Calvary

Calvário irlandês.

Teoricamente, todo o conceito de sacerdócio da igreja católica, faz de seus padres símbolos de bondade, caridade e obediência divina. Infelizmente, a realidade é bem diferente. Dia após dia provas de inúmeros desvios de conduta daqueles que se dizem servos do senhor ganham os noticiários, sendo estes na maioria casos de pedofilia.

Na história de Calvary, conhecemos então o padre James, um sacristão verdadeiramente honesto, devemos ressaltar. Certo domingo, durante uma confissão, ele recebe um ultimato: vai morrer em sete dias (no próximo domingo para ser mais exato). Sua morte inocente pagará os pecados de outros padres culpados, algo justo para o suposto assassino, que quando foi vítima também era inocente.

Aproveitando então este polêmico pano de fundo, a obra tece uma relevante análise do comportamento moralmente decadente, depressivo e carente de significados de parte de nossa sociedade moderna. Um retrato mórbido de como o ser humano pode se perder pelo caminho de maneira irremediável, independente da esfera social ou clero que pertença, do abuso que tenha sofrido ou adversidade que tenha enfrentado.



Pois bem, diante da ameaça de morte, cada dia do padre James ganha mais valor. Conforme a semana passa, o mesmo continua fiel à suas habituais missões pessoais, e é assim que conhecemos os personagens do pequeno vilarejo irlandês em que a história acontece. Estas são pessoas amarguradas, sórdidas, solitárias, libertinas, arrogantes, perturbadas. Uma coleção de atributos forçosamente detestáveis e deprimentes, que exemplificam as vastas possibilidades da condição humana. E para o público, todos são prováveis suspeitos da tal ameaça de morte.

A direção e roteiro são de John Michael McDonagh, autor que tem no currículo o também atípico e transgressor O Guarda. Tecnicamente, Calvary se apoia na complexidade de seus personagens, todos cínicos e honestos na medida exata. A equipe de atores escalada para a produção é extraordinária, com destaque para Brendan Gleesson, interpretando o padre protagonista James. O experiente ator empresta sua forte personalidade para o irmão atribulado, passeando perfeitamente entre melancolia e uma espécie de humor dissonante, mas ainda sim funcional.

No final, Calvary não é uma obra especificamente de cunho religioso, nem sobre pedofilia ou perversidades irlandesas. Na verdade, este é um estudo visceral sobre a desilusão humana, uma concepção carregada de um fatalismo pragmático assustador. Existem alguns sinais de esperança no contexto, evidenciados pela tentativa de redenção da personagem Fiona, filha que James teve antes de optar pela batina. Mas no geral, a desconfortável mensagem que fica é algo como "bem-vindo a este inexorável círculo de confusão e dor... puxe uma cadeira". Recomendado.





Calvary: 2014/ Irlanda, Reino Unido / 100 min/ Direção: John Michael McDonagh/ Elenco: Brendan Gleeson, Chris O'Dowd, Kelly Reilly, Aidan Gillen, Dylan Moran, Isaach De Bankolé, M. Emmet Walsh, Domhnall Gleeson


O Melhor Pai do Mundo (World's Greatest Dad)

Um dos melhores e menos conhecidos trabalhos de Robin Willians.

O suicídio de Robin Willians exemplifica pelo menos duas verdades: nada é o que parece, e a depressão é um mal que deve ser levado a sério. Mesmo lutando contra seus demônios, Willians foi lembrado por seus amigos como alguém generoso e amável, além disso, era também um dos maiores atores de nossa geração. Nem tudo que fez foi sucesso, muitas escolhas erradas fazem parte de sua história, mas houve indiscutíveis momentos de pura genialidade, de autêntico brilhantismo, fortes o suficiente para transformá-lo em uma lenda.

Tempos atrás, anotei em minha lista de "filmes que devo assistir", o pouco conhecido O Melhor Pai do Mundo, trabalho elogiado pela crítica no ano de seu lançamento (2009), mas que não chamou atenção do grande público. Nele, Willians interpreta o professor de poesia e escritor injustiçado chamado Lance, que depois de encontrar seu filho morto em um vergonhoso acidente, resolve mentir sobre o acontecido, fazendo com que tudo pareça um suicídio. Para isso, além de mover o corpo, ele também escreve uma carta de despedida.



Logo a tal carta se transforma numa sensação em seu colégio (local de trabalho do pai e de aprendizado do rapaz). O profundo conteúdo da despedida suicida mexe com as emoções de todos, tocando e transformando psicologicamente alunos e professores. Depois de ser recusado por diversas editoras, Lance tem seu trabalho como escritor apreciado pela primeira vez. Sendo assim, ele mais que rapidamente (como um autêntico ghost writer) elabora um suposto diário do problemático filho, intitulado "Você não me Conhece", que também se torna um sucesso, ganhando repercussão nacional. 

Mas a grande ironia por trás de toda essa comoção é que o filho de Lance era um grandessíssimo cretino. Um deturpado sexual que já não se satisfazia com apenas pornografia comum. Ele curtia coisas bem bizarras. Além disso, tratava a todos como lixo, principalmente seu atencioso e amável pai. Quando você assistir este filme, vai desejar que o fedelho seja atropelado por um caminhão ou decapitado de alguma forma. 

Sendo assim, com estas informações sobre a mesa, o longa explora todos os valores e hipocrisias inerentes deste verdadeiro circo midiático, que transformou um moleque que sonhava em defecar nos outros em uma espécie de Che Guevara da sabedoria, com sua imagem estampando camisetas e broches.



Tecnicamente, O Melhor Pai do Mundo é estranhamente funcional. Esta é uma produção de baixíssimo orçamento, só que mesmo com suas limitações, tudo caminha de maneira cadenciada, agradável e despretensiosa, fazendo com que a questão "arrojo visual" se torne apenas um posto de vista. A trilha sonora, composta em sua maioria por canções indie melosas e grudentas, parece forçar a barra, mas como já disse, estranhamente funciona, ainda mais com uma grata canção surpresa no final. 

Mas a pedra fundamental do filme é de fato o excelente roteiro original do diretor Bobcat Goldthwait. O conceito da obra é tão bem elaborado, e os personagens são tão bem moldados, que os problemas de orçamento são relevados, a inexperiência do elenco de apoio é usada a favor, e até mesmo as fraquezas da direção não incomodam. Bobcat fez do humor negro algo emocionante, uma mistura de gêneros incomum, que tem tudo para dar errado, mas que neste caso ficou na medida certa.

E completando os pontos positivos, temos Robin Willians. Este não é aquele típico papel ensandecido do ator. Aqui nós rimos dele, e não com ele. O protagonista Lance é um homem retraído, melancólico, solitário. Mediocremente hilário, por mais cruel que essa descrição possa parecer. Sua tentativa incansável de ser um bom pai é comovente. E ele não desiste, mesmo com o mais cretino de todos os filhos do mundo. 

Willians entrega tudo que é necessário para a credibilidade do papel: a falta de pretensão, o entrosamento com o elenco, a percepção do despojamento da produção, a seriedade com o tema, o humor embargado. Ele se adapta ao personagem com sua facilidade peculiar. Entre tantos trabalhos memoráveis, este é com certeza um de seus melhores, e talvez o mais desconhecido. 

Não perca tempo e assista. Recomendado. 

PS - Lembra aquele maluco punk do filme Loucademia de Policia? Ele é o diretor.





O Melhor Pai do Mundo/ World's Greatest Dad: 2009/ EUA / 99 min/ Direção: Bobcat Goldthwait/ Elenco: Robin Willians, Daryl Sabara, Morgan Murphy, Naomi Glick, Dan Spencer, Alexie Gilmore, Bruce Hornsby, Krist Novoselic

Ursos (Bears)

Ursos nos apresenta um verão em família diferente.

O documentário Ursos, da Disneynature, acompanha todos os desafios, sacrifícios e também diversão de uma mãe urso com dois filhotes recém-nascidos. A proposta do filme é demonstrar como o primeiro ano de vida dos pequeninos peludos é o mais importante. A maioria não sobrevive a ele. 

Neste trajeto, cujo destino é uma enorme barriga cheia para o inverno, a mãe Sky e os filhotes Amber & Scout descem por montanhas congeladas, nadam por rios perigosos, curtem o prazer de pescar um suculento sushi de salmão, entre outras aventuras.

A fita foi dirigida pelos experientes Alastair Fothergill e Keth Scholey, nomes ligados a diversos trabalhos relacionadas ao tema, como a série Planeta Gelado da BBC, e os longas Terra e Reino dos Felinos.

A qualidade técnica da obra é destaque. É óbvio que nos dias de hoje deslumbre visual se tornou um critério obrigatório para esse tipo de produção, mas em Ursos as escolhas narrativas parecem ir além. Existe uma certa maestria poética na forma com que as imagens são trabalhadas, ou talvez a verdade é que natureza em 1080p não cansa os olhos nunca.

Sendo assim, câmeras especiais captam todo e qualquer ângulo que desejam, com riqueza de detalhes, de forma belíssima. A equipe de filmagem é enxuta e basicamente divide os ambientes com os animais. A proximidade impressiona, e a tensão fica evidente na tela.

Edição e trilha sonora são precisas, e montam um cenário quase lúdico para os animais. Parece até que os bichos estão cientes do que está acontecendo, e resolvem fazer graça para o público. A ótima narração do ator e comediante John C. Reilly provém humor na medida certa, algo bem família, mas sem soar piegas ou coisa assim.

Para quem aprecia documentários do gênero, Ursos é mais que recomendado.




Ursos/ Bears: 2014/ EUA / 78 min/ Direção: Alastair Fothergill, Keith Scholey/ Elenco: John C. Reilly

Video Games: The Movie

Video Games: The Movie tem uma narrativa pouco prática, mas o tema é suficientemente relevante.

Pouco tempo atrás comentei - na crítica do excelente Indie Game: The Movie - que já estava mesmo na hora de documentários sobre o universo gamer surgirem aos montes. 

Afinal, o tema não poderia ser mais relevante: este é um mercado de entretenimento bilionário, que financeiramente deixa super produções hollywoodianas comendo poeira, e que também representa uma incomparável evolução tecnológica de nossa sociedade. 

Seguindo esta lógica, foi lançado o independente Video Games: The Movie, que apesar de não ser perfeito como um todo, vale a pena ser conferido, principalmente por aqueles que são viciados no tema. O diretor novato Jeremy Snead conseguiu reunir entrevistados de peso, verdadeiros pioneiros na arte de se fazer e vender games. É um cast de respeito, que concede uma vida extra para o projeto. 

Tecnicamente o filme não decepciona. A edição final é dinâmica e criativa, montagens com famosas cenas de games surgem a todo momento, e a trilha sonora passeia por clássicos do rock (que servem para exemplificar décadas), até hits eletrônicos pegajosos. Completando os atrativos oferecidos, a narração é feita pelo nerdístico Sean Astin, ator conhecido pelo papel do hobbit Sam, na trilogia O Senhor dos Anéis.



Video Games: The Movie esmiúça as origens dos primeiros protótipos de jogos, questionando quem foi de fato o criador original deste conceito de diversão. Também podemos entender melhor a ascensão da mítica Atari, até sua derradeira queda, que teve como símbolo o fracasso retumbante do jogo E.T. - O Extraterrestre (uma vergonha enterrada no passado da empresa). 

Outro ponto interessante é perceber que, devido a uma necessidade crescente de identificação do público com os jogos, surgiram os complexos personagens da Nintendo. Tempos depois, a força comercial da Sony se revelou arrasadora, arrebatando milhares de novos fãs com seu poderoso Playstation. Coincidentemente, logo em seguida, a Microsoft decidiu entrar na briga com o XBOX. E por aí vai. Todas estas diferentes linhas históricas apresentadas pelo documentário nos guiam até a chegada da nova geração de máquinas: WiiU, XBOX ONE e PS4. 

Vale lembrar que temas paralelos também estão presente, como a eterna polêmica da influência de jogos violentos na sociedade, até a melhor qualidade do ensino quando games são uma opção nas escolas (algo bem contrastante, não é verdade?). 

Só que mesmo sendo este um assunto infinitamente interessante de se acompanhar, Video Games: The Movie comete alguns erros que comprometem o resultado final. O principal deles se encontra no andamento da obra, mais especificamente na montagem de sua timeline

Fica claro que a intenção dos realizadores foi, antes de tudo, estabelecer o presente do universo gamer para assim conseguir investigar seu passado. Só que para isso a narrativa vai e volta no tempo sem cerimônias, pulando décadas na frente para comparar passado com futuro, e vice versa. Essa falta de linearidade da narrativa - que afinal, fala de uma evolução histórica - é no mínimo bem estranha, para não dizer confusa.



Outra fraqueza evidente da produção é a incapacidade de expandir o tema de maneira mais complexa. O foco é voltado quase que exclusivamente para os consoles, sendo que boa parte da trajetória dos games, por exemplo, também passa pelo PC - a evolução da plataforma é citada de maneira insignificante. Isso pode provocar certa frustração, principalmente para quem espera ouvir um pouco mais sobre a importância de clássicos como Doom para o gênero FPS (sim, eu curto muito Doom!). O mesmo acontece com o cenário de games independentes, que é simplesmente lembrado e ganha uma montagem.

Mesmo assim, como foi dito, Video Games:The Movie vale a pena ser visto. O documentário erra feio em algumas opções, mas oferece pontos de vista relevantes, de pessoas aficionadas pelo tema, que estão envolvidas na mídia por trás do mercado. O filme concede também (e principalmente) a palavra aos desenvolvedores, aqueles que ajudaram a fundamentar todo este universo, moldar nossos personagens preferidos, alavancar vendas e projetar empresas para eternidade, e isso é bem maneiro. Recomendado.





Video Games: The Movie: 2014/ EUA / 105 min/ Direção: Jeremy Snead/ Elenco: Sean Astin, Zach Braff, Cliff Bleszinski, Nolan Bushnell, Reggie Fils-Aime, Donald Faison, Al Alcorn, Peter Armstrong

Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy)



É nos confins do universo que se encontra a diversão.

Vamos começar pelo óbvio: Guardiões da Galáxia é o melhor filme da Marvel. Melhor que o Cara de Lata, melhor que o Soldado Invernal, melhor até mesmo do que a bendita Iniciativa Vingadores. A HQ homônima, criada originalmente por Arnold Drake e Gene Colan, e repaginada por Dan Abnett e Andy Lanning, não é a mais famosa do universo Marvel, mas sua adaptação para Hollywood conseguiu transcender o gênero "filme de herói", se tornando um clássico instantâneo do cinema de aventura, ação e Sci-Fi.

Por entre planetas abarrotados de seres bizarros e mulheres coloridas estranhamente atraentes, surge uma trama bastante simples: um certo grupo de desajustados (rebeldes, interesseiros, soldados...) tem de unir forças para derrotar um inimigo em comum. Para isso, eles precisam lidar, da melhor forma possível, com uma carga preciosa de poder incalculável.

Ok, ok, a premissa pode parecer comum. Mas é na construção dos personagens que se encontra o grande mérito de os Guardiões da Galáxia.



O ótimo roteiro, talhado pelo diretor James Gunn em parceria com Nicole Perlman, consegue explorar a fundo a personalidade de seus protagonistas, elucidando cada cicatriz, se fazendo entender a cada piada, justificando mudanças de comportamento e motivações com argumentos sólidos, extremamente convincentes e hilários em quase todos os momentos determinados momentos. 

Os autores celebram a individualidade de seus personagens esmiuçando suas particularidades e sentimentos, os tornando especiais a sua própria maneira. Ao mesmo tempo, conduzem de forma cadenciada a aproximação dos mesmos. Em outras palavras, o texto faz destes indivíduos únicos um grupo inseparável, e isso sem forçar a barra em momento algum.

Tecnicamente o filme é deslumbrante. Toda a ambientação é altamente imersiva, sets incríveis nos fazem esquecer o árduo trabalho da cenografia, maquiagens transformam completamente os atores, e os efeitos especiais nos levam a crer que um guaxinim pode mesmo manusear com precisão um poderoso rifle espacial. A profundidade do 3D, muito bem utilizado diga-se de passagem, completa o pacote. A trilha sonora também é parte importantíssima da história, quase um alicerce, e dificilmente poderia ser melhor. Temos clássicos e mais clássicos, hits eternos, agora intergaláticos.



A escolha de James Gunn como diretor da produção foi o bilhete premiado da Marvel. No currículo dele vemos desde a série cômica sobre pornografia PG Porn, até o interessante Seres Rastejantes e o quase correto Super. Mas em Guardiões... o cara alçou voo rumo as estrelas. Seu trabalho é preciso. Cada cena é orquestrada de maneira calculada, e ele sempre encontra o ritmo perfeito para navegar entre humor, ação e drama. Enquanto ainda sentimos a adrenalina de uma vertiginosa cena explosiva, somos acertados em cheio por lágrimas improváveis, que logo se transformam em gargalhadas. Uma combinação infalível.

Encabeçando o grupo de guardiões está Chirs Pratt como Peter Quill, também conhecido (ou nem tanto) como o legendário fora da lei Star-Lord. Quem conhece o trabalho de Pratt, principalmente na série Parks and Recreation, sabe as infinitas possibilidades de humor sem noção que o sujeito é capaz de propor. Zoe Saldana por sua vez encarna a agressiva Gamora, uma órfã verde de habilidades letais e com sede de vingança. 

Bradley Cooper realiza a dublagem do pequenino guaxinim Rocket, um trabalho vocal excepcional do ator. O lutador de wrestling Dave Bautista é uma grata surpresa como Drax – o brutamontes é responsável por algumas das piadas mais engraçadas do longa. E, teoricamente, Vin Diesel é Groot, um monstro planta brutal e tremendamente amigável. Parece um bicho de estimação gigante.



Tanto os protagonistas como o elenco de apoio trabalham de forma memorável. Conduzidos por uma direção que sabe exatamente o que quer, eles basicamente colaboram com a edificação destes incríveis personagens. A impressão que fica é que parece não existir espaço para erros que comprometam qualquer atuação. Embora alguns atores acabem pouco explorados pela trama, nada se torna desconexo, e em meio a tantos núcleos diferentes, tudo se amarra satisfatoriamente.

Enfim, Guardiões da Galáxia pode ser definido como entretenimento épico. Diante de tamanho sucesso e qualidade autoral, arrisco dizer que a geração Z ganhou seu Star Wars, pois parece impossível não comparar este filme com o clássico Sci-Fi de George Lucas. Star-Lord é praticamente uma mistura sagaz de Han Solo com Luke Skywalker, cheio de mistérios e de porra-louquice. O Episódio VII de J.J. Abrams acaba de ganhar um competidor à altura. Ouga Chaka Ouga!

ps - Não perca a chance e assista esse filme na maior sala de cinema que puder.


       

Guardiões da Galáxia/ Guardians of the Galaxy: 2014/ EUA / 121 min/ Direção: James Gunn/ Elenco: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Vin Diesel, Bradley Cooper, Lee Pace, Michael Rooker, Karen Gillan, Djimon Hounsou, John C. Reilly, Glenn Close, Benicio Del Toro, Peter Serafiowicz

Transcendence - A Revolução (Transcendence)

Transcendência sem significado.

A ideia central de Transcendence é bem interessante. Ela propõe um cenário de evolução tecnológica em que o intelecto de uma pessoa pode ser compactado e transformado em arquivos de computador, prontos para upload. Esta consciência emulada teria as lembranças, pensamentos, até mesmo os desejos e sentimentos da mente original. Para todos os efeitos, seria uma pessoa sem corpo físico, mas teria alma afinal?

O cientista Will Caster (Johnny Depp) é o famoso nome por trás do estudo. É óbvio dizer que tamanha ousadia, que possibilita a criação de um ser onipotente, onipresente e onisciente (basicamente o google com vontade própria) desagradaria muita gente. E depois de sofrer um atentado fatal de cunho religioso, Caster se torna o candidato ideal para sua própria criação, que até aquele momento havia sido testada apenas em cobaias.

Com toda a informação do planeta em sua mente, ou melhor dizendo, em seu quase infinito HD interno, Caster inicia uma série de desenvolvimentos tidos como inconcebíveis, visando assim expandir sua influência. Ele oferece soluções permanentes para debilitantes mazelas de nossa sociedade, um salto vertiginoso no futuro, que tornaria tudo extremamente mais fácil e barato no campo da medicina, geração de energia, nanotecnologia, sustentabilidade ambiental, etc. Agora eu pergunto: que raça humana seriamos nós se aceitássemos milagres de um ser onipotente, cuja existência é incontestável? Seríamos escravos, certo?



Ironias à parte, o principal problema da história de Transcendence foi lidar com escopo de sua própria ousadia. Criar reviravoltas humanísticas diante da ascensão de uma divindade tecnológica não é algo tão simples de desenhar, pelo menos quando a abordagem tenta ser realista. Sendo assim, depois que Caster é estabelecido como vilão da fita, as motivações do elenco são obrigatoriamente guiadas por um raciocínio de pouca lógica, no intuito de favorecer a derrota do todo poderoso. 

Isso fatidicamente dita a falta de coerência e naturalidade das cenas e narrativa, com personagens mudando de perspectiva sem uma base sólida de argumentos, entre outros problemas de construção e desenvolvimento dos mesmos. Em certo momento, vemos um estapafúrdio grupo de coalizão surgir, e sua importante missão é: elaborar soluções improvisadas que convenientemente funcionam, sendo que no final, mais da metade deste mesmo grupo é sucateado e esquecido pela trama, para que assim o desfecho consiga existir... mas de longe convencer. Uma bagunça.    

Visualmente temos algumas ideias interessantes. A construção das sequências não desfruta de muita criatividade e o andamento não é dos melhores, mas o diretor Wally Pfister possui extenso background como diretor de fotografia, e isso faz com que a experiência não seja desagradável aos olhos, pois iluminação e enquadramento combinam.



Já o time de atores é incapaz de alcançar algo além da mediocridade com suas personas (entre os nomes estão Morgan Freeman, Rebecca Hall, Paul Bettany, Cillian Murphy e Kate Mara). Johnny Depp, o único que poderia trabalhar um perfil mais aprofundado para seu protagonista cientista, parece impossibilitado de se animar com a produção. Ele oferece aquela mesma interpretação dos últimos tempos, de cara e olhos cansados, meio que consciente de que nada ali está funcionando. No entanto, quando o mesmo se torna "robótico", auxiliado por toneladas de efeitos especiais, e não precisando demonstrar sentimentos, as coisas melhoram um pouco.  

Por fim, Transcendence se perde em meio a revolução que propõe. As escolhas que conduzem o desfecho da história são baratas e rasteiras, algo bem americanista como: "devemos explodir esse miserável em um milhão de pedaços, mesmo que seja para voltar à idade da pedra, evitando a purificação de todos os rios e oceanos do mundo, evitando que pessoas paraplégicas voltem a andar, evitando até mesmo a cura do câncer. Fuck Yeah!!".

Seria interessante acompanhar uma abordagem que verdadeiramente explorasse essa complicada discussão humana, dividida entre aceitação e repúdio. Teríamos algo novo dentro do gênero, e não apenas um amontoado de ideias sem propósito algum. Não recomendado.





Transcendence - A Revolução/ Transcendence: 2014/ Reino Unido, China, EUA / 119 min/ Direção: Wally Pfister/ Elenco: Johnny Depp, Morgan Freeman, Rebecca Hall, Paul Bettany, Cillian Murphy, Kate Mara, Cole Hauser, Clifton Collins Jr.

The Broken Circle Breakdown

Círculo imperfeito.

O cinema contemporâneo da Bélgica poucas vezes se fez tão contundente como em The Broken Circle Breakdown. De tom muito diferente da produção conterrânea, tóxica e punk, Ex-Drummer, o filme oferece uma imagem menos negativa do país, e constrói uma ode rústica ao amor, suas glórias e desgraças, tudo ao ritmo de um puríssimo bluegrass belga/norte americano - acredite se quiser. 

Na história, somos apresentados ao casal Didier e Elise. Ele, aficionado pelos Estados Unidos, é o vocalista e coração de uma banda de bluegrass. Ela, tatuada dos pés à cabeça com temas oldscholl, é uma autêntica pin-up, que convenientemente tem uma belíssima voz. A relação entre os dois se fortalece rapidamente, e uma gravidez inesperada oficializa a união. Mas os problemas surgem quando a filha Maybelle é diagnosticada com uma doença grave, e dali pra frente a parceria deles começa a ser testada de maneira severa, assim como a compreensão e tolerância de suas próprias crenças.



Talvez o fato mais impressionante desta produção independente seja a qualidade alcançada com tão pouco dinheiro. O diretor Felix van Groeningen operou um verdadeiro milagre com os escassos 30 mil dólares disponíveis, e conduziu um filme esteticamente preciso e de narrativa impecável. O texto é uma adaptação da peça homônima escrita por Mieke Dobbels e Jhohan Heldenberg, sendo este último o ator que personifica o protagonista Didier. Já a atriz que interpreta Elise, Veerle Baetens, possui uma extensa formação musical e já ganhou importantes premiações belgas do gênero.

Além do elenco entregar puro realismo, um dos pontos de maior destaque é a incorporação dessas belíssimas canções americanas em meio ao tema, todas interpretadas com visível inspiração pelos atores. Outro elemento agregador, que torna o ritmo algo extremamente fluído, é a atemporalidade das cenas. O roteiro revela pedaços de um quebra cabeça, e apesar do quadro geral parecer claro, sempre falta uma peça surpresa.



Jogar com a não linearidade de passado e presente de uma história de amor, foi algo feito pelo também excelente Blue Valentine. Mas aqui a proposta é mais urgente, carregada de uma tristeza factual menos individualista, mais pungente. Um confronto acerca da crença e descrença em deus parece surgir meio que repentinamente, mas o mesmo se faz importante e coerente dentro da trama.

No final, The Broken Circle Breakdown é um produto independente feito com dedicação sem igual, e suas interpretações são profundamente pessoais. A história evoca uma melancolia arrasadora, só que ao mesmo tempo fundamenta a cativante história de amor do casal, embalada por um ritmo sulista americano improvável.

Como disse o ex-beatle George Harrison, "todas as coisas devem passar", ou seja, tanto tristeza como alegria. Este é o verdadeiro círculo a que devemos nos atentar, pois ele não se quebra. Recomendado.     

PS: A fita concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2014.




The Broken Circle Breakdown/ Alabama Monroe: 2012/ Bélgica, Países Baixos / 111 min/ Direção: Felix Van Groeningen/ Elenco: Veerle Baetens, Johan Heldenbergh, Nell Cattrysse, Geert Van Rampelberg