ganhador do Oscar em ascensão e um ator experiente motivado. Ambos amigos e entrosados.


O restante do elenco não foi escolhido com menor atenção. Entre tantos atores que vem e vão, todos deixaram suas marcas. Seja a bela Michelle Monaghan como a badass Maggie Hart, Shea Whigham como o pastor Joel Theriot, Michael Harney como o xerife Geraci ou Christopher Berry como o meliante Danny Fontenot. Toda interpretação captada por "True Detective" necessariamente diz alguma coisa verdadeira.

E mesmo com uma participação pequena, um dos maiores destaques deste time é Gleen Fleshler. Ele interpreta Errol Childress, psicopata que ascendeu ao panteão dos mais famosos vilões de nossa cultura pop. E isso da noite para o dia

A escolha de tornar Errol um personagem vilanesco caricato foi acertada. Os elementos que montam esta personificação do mal são extremamente simbólicos, quando comparados a mitologia da vertente: a casa completamente desmazelada, cheia de resquícios de vítimas por todos os lados. Bonecas quebradas, roupas rasgadas, o pai torturado e preso no quintal, com a boca costurada e de aspecto cadavérico. Por fim, a relação sexual com a irmã, sendo que ambos são possíveis filhos de incestos. Um forte contorno grotesco. 

A intenção nunca foi abordar a caraterização de Childress de maneira contida, pois o público merecia um psicopata no estilo clássico do gênero, e não algum pai de família engravatado que secretamente comandava assassinatos em massa de seu escritório. 

Com esta ideia de personagem em mente, e depois de muitas conversas e deliberações com o criador da sérieFleshler conseguiu, de forma complexa e assustadora, entender as motivações do maníaco, e fazer dele alguém crível, morbidamente admirável, que no final poderia ter vencido o confronto mais antigo de todos

Mas afinal, seria Errol o Rei Amarelo? Ou seria esse cara aqui?



- Heranças, Maquinações e Teorias do Rei Amarelo

A trama de "True Detective" aborda, principalmente, a dívida moral compartilhada pelos detetives Rust Cohle e Marty Hart, e também todas as mazelas causadas pela mesma. A busca por respostas para o assassinato de Dora Lange os conduziu por um labirinto de acontecimentos bizarros. E na abandonada Louisiana pós-Katrina, descobriram que a pedofilia e o sacrifício humano eram celebrados, canonizados e transformados em religião pelo Rei Amarelo, no reino perdido de Carcosa.

A justiça não encontrava estrada certa porque a seita de mascarados se escondia em lugares altos da sociedade. Religiosos, senadores e xerifes formavam uma grande e mórbida família que, de maneira quase sobrenatural, apagava seus rastros e ligações. Mas todo maníaco precisa de um troféu, que sirva como uma lembrança visual que se repete na mente, ou que mereça ser exposta como uma obra de arte. No final desta história, o que fica é a cruel e intragável verdade de que apenas o carrasco foi abatido naquele coração das trevas de Carcosa, sob o vórtex de Cohle. 

E diante de tamanha criatividade narrativa, é fácil constatar que a peça fundamental do sucesso de "True Detective" é seu texto. Nic Pizzolatto, roteirista de todos os episódios, escreveu seu primeiro livro, "Galveston: A Novel", em 2010. Antes disso ele havia lançado apenas "Between Here and the Yellow Sea", um apanhado de contos e pequenas histórias. Depois de ajudar na elaboração dos episódios finais de "The Killing", o mesmo emergiu como criador e produtor de "True Detective", meio assim que do nada. No entanto, esta evolução acelerada do cara é bem compreensível, pois sua escrita é de fato genial.

A linguagem carregada de simbolismos, com que o mesmo encapsula este universo sulista de terror e maquinações diabólicas, é algo inédito. A exploração de seus complexos e intangíveis personagens possibilita a construção de diálogos memoráveis. Por exemplo, o raciocínio niilista de Rust, que pode ser tido como pessimista por muitos ou realista por outros, se entrelaça ao conservadorismo hereditário e praticamente instintivo de Marty, que apesar de muito inteligente se encontra preso a regras de conduta obrigatórias. Regras que o mesmo torce a todo momento em seu próprio benefício.



Essa inteligente dinâmica oferece, basicamente, a eloquência poética de Rust (ao descrever a falta de sentido da raça humana, por exemplo), e o descaso banalizado de Marty, que mais parece a defesa de um precioso conformismo. É daí que surgem trechos de diálogos que possivelmente não serão esquecidos pela audiência, como a teoria de que a vida é um circulo achatado e tudo que acontece se repetirá eternamente. Uma mistura cínica de Nietzsche, cosmologia quântica e, porque não, karma.

Um fator que chamou bastante atenção dos aficionados foi que Pizzolato inseriu, consciente e inconscientemente, pistas que remetem a obra que lhe serviu de referência para a criação de "True Detective". No caso, estamos falando do livro envolto por ares sobrenaturais, "The King in Yellow", de 1895, escrito por Robert W. Chambers. Este trabalho de Chambers também influenciou H.P. Lovecraft em seu "O Chamado de Cthulhu", que posteriormente se transformaria numa fonte de inspiração para infindáveis diretores, músicos e artistas apreciadores de temas mais sombrios. 

Devido a esta homenagem enigmática à Chambers (que envolve o Rei Amarelo, o misterioso local conhecido como Carcosa, as estrelas caídas e as máscaras dos homens), a série acabou ganhando ares conspiratórios em diversos fóruns internet adentro (vide Reddit). Qualquer detalhe poderia ser uma nova pista.


Uma das teorias mais estapafúrdias com que me deparei atestava que o Rei Amarelo era o dono de um restaurante vietnamita (aquele do luminoso de beira de estrada, no formato de uma coroa gigante). No caso, o indivíduo seria um sobrevivente da guerra do Vietnã, que viajara aos Estados Unidos para se vingar do pai de Rust e toda sua família, tudo por causa de um pecado de guerra. Desde então Rust estaria sendo perseguido por este "Rei Amarelo" vietnamita – eu sei, a teoria além de cretina é basicamente racista.

Mas isso apenas demonstra o quão impactante e mítica foi a história desta primeira temporada de "True Detective" para os fãs. Detalhes foram esmiuçados, tatuagens investigadas, cicatrizes nas costas comparadas, crenças e descrenças discutidas, símbolos pareciam se multiplicar e paródias naturalmente foram compiladas (veja a melhor aqui). Se formou assim um intenso e instigante cenário conspiratório.

- O Ponto de Vista Perfeito

Chegamos assim na direção arrojada de Cary Fukunaga, californiano que despontou depois do eficiente longa metragem de época "Jane Eyre". Fukunaga dirigiu todos os oito episódios de "True Detective", algo não muito comum neste meio. E durante esta empreitada, o mesmo foi capaz de prover cenas impecáveis, hora pesadamente mórbidas, outras carregadas da mais genuína tensão que existe. Apoiado por uma trilha sonora arrasadora (vide a música completa de abertura), o diretor, com naturalidade imensa, conseguiu emular distintos gêneros e conceitos, tudo através de sua narrativa concisa e ampla visão do script.



Por exemplo: em certa cena vemos Rust e Marty em uma perseguição atocaiada. A trilha incidental neste momento nos leva ao melhor clima de ação policial dos anos 70. Logo em seguida a dupla encontra seus alvos, Dewall e Reggie Ledoux, que estavam escondidos numa espécie de laboratório/cativeiro, onde seriam por fim executados. Esta sequência é apenas uma de tantas outras que foram talhadas com destreza por Fukunaga, e produzidas com perfeição pela equipe técnica. 

Porém, a forma com que a cena é descrita apresenta uma criatividade singular: enquanto o voice-over de ambos detetives reportam o acontecimento de maneira X, o mesmo acontece de maneira Y na tela (ligeiramente mindfuck). Sorrateira, aquela sensação de genuína tensão reaparece, seguida pela satisfação mórbida de ver um monstro sendo alvejado no rosto e outro explodindo ao meio numa armadilha caseira. Todo o resto é amarrado por cenas impecáveis, como as belíssimas tomadas em slow motion de Rust atirando ao léu com uma Kalashnikov, para assim montar sua tal versão X. 

É necessário também relembrar o incrível take único de seis minutos no episódio "Who Goes There", um honesto desafio egomaníaco de Fukunaga. Basicamente, a sequência serve como cartão de visitas do diretor. Revela todo o desenvolvimento de seu trabalho e exalta o controle de suas aptidões. Épico. Por fim, temos a monumental batalha entre luz e escuridão de Rust, Marty e Errol no coração das trevas de Carcosa. Um desfecho definitivamente carregado de pesadas emoções, com andamento e clímax exatos. 

Vale lembrar ainda o apoio da cenografia para o resultado final. Além de adaptar com fidelidade todos os 22 anos que abraçam a história (1995 a 2012), eles demonstram com sua Carcosa, abarrotada de devil nets gigantes, toda a dedicação e genialidade da direção de arte. A igreja queimada e o cativeiro de Dewall e Reggie Ledoux são outras construções, erguidas do zero, que também merecem aplausos.

- Quebrando o Ciclo

A evolução dos personagens de Harrelson e McConaughey pode ser considerada o toque de classe da produção. Enquanto Harrelson traça uma complexa linha de dualidades e hipocrisias para Marty, McConaughey elabora para Rust uma linguagem corporal e psicológica tão bem delineada, que o cara instantaneamente se torna um anti-herói de primeira classe, cheio de olhares delirantes, estagnados, cadências e discursos hipnotizantes, e certa arrogância latente. A transformação física que os dois sofrem, durante o decorrer atemporal da história, aumenta a extensão e complexidade dos personagens, e ainda sim, o resultado de ambos é irretocável.



Naturalmente, houve reclamações sobre o season finale "Form and Void". Alguns fãs ficaram descontentes por Rust ter encontrando a luz. Nic Pizzolatto afirmou (para o site Entertainment Weekly) que optou por este desfecho otimista para fugir de um crescente esquema polemizado pela mídia: o de matar protagonistas. A sobrevivência dos detetives foi o ponto final no ciclo de violência que os rodeava, só que o mais importante é que ambos aprenderam com isso. 

No caso, Rust descreve de forma melancólica sua experiência pós-morte: dentro de sua mente, enquanto estava morrendo, num local de pura consciência, ele sente, talvez pela primeira vez, o amor de sua filha em plenitude. 

Esta sensação, narrada de forma visceral por um personagem de convicções até então inabaláveis, é a mensagem principal de Pizzolatto. Mas que não fala de redenção, conversão ou mesmo conclusão. O criador da série exemplifica que não existe verdade absoluta, e também rascunha um futuro em que seus personagens consigam se imaginar livres deste solitário pesadelo em que vivem, vencedores enfim. "True Detective" propõe que um ciclo, como aquele descrito ao longo da história, pode sim ser quebrado, e que qualquer um pode mudar, até mesmo Rust. Se o inferno é repetição, agora eles enxergam uma saída, uma luz no fim do túnel. Alcança-lá plenamente é uma longa jornada, mas o caminho se fez mais claro agora.

PS #1: Na segunda temporada de "True Detective", Pizzolatto disse que a ideia será: "Mulher durona, homem ruim, e os segredos ocultos do sistema de transporte americano".

PS #2: Script do Season Finale que não foi aprovado, AQUI! (LOL) 


  

True Detective, 1ª Temporada: 2014/ EUA/ Criador: Nic Pizzolatto/ Direção: Cary Fukunaga/ Elenco: Matthew McConaughey, Woody Harrelson, Michelle Monaghan, Michael POtts, Tory Kittles, J.D. Evermore, Madison Wolfe, Kevin Dunn, Glenn Fleshler...

12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave)

Um olhar de dentro do abismo.

Solomon Northup foi um pai de família dedicado e músico talentoso. Era letrado, inteligente acima da média e espirituoso como poucos. Ele também foi escravo, mesmo tendo nascido livre no norte dos Estados Unidos, mais exatamente na capital Washington.

A história de "12 Anos de Escravidão" veio do próprio punho de Solomon. Seu livro, "12 Years a Slave", é um relato brutal e verídico do período em que foi sequestrado e posto à trabalhar em plantações no estado da Louisiana, em regime de escravidão, junto com muitos outros negros sulistas. 

No período, as diferentes linhas de raciocínio entre o Norte e Sul dos EUA em relação a escravidão - motivação propulsora da Guerra Civil Americana, tecnicamente - se encontravam em uma bifurcação problemática. Existiam os negros livres no Norte, enquanto no Sul os mesmos ainda eram propriedade. Devido a falta de voz e direitos irrisórios dos livres, esse mórbido esquema de sequestro se tornou um artifício a ser efetuado com frequência. No final, dificilmente um escravo conseguiria provar que era um homem livre, ainda mais se estivesse preso no Sul. Ele seria taxado apenas como um negro fujão. Ele seria nada.



Discorrer sobre os acontecimentos desta história é algo que não cabe a esta análise. Cada minuto da obra possui valor inestimável, por isso o conselho é que a mesma seja vista o quanto antes. No entanto, é fato sabido que depois de 12 anos como escravo, Solomon conseguiu novamente sua liberdade. Um final que, obviamente, está longe de ser plenamente feliz. 

O que devemos discutir aqui é qualidade do trabalho enquanto cinema. O diretor Steve McQueen já havia abordado com profundidade as maldições do vício pelo sexo em "Shame", e também retratou com visceralidade a greve de fome de prisioneiros irlandeses no sensacional "Hunger". Mas com "12 Anos de Escravidão" ele foi além do esperado. 

Primeiramente, a abordagem do tema é asséptica e racional. McQueen se preocupa em não se aproveitar da história de maneira oportunista, não desvirtuar o propósito e nem a moral do que está contando. Em outras palavras, ele não faz da fita um instrumento de excessivo melancolismo. Sendo assim, durante a maior parte da projeção, percebemos que não existe a intenção de verter lágrimas da audiência. As cenas despertam outros tantos sentimentos, como o repúdio, a inconformidade e a raiva, mas os momentos de maior dramaticidade são relativamente poucos, no entanto estes nunca serão esquecidos por aqueles que os virem.



O roteiro de John Ridley corrobora esta narrativa. Moldado por uma linguagem poética e classicista, o texto sempre encontra a forma correta de resumir acontecimentos que, de fato, extirpam palavras. Uma construção carregada de argumentos edificantes e passagens memoráveis. Uma adaptação digna de prêmios e condecorações. 

Enquanto isso, a trilha sonora do talentoso Hans Zimmer entoa a cadência necessária que mantém emoção e andamento nos trilhos. As belíssimas melodias usam o silêncio como uma peça estratégica, se revelando sutilmente quando necessárias, se tornando então retumbantes. As cantigas entoadas pelos escravos também são preciosidades a serem reverenciadas. Nestas simples composições temos emulados todos os elementos rítmicos e culturais que posteriormente seriam as raízes da música gospel Afro-Americana, e que até mesmo influenciariam o Blues de Robert Johnson (vide "Roll Jordan Roll").
    
É interessante notar a abordagem de temas complexos propiciados pela história, como por exemplo a estranha realidade dos negros que se viam livres, enquanto outros não possuíam a "mesma sorte". A incapacidade de poder ajudar é um dos mais devastadores sentimentos abordados pelo filme. O vazio no olhar dos personagens exemplifica a dor corrosiva. A incompreensão também nos abate quando vemos um grupo em maior número se submeter a tamanha tortura. Nossa ignorância não consegue alcançar o completo entendimento da realidade daqueles homens e mulheres nascidos escravos.



A força motriz do filme, como foi dito, é sua direção. Mas o empenho do elenco é o corpo que dá movimento a produção. Resumidamente, em termos de comparação com nossa história recente, temos no longa algumas das melhores atuações da última década.

Chiwetel Ejiofor demonstra com exímia dedicação sua formação clássica como ator ao interpretar o protagonista Solomon. Trabalho impecável e eloquente de um profissional simplesmente completo. O genial Michael Fassbender também desaparece por trás da ignorância sádica de Edwin Epps, um dos donos de Solomon durante sua jornada. Já Lupita Nyong'o tem relativamente poucas falas, mas que são mais do que suficientes para que sua personagem Patsey se torne um símbolo dos horrores da escravidão, em suas mais complexas formas: amor, ódio e possessão. 

Temos ainda cenas incríveis com Christopher Berry, Paul Giamatti, Benedict Cumberbatch, Paul Dano, Sarah Paulson e Brad Pitt. Um grupo excepcional de atores, trabalhando de maneira inspirada pela história que Steve McQueen se propõe a contar. Algo memorável de se ver.

No final, "12 Anos de Escravidão" nos descreve um olhar de dentro do abismo. Aquele em que a sociedade escravocrata despejou suas vítimas. Estamos falando de uma queda vertiginosa, que oblitera qualquer resquício de humanidade, que condena pela eternidade quem olha de cima, e que dilacera os que se espremem embaixo.  

A vida de Solomon Northup não foi em vão. Ele foi sequestrado e tratado de forma desumana por mais de uma década de sua vida, mas conseguiu vencer as adversidades, sobreviver e ajudar os necessitados. Só que mesmo assim, diante de incríveis histórias como a deste homem, diante da perda injusta de milhares, parte de nossa sociedade ainda opta pelo abismo, e todo o desespero que ele proporciona.

PS: Aproximadamente 30 milhões de pessoas vivem hoje em regime de escravidão.





12 Anos de Escravidão/ 12 Years a Slave: 2013/ EUA, Reino Unido/ 134 min/ Direção: Steve McQueen/ Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Lupita Nyong'o, Christopher Berry, Paul Giamatti, Benedict Cumberbatch, Paul Dano, Sarah Paulson, Brad Pitt

Oldboy - Dias de Vingança (Oldboy)

A celebração do desnecessário.

Dizer que nada de novo é produzido em Hollywood seria um exagero, porém é verdade que a indústria cinematográfica vem sugando de maneira desmedida os famosos reboots e remakes. Parece que o saudosismo e as peculiaridades do passado se tornaram uma rentável alternativa para os grandes estúdios. Por isso, quanto mais melhor.(?)

Mas enquanto algumas dessas realizações acertam no tom e principalmente na intenção, outras erram feio, fato que levanta certas questões sobre as reais motivações de todo esse mercado.

Suposições à parte, chegamos neste "Oldboy" agora americano. Oficialmente, o filme não é um remake daquele outro "Oldeuboi" que foi dirigido de forma brilhante por Chan-wook Park em 2003. No caso, ele seria uma diferente adaptação da série mangá homônima de Garon Tsuchiya e Nobuaki Minegishi. Mas na teoria essa conversa não convence, pois afinal, a produção pega carona no sucesso da versão sul-coreana sem suar nenhuma gota. 

"Oldboy" é um dos mais famosos contos de vingança de nossa cultura pop moderna. Ele nos fala sobre o sofrimento de Joe, sujeito que é preso por duas décadas em um quarto de motel sem nem ao menos saber a razão. Mas num dia qualquer o mesmo acaba solto, abandonado no meio do nada dentro de uma mala. Seu único instinto ao recobrar a consciência é: descobrir porque foi preso e destruir o responsável por isso.



Apesar de estranha, a escalação do diretor Spike Lee trouxe credibilidade para o projeto, assim como a presença de Josh Brolin no papel do protagonista Joe. No entanto, o que vemos na tela é uma tentativa frustrada de emular uma grande história. A personalidade da obra fica perdida em meio aos expressivos conceitos orientais de cinema e ao pastiche dos filmes americanos de ação.

O roteiro de Mark Protosevich é talvez o maior dos problemas. O argumento se estende de forma desnecessária por entre os atos do filme, tornando o andamento pouco natural. A abordagem da temática é rasa, cheia de inconsistências e "facilitações". Para citar dois exemplos destes problemas, peguemos a longa e cansativa sequência inicial, que tenta, sem sucesso, se aprofundar na falta de caráter de Joe como se procurasse uma justificativa. Opção superficial, caricata e ausente de propósito. Já a cena em que a personagem Marie Sebastian conhece Joe (um momento importante) é de um acaso tão grande, que provavelmente se trata de um presente do destino. Mas não. É algo apenas relaxado e pouco inspirado (aqui você não verá ninguém comendo aperitivos vivos).

No geral, nada novo consegue tornar a trama digna do interesse que merece. As tentativas de ocidentalizar elementos da narrativa não comungam com o espírito da história. Elas são aleatórias e esquecíveis, para se dizer o mínimo. Mesmo que o personagem Adrian ofereça algumas ideias transformadoras, nenhuma agrada plenamente. O fato é que, com este lançamento, as apostas criativas deveriam ser altas, e não foram. Mas isso já parecia extremamente óbvio para boa parte do público.



Tecnicamente a produção tem seus acertos. A cenografia é competente, existe um eficiente trabalho com a paleta de cores, a trilha sonora funciona, assim como a violência bruta, que é visualmente realista e eventualmente aflitiva. 

Mas os defeitos não são atenuados a marteladas ou tiros de espingarda calibre 12. A fotografia escolhida é ordinariamente padronizada. Ela arranca a vida da tela e enlata. As lutas coreografadas sofrem com tamanha falta de naturalidade que, de tão obvias, é possível prever para onde a câmera vai ou quem é o próximo a golpear - bem diferente da versão de Wook Park. Mas lá não existe esse esquema de luta coreografada, apenas ensaiada.   

As coisas não melhoram com o elenco. Josh Brolin foi uma péssima escolha para o papel de protagonista. Primeiramente, por causa dele, não percebemos em Joe nenhuma transformação, nem física (inicialmente ele estufa barriga, posteriormente ele murcha) e muito menos psicológica. Brolin aborda o sofrimento do personagem de maneira pedante, e para o ódio oferece somente uma cara fechada, alguns gritos e braços erguidos. Elizabeth Olsen ainda é uma atriz inexperiente, mas convence em poucas cenas (inclusive na de sexo). Já Sharlto Copley demonstra entusiamo como Adrian, mas infelizmente não consegue desenvolver algo mais relevante devido as inadequações do roteiro.

Em resumo, esta versão americana de "Oldboy" é mais ou menos o esteriótipo do que seria o esteriótipo da versão sul-coreana. Sua característica mais impressionante é conseguir arruinar uma história incrível, e confesso que isso me parecia impossível. Unindo então minha voz ao coro, digo que este filme pode ser definido plenamente em uma só palavra: desnecessário.

PS #1: Já estava esquecendo, o Samuel L. Jackson também aparece no filme.
PS #2: This is a bad trip joint!




Oldboy - Dias de Vingança/ Oldboy: 2013/ EUA/ 104 min/ Direção: Spike LeeElenco: Josh Brolin, Elizabeth Olsen, Samuel L. Jackson, Sharlto Copley, Michael Imperioli, Pom Klementieff

Nebraska

Esta é a odisseia de um homem ordinário.

Copiando a moral de alguns ditados, digo que a verdadeira riqueza se encontra na simplicidade. Quando vemos trabalhos como "Nebraska", percebemos que uma mensagem, carregada de significados, não precisa necessariamente ser rebuscada. O caráter despojado de um argumento muitas vezes supera a verborragia e virtuosidade de outros. Isso é fato.

"Nebraska" nos conta a odisseia de Woody Grant, um velho ordinário que caminha rumo a debilidade física e mental. Mas enquanto isso não acontece, ele caminha para outro lugar, ou pelo menos tenta, insistentemente. 

O caso é que Woody pensa ter ganho um milhão de dólares num sorteio qualquer, e nada tira de sua cabeça a necessidade de buscar o prêmio em Lincoln, no Nebraska - que fica a praticamente dois estados de distância de Billings, sua cidade em Montana. Como não dirige mais, ele tenta ir andando até lá, o que causa uma tremenda dor de cabeça em sua família.



Visando eliminar de uma vez esta ideia maluca, o filho David, que enfrenta naquele momento uma espécie de crise existencial, decide levar o velho até Lincoln, sendo a viagem uma desculpa para passar mais tempo com o pai, antes que o mesmo perca a pouca sanidade que lhe resta. 

Mas alguns problemas surgem no trajeto. Os dois decidem fazer uma parada estratégica pelo meio do caminho, em Hawthorne, cidade natal de Woody. Depois de muitos anos sem por um pé no lugar, ele chega envolto por ares lendários, já que a notícia de que ficou milionário se espalhou como um incêndio. É então que os abutres começam a sobrevoar o pobre coitado.

A primeira coisa a ser percebida nesta produção é que o roteiro de Bob Nelson é incrível. Um trabalho pessoal inspirado. Enquanto a ideia central evoca simplicidade, todo resto é talhado com esmero. Palavras são escolhidas com precisão, por mais chulas que sejam, e isso faz dos diálogos algo memorável. As divagações entre pai e filho sobre o Monte Rushmore ou sobre "os motivos de se casar" são algumas das linhas mais engraçadas de que me lembro nos últimos anos. 



O elenco é certamente uma grande preciosidade. Sendo formado na maioria por sexagenários (no mínimo), os atores são a encarnação perfeita destes personagens que compõem uma extensa e insana família de irmãos, tios e primos. O destaque obviamente é Bruce Dern, no papel do protagonista Woody Grant. O experiente ator resume, com seu senso de humor único, o fim da vida de um homem rústico, de poucas palavras, que não deseja ser rico simplesmente por requinte. O que ele deseja na verdade é a possibilidade de desejar alguma coisa, reviver aquela antiga sensação de almejar algo novo, e assim fugir da realidade - que se resume em sentar e aceitar um fim de vida miserável. O famoso "jogo da espera".

A atriz veterana June Squib também chama bastante atenção como Kate, a matriarca desta família disfuncional. Não é todos os dias que vemos uma velhinha - que é idêntica a minha vó, diga-se de passagem - falar tanta besteira de uma vez só, e com tamanha naturalidade. Surreal e impagável.

Por fim, Will Forte e Bob Odenkirk interpretam os irmãos David e Ross. Eles formam uma dupla improvável, mas eficiente. Além de atuarem como um instrumento de redenção para o pai - que foi ausente e alcoólatra por toda vida -, ambos servem como uma espécie de bússola moral: enquanto todos enlouquecem por causa de uma história mal contada, eles são os únicos que conhecem a verdade. As maquinações, as mentiras e a ganância do mundo, unidas às decepções do passado do pai, servem então como uma válida lição para estes filhos, e consequentemente para todos nós.



E conduzindo esta viagem de muitos acertos, temos o exímio diretor Alexander Payne ("Os Descendentes"). Para imortalizar o bucólico trajeto de seus personagens, Payne optou pelo preto e branco, o que acaba oferecendo uma personalidade distinta para fita, além de um visual belíssimo. O trabalho de iluminação é impecável, assim como o de composição de cenas. A narrativa se apresenta como um discurso trépido, estranhamente bem humorado e esporadicamente melancólico. O drama e humor são peculiares, daqueles que nunca dão o braço a torcer de que estão sendo realmente tristes ou engraçados. Algo bem ranzinza mesmo.

A trilha sonora de Mark Orton desempenha uma função crucial para o andamento, se tornando então uma peça de destaque dentro da obra. O resultado fica gravado na memória. Sendo basicamente compostos por instrumentos de corda, pianos e trompetes, os temas passeiam por caminhos hora caricatos, hora carregados de sensibilidade. Em certos momentos, algumas influências de Orton remetem a linguagem do francês Yann Tiersen, conhecido por seu trabalho em "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain", o que não deixa de ser um contraste interessante neste mais americano dos filmes.

No final, Alexander Payne e o roteirista Bob Nelson transformam a vida do homem comum em um conto épico, de lembranças e desilusões. Esta poderia ser a história de tantos outros, de qualquer um, e provavelmente seria igualmente incrível se contada dessa maneira. 

Metade da mensagem de "Nebraska" é pessimista, a outra metade é esperançosa. A moral do roteiro nos fala que acreditar nas pessoas é uma armadilha cruel e inevitável. Paralelamente, entendemos também que todos precisamos de alguém que acredite em nosso discurso, por mais mentiroso e sem sentido que ele seja. "Nebraska" é feito destas contradições, de humor e drama nada óbvios, personagens que tentam se odiar mas não conseguem, distâncias que precisam ser percorridas rapidamente, mas que não se aproximam de nada. É poesia em forma de teimosia.





Nebraska: 2013/ EUA/ 115 min/ Direção: Alexander PayneElenco: Bruce Dern, Will Forte, June Squibb, Bob Odenkirk, Stacy Keach, Mary Louise Wilson, Rance Howard, Devin Ratray, Tim Driscoll

Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club)

Sobrevivendo, apesar da ignorância dos homens e do sistema.

Novas audiências podem não saber, e as mais antigas talvez tenham esquecido, mas há três décadas atrás o vírus da AIDS era sinônimo de tudo que existe de pior sobre a face da Terra. A doença era tida como maldita, uma sentença que condenava o doente não só a morte, mas também a injúria, preconceito e difamação da sociedade.

Muita coisa mudou desde então. Com os avanços da medicina e o correto entendimento da doença (sendo o Brasil um dos pioneiros destes estudos), hoje é possível que o individuo diagnosticado como soro positivo tenha controle dos sintomas, e consequentemente mais qualidade de vida. Ou seja, a AIDS já não debilita e mata como antigamente. Mas o caminho até aqui foi tortuoso.

E buscando lembrar disso, ou mesmo não esquecer, o filme "Clube de Compras Dallas" remonta a história real de Ron Woodroof, homem que poderia ter sido um qualquer, mas que se transformou em uma pessoa melhor depois de diagnosticado.

Woodroof era o típico caipira de Dallas. Vivia de montarias, apostas, álcool, drogas e sexo, quase sempre desprotegido. Quando a AIDS alcançou seu pico de mortalidade, o grupo mais afetado foi o dos homossexuais. Na época, quem ficava doente era automaticamente enquadrado dentro do grupo. Existiam então dois preconceitos: estar contaminado com o HIV (no início, médicos mal tocavam os pacientes) e também o desprezo por serem descobertos homossexuais. Mas Woodroof era hétero. Ele mesmo carregava a homofobia como uma hereditariedade sulista, o que tornou sua descida ao inferno ainda mais dilacerante.



No entanto, aparentemente, conceitos e crenças se transformam completamente quando não se têm mais nada a perder. O homem queria se curar, ou pelo menos sobreviver mais um momento. E para isso ele precisava de conhecimento, e consequentemente necessitava da ajuda de outros como ele. Mas toda informação divulgada pela imprensa ou centros médicos era, em totalidade, confusa e equivocada. Ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo. A única coisa certa era que a AIDS não tinha cura

Sendo assim, Woodroof buscou por soluções na linha de frente. Locais independentes onde o problema era realmente combatido, e não apenas deliberado. Depois de conhecer melhor as características do HIV, ele estava apto a prestar um valoroso serviço, e se o mesmo ganhasse algum reembolso para se manter, que mal teria? Woodroof não era santo, longe disso na verdade, mas ajudou muita gente.



O ponto mais relevante discutido em "Clube de Compras Dallas" é a falta de escrúpulos criminosa da industria farmacêutica, que se revelou em conluio com médicos e a FDA (Food and Drug Administration), órgão governamental que controla e aprova todo e qualquer medicamento comercializado nos EUA. Eles padronizaram o tratamento da doença com um produto específico, o AZT. Sem competidores, o remédio gerava lucro, enquanto sua eficácia era simplesmente ignorada. 

O fato é que o AZT, canonizada como a única droga capaz de tratar a AIDS, tentava, erroneamente, eliminar a doença a qualquer preço, se esquecendo de combater os sintomas, como a baixa imunidade - que no final era o que realmente matava. Liberada inicialmente de forma controlada e burocrática, e envolta por lendas milagrosas, de que seria o elixir da vida que todos almejavam, o medicamento foi também vendido ilegalmente e usado de maneira errada por pacientes mais desesperados.

Por ser altamente tóxico, o AZT despencava ainda mais a resistência de seus usuários, e muitos morreram por isso. Só que o grande problema era que, por todo o mundo, estudos apresentavam outras substâncias mais eficientes no combate da doença. Elas visivelmente fortaleciam os enfermos, só que nenhuma dessas substâncias eram aprovadas pela FDA.

E diante de uma fresta na lei, Woodroof conseguiu "comercializar" estes remédios. Ele viajou o mundo atrás do que havia de melhor no tratamento da AIDS, repassando isso para outros "compradores", que na verdade se tornariam sócios deste "Dallas Buyers Club". Nem é preciso dizer que a ganância do homem, disfarçada de justiça, interferiu.



Resumidamente, "Clube de Compras Dallas" é um filme importante, não só por sua incrível e dramática história real, mas também por sua qualidade técnica. O roteiro da dupla Melisa Wallack e Craig Borten é incisivo ao focar os efeitos devastadores da AIDS, e também as consequências geradas pela ignorância do homem e do sistema. Em contrapartida, o texto engrandece as vitórias de seus personagens, e de maneira simbólica imortaliza estes heróis. Uma narrativa estupenda, carregada de veracidade.

Mas o que faz desta uma produção cinematográfica acima da média é a atuação fenomenal do elenco, encabeçado pelo magricela Matthew McConaughey (que perdeu 22 quilos para o papel). O ator texano, que vem realizando ótimos trabalhos nos últimos anos (vide "Killer Joe", "Bernie", "Mud", "O Lobo de Wall Street" e "True Detective") parece ter descoberto, com honestidade dilacerante, a realidade de seu personagem. O raquítico Woodroof parece tão patético no começo, que algumas risadas nervosas são inevitáveis. Mas sua transmutação, que pode ser qualificada como no mínimo improvável, é algo magistral orquestrado por McConaughey. Ele se reinventa a cada minuto diante de nossos olhos. Cena após cena, somos compelidos a nos atentar em todos os trejeitos do ator, a cada palavra dita com total compenetração. É ver para crer.

Outro destaque é Jared Leto ("Requiem Para um Sonho"), que interpreta o transgênero Rayon. O americano se afastou por um tempo de sua banda "30 Senconds to Mars" para voltar ao cinema (ele não atuava há mais de cinco anos), e podemos dizer que fez uma ótima escolha. Leto desaparece por de trás da maquiagem, perucas, voz fina e escaras de seu personagem, e protagoniza alguns dos momentos mais dramáticos da fita. Tanto Leto quanto McConaughey faturaram estatuetas no Globo de Ouro deste ano. 

Enfim, "Clube de Compras Dallas" é um filme que deve ser visto. Como arte o trabalho apresenta méritos indiscutíveis, e como mensagem, somos compelidos a conhecer melhor uma realidade cruel, de mulheres e homens debilitados e segregados, que lutaram sozinhos contra monstros. Eles foram os primeiros a exigir alguma mudança, que apesar de tardia, chegou. Como disse Matthew McConaughey ao receber seu Globo de Ouro: "Esta não é uma história sobre estar morrendo, e sim sobre continuar vivendo." 



Clube de Compras Dallas/ Dallas Buyers Club: 2013/ EUA/ 117 min/ Direção: Jean-Marc ValléeElenco: Matthew McConaughey, Jennifer Garner, Jared Leto, Denis O'Hare, Steve Zahn, MIchael O'Neil, Dallas Robert.