Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros


Velhos instintos, novas atrações

Após mais de 20 anos do lançamento de Jurassic Park, as coisas não mudaram muito em Jurassic World. Isso é muito bom por um lado, nem tanto por outro. Quem iria adivinhar que mesmo depois de tantas tragédias temáticas, os humanos continuariam gananciosos e descuidados quando o assunto é fazer dinheiro com dinossauros requentados em laboratórios? Jurassic World ainda tenta estabelecer algumas novas ideias para esta fantasiosa realidade alternativa, ideias estas que até fazem sentido, como por exemplo, um público alvo que já não se surpreende mais com Tricerátopos ou Tiranossauros Rex, que exige mais ação como entretenimento. Presas maiores e mais brilhantes. De qualquer maneira, tudo continua um grande e divertido absurdo.

No final, o que a franquia oferta, primordialmente, são dinossauros caçando humanos, e para chegar nisso, diretores e roteiristas inventariam qualquer coisa. Dessa vez inventaram uma nova espécie, o Indominus Rex, um híbrido de raças altamente inteligente e letal, que poderia muito bem trazer o logo da Coca-Cola ou Mercedes-Benz gravado na testa. Por trás de sua criação existem motivações diversificadas, impulsionadas por um capitalismo selvagem absurdo, basicamente insano.




Toda essa falta de noção é tradicional, pois afinal, são dinossauros caçando humanos. O que realmente faz a experiência valer é a sensação predatória. Para isso funcionar, são necessárias cobaias carismáticas, pela quais possamos torcer. Nestes dois quesitos, Jurassic World acerta como nunca. Toda a mistificação da inteligência e habilidades incomparáveis de Indominus, constrói uma base sólida de tensão para o público. O suspense da caça é exato, e emula uma ambientação bem semelhante ao do filme Predador, por exemplo. Já a escalação da dupla Chris Pratt e Bryce Dallas como protagonistas não poderia ser mais acertada. O filme está batendo recordes absurdos de bilheteria por causa dos dois, e todo o alvoroço parece justificado, pois ambos são ótimos profissionais do cinemão pipoca.

Na história, Pratt interpreta Owen, um treinador de raptors extremamente badass. Assim como em Guardiões da Galáxia, a veia cômica do ator se mistura com perfeição ao gênero de aventura e ação. Tamanha foi a aceitação do cara, que o fãs já o canonizaram como novo Indiana Jones. Porém, quem rouba a cena é Bryce Dallas no papel de Claire, uma das principais responsáveis pela administração do parque. A personagem, de personalidade austera e metódica, passa por uma transformação meteórica quando descobre que seus sobrinhos se perderam no caminho do fugitivo Indominus Rex. Por mais abrupta que seja essa mudança, é a naturalidade e talento de Dallas que tornam tudo mais cativante e engraçado. Ela nem mesmo desce do salto pra correr dos bichos.



  
Enquanto isso, na sala de controle, a equipe de suporte, formada resumidamente pelos ótimos atores Jake Johnson e Lauren Lapkus, consegue prover bons momentos dramáticos, que servem para humanizar os acontecimentos trágicos ao redor, e também oferecem humor de qualidade, quando se aproveitam de uma química de casal disfuncional. 

Como de costume, a produção é tecnicamente deslumbrante, seja pelo uso indiscriminado de efeitos especiais ou pela integração (sempre bem-vinda) de animatronics incríveis. Uma das opções mais ousadas e interessantes de Jurassic World foi seu requinte de crueldade em termos de violência. Existe um nível de sadismo bem satisfatório por parte dos criadores. A releitura da trilha sonora, orquestrada pelo experiente Michael Giacchino, também se faz notar. Arranjos de piano tornam o tema clássico de John Willians em algo pesado, carregado de perigo. Uma adaptação criativa e perspicaz.




A direção do improvável Colin Trevorrow (que tem no currículo o indie Sem Segurança Nenhuma) agrega diferentes e interessantes valores para o trabalho. Já na primeira cena do filme, que detalha de maneira simétrica o nascimento de Indominus, notamos sua preocupação com o funcionamento ideal da tomada, e isso se torna uma constante. Nem sempre tudo sai como planejado, afinal, existem sim fraquezas estruturais no roteiro que atrapalham, mas no geral a condução é bem eficiente.


Enfim, Jurassic World não se importa de ser mais um na franquia iniciada por Steven Spielberg, e de maneira honesta, se torna tão importante quanto o primeiro. Cheio de referências e easters eggs, a fita é um prato cheio para aqueles que alucinaram com o original, e também para novas audiências. A receita infalível de não poupar nenhuma despesa continua firme e forte, e mesmo com problemas, o filme é Recomendado.




Jurrasic World: O Mundo dos Dinossauros/ Jurassic World: EUA, China/ 2015 / 124 min/ Direção: Colin Trevorrow/ Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Irrfan Khan, Vincent D'Onofrio, Ty Simpkins, Nick Robinson, Jake Johnson, Omar Sy, BD Wong, Judy Greer, Lauren Lapkus

Kingsman: Serviço Secreto (Kingsman The Secret Service)


Esnobes também sabem chutar bundas

A proposta primordial de Kingsman: Serviço Secreto é apresentar os heróis mais pomposos do cinema de ação. Nem mesmo James Bond é tão gentleman como os espiões dessa organização extremamente rica, que batiza seus integrantes com codinomes de famosos cavaleiros ingleses, como Lancelot, Galahad... enfim, "Homens do Rei". 


O filme foi dirigido pelo competente Matthew Vaugh, que misturou na receita alguns elementos de seus trabalhos anteriores, Kick-Ass: Quebrando Tudo e X-Men: Primeira Classe. Só que apesar do arrojo visual incrível elaborado para a fita, o resultado final, podemos educadamente dizer, é um tanto quanto deselegante, o que não chega a arruinar a experiência, mas meio que decepciona.




A história apresenta o caminho de amadurecimento do jovem Eggsy, que herdou do pai (ex-Lancelot) as habilidades necessárias para se tornar um Kingsman. Apadrinhado pelo honrado agente Galahad, o garoto precisará vencer um rígido processo de seleção para se tornar membro da organização. Além de arriscar sua vida, ele sofrerá também com estigmas sociais, devido sua origem simples, que é ofensiva aos jovens otários esnobes ingleses, que disputam a vaga com ele. 


Paralelamente a isso, o mogul da comunicação, conhecido apenas como Valentine, coloca em prática um plano para salvar a Terra de sua degradação ambiental sem precedentes. O cara é um ativista consciente, e em seu ponto de vista (um tanto quanto genocida), a raça humana é o câncer que está destruindo o planeta, e ele é cura para isso.


Kingsman: Serviço Secreto é vagamente baseado na HQ de Mark Millar e Dave Gibbons, intitulada apenas The Secret Service. Isso por que, além de mudar o nome, a adaptação faz diversas alterações na história original, preservando apenas o conceito principal da trama, que traz Eggsy e a absurda organização cheia de regras de etiqueta e agentes arrasadoramente mortais. Depois de Kick-Ass, essa é a segunda colaboração de Vaugh e Millar.



Pois bem, o grande problema de Kingsman: Serviço Secreto é a falta de empatia da história. Isso acontece, principalmente, porque roteiro e narrativa não conseguem desenvolver um tratamento natural para trama, e tudo acaba meio que mastigado demais em determinadas frentes. Galahad, por exemplo, é um grande personagem, que instiga nossa atenção, em contrapartida, o desenvolvimento de Eggsy e seus amigos soa artificial, esquemático. 


O treinamento retratado, que envolve afogamentos e pulos suicidas de paraquedas, tenta nos convencer que o pupilo é um cara honesto, dedicado e capaz, mas isso todo mundo já sabe desde sua primeira cena. Não existe espaço para dúvida nesta questão, não existe a sensação de evolução de Eggsy, não temos uma valorização eficaz de suas conquistas e habilidades. Enfim, todo esse processo de treinamento, que basicamente é a espinha dorsal do filme, parece um exagero desnecessário.



Sendo assim, as coisas se arrastam em termos de ritmo. A fita se mostra pouco convincente diante da transmutação de Eggsy, e pouco enfática com seus dramas, pois o humor negro utilizado anula qualquer tentativa verdadeira de emocionar em momentos específicos. 

Novamente, paralelamente e ocasionalmente, vemos os planos do vilão, que são tratados com pouca atenção durante os primeiros atos, o que reforça a impressão de que os mesmos são uma finalidade que justificam os meios dos heróis. No entanto, a resolução do maligno Valentine e sua escudeira assassina Gazelle, acaba sendo satisfatória, o que redime alguns pecados.


E balanceando os problemas, temos a condução técnica infalível de Vaugh. A edição e montagem do filme são impecáveis, e valorizam de forma extraordinária os aspectos visuais da produção. Desde os créditos iniciais, somos bombardeados por efeitos especiais sensacionais e sempre muito bem utilizados.



E o que Kingsman: Serviço Secreto na verdade deixa para posterioridade são duas sequências de ação insanamente maneiras, envolvendo um intenso combate dentro de uma igreja e a obliteração de globos humanos cadenciada por música clássica. O filme faz questão de ser gore, o que é muito legal, e contrasta bastante com a pompa de seus protagonistas. Brutal e bem apanhado.

O elenco também soma pontos positivos. Como destaques temos: o ator inglês Colin Firth com seu Galahad, chutando bundas como nunca (um ator experiente se divertindo e dando porrada), o americano Samuel L. Jackson é o hilário vilão de língua presa Valentine, Mark Strong é um relevante apoio com o frio e calculista Merlin, Michael Caine eleva o nível de requinte com o fatalista Arthur, Sofia Boutella chama atenção com Gazelle, matadora ao melhor estilo Oscar Pistorius, e por fim, Taron Egerton, jovem revelação que interpreta o protagonista Eggsy.


Resumindo, Kingsman: Serviço Secreto oferece sequências visualmente embasbacantes, que praticamente valem pelo filme todo. O desfecho da história é forte o suficiente para se fazer lembrar, e o elenco escalado é de primeira linha. É exatamente por estes pontos positivos que se torna decepcionante ver um desenvolvimento de trama tão quebrado. Ainda sim, pra quem curte humor, ação e muita violência, a fita é recomendada.


Curiosidade: uma ótima referência do filme ao quadrinho é a participação do ator Mark Hamill (vulgo Luke Skywalker), que aparece na HQ como ele mesmo, e no filme participa interpretando outro personagem, de propósito semelhante ao dele na HQ.



Kingsman: Serviço Secreto/ Kingsman The Secret Service: Reino Unido/ 2014 / 129 min/ Direção: Matthew Vaughn/ Elenco: Colin Firth, Mark Strong, Jack Davenport, Mark Hamill, Sofia Boutella, Samuel L. Jackson, Michael Caine, Taron Egerton, Sophie Cookson

Corrente do Mal (It Follows)



Ele segue...

Imagine um mal que te segue de maneira implacável. Fugir apenas mascara a situação, pois a todo momento aquilo se aproxima, lentamente, com as mais diferentes formas e rostos, sempre se adaptando, até fatalmente te alcançar. 

A eminência da morte é o corpo que dá movimento ao surpreendente Corrente do Mal, filme de horror indie que faz de uma proposta clássica de linguagem algo inovador para o gênero. Fica bastante claro que a produção bebe da mesma fonte que inspirou outros grandes diretores de horror e suspense, como John Carpenter, George Romero, Dario Argento e Brian De Palma. 


Na história, acompanhamos o sofrimento da garota Jay, que depois de ter relações sexuais com seu novo namorado, começa a ser perseguida por uma entidade sobrenatural. Com o auxílio de sua irmã Kelly, e dos amigos Yara e Paul, ela tenta descobrir alguma forma de escapar do pesadelo que está vivendo.




O diretor e roteirista novato, David Robert Mitchell, declarou que a ideia por trás do trabalho veio de sonhos que ele tinha quando criança. A sensação de ansiedade presente nestes sonhos foi a grande inspiração para a ambientação do filme, que de fato, possui um clima de tensão extremamente imersivo e perturbador. 


A narrativa segue uma linha contemplativa, de beleza estética quase sempre mórbida e poética. Tecnicamente, Mitchell busca a simetria dos enquadramentos, minimizando os cortes de cena, viajando com sua câmera lentamente por locações abandonadas, enquanto acompanha os passos inicialmente tranquilos dos personagens, e posteriormente, o movimento desesperado dos mesmos.  


A trilha sonora oitentista de Rich Vreeland (aka Disasterpiece), que vem carregada de teclados e melodias sintetizadas, se faz extremamente importante para o desenvolvimento da personalidade da obra. Enquanto o silêncio absoluto edifica o suspense para audiência, linhas abruptas e cortantes transformam, por exemplo, uma rua deserta num lugar incômodo e assustador em questão de segundos.


Existe uma certa atemporalidade que torna a experiência ainda mais estranha e surreal. Os jovens protagonistas assistem filmes de ficção científica em preto e branco, e ao mesmo tempo possuem aparatos tecnológicos inexistentes nos dias de hoje. Os figurinos, cabelos, carros, e até mesmo os subúrbios de Detroit respiram como os anos oitenta, isso talvez por que a vizinhança de Corrente do Mal pareça exatamente a mesma do filme Halloween.

A jovem equipe de atores é muito bem conduzida, e o resultado convence. O grande destaque é a protagonista Jay, interpretada por Maika Monroe  a jovem tem no currículo o excelente (e também muito estranho) The Guest. De cabelos loiros claros como palha, e aparência pálida, a competente atriz parece ter nascido para filmes bizarros como este. Seu carisma faz com que todos torçam por ela.




No entanto, Corrente do Mal não é perfeito. Existem algumas facilitações do roteiro que possibilitam um caminho sem complicações para trama. Mesmo o andamento, que traz maior intensidade ao suspense, as vezes incomoda pela lentidão. Ainda assim, esses problemas se tornam pequenos diante da capacidade excepcional do filme de transmitir sua mensagem, no caso, toda a angústia vivenciada pela protagonista. Novamente, é algo próximo de trabalhos clássicos do gênero, e que já não vemos com frequência.


No final, Corrente do Mal é praticamente uma lenda urbana, que pode ser usada para educar jovens libertinos. É uma doença venérea infernal que forma um clube de amaldiçoados. Brincadeiras à parte, a ideia de viver a vida olhando por cima dos ombros é de fato perturbadora. Recomendado.





Corrente do Mal/ It Follows: EUA/ 2014 / 100 min/ Direção: David Robert Mitchell/ Elenco: Maika Monroe, Keir Gilchrist, Olivia Luccardi, Lili Sepe, Jake Weary, Daniel Zovatto, Mike Lanier, Ingrid Mortimer

Ex Machina - Crítica


Imagem e Semelhança

Há mais de 60 anos atrás, Asimov profetizou que a criação de uma inteligência artificial, capaz de sentir emoções iguais as nossas, iniciaria um conflito que empurraria a humanidade à beira da extinção. O homem criador seria tecnicamente um novo deus, enquanto a criatura, de raciocínio pulsante e praticamente ilimitado, enfrentaria as eternas maldições de sua existência sem propósito. Algo como Humanidade 2.0.

Está bem claro que o tema IA nunca deixará de ser algo relevante. Na verdade, parece que estamos cada vez mais próximos de desenvolver uma consciência como a que Asimov descreveu em seu Eu, Robô. O filme Ex Machina fala exatamente disso, deste ato de criação já amaldiçoado por clássicos sci-fi, mas principalmente investiga como ambas as partes (humanos e máquinas) reagiriam a esse processo inédito de convivência. 



O roteiro utiliza então, como base fundamental, o teste de Turing, que determina o quão convincente é a interação da máquina com o homem, se ela realmente consegue agir de maneira autêntica diante de seu observador, a ponto de confundi-lo, 
humanisticamente falandoMas, se a máquina foi feita, digamos, pra amar, fazer sexo, ou simplesmente proteger sua integridade, quais seriam os (novos e necessários) parâmetros do teste?

O diretor e roteirista Alex Garland afirmou que fez Ex Machina com o menor orçamento possível, isso por que ele queria total controle sobre o material. Mas apesar da restritiva independência financeira, a produção elencou atores de qualidade, sendo eles, resumidamente, Oscar Isaac, Domhnall Gleeson e Alicia Vikander.  

A fita oferece também um visual arrasador, de estética belíssima, com efeitos especiais brutalmente realistas, que misturam verdade e ficção de forma perturbadora. A trilha sonora amplifica a sensação claustrofóbica do ambiente, e a iluminação valoriza criativamente os momentos de tranquilidade e tensão, destacando também a fotografia impecável de Rob Hardy.




Ex Machina é um filme hipnotizante. Seu andamento é lento, mas em nenhum momento sentimos a sensação de descompasso, pois toda cena é composta por um texto minuciosamente arquitetado, e as interpretações valorizam ainda mais estes argumentos. 


Durante sete dias de testes, vemos a personalidade de todos os envolvidos alcançado estranhos níveis de consciência. Em um ambiente desses, parece normal que os humanos percam sua humanidade. É tudo incrivelmente surreal e desconfortante, principalmente pela crueldade implícita, que se disfarça de evolução, mas que no final é apenas loucura.


Este é um clássico sci-fi que oferece uma das mais impactantes discussões sobre a criação de uma inteligência artificial auto-suficiente. Como o próprio nome do filme sugere, a robô protagonista, Ava, é literalmente uma Deus Ex Machina, que veio para alterar o destino dos homens definitivamente. Recomendado.




Ex Machina: Reino Unido/ 2015 / 108 min/ Direção: Alex Garland/ Elenco: Alicia Vikander, Domhnall Gleeson, Corey Johnson, Oscar Isaac, Sonoya Mizuno

Kung Fury - Review


Testosterona Nerd Oitentista

É difícil encontrar trabalhos independentes tão criativos e bem feitos como Kung Fury. Idealizado inicialmente como um trailer falso, a fábula do ninja policial que viaja no tempo fez sucesso na internet, e a proposta de um curta-metragem financiado pelo Kickstarter foi muito bem recebida. Mais de 600 mil dólares foram arrecadados. 

Em seus trinta minutos de duração, Kung Fury faz uma homenagem arrasadoramente divertida ao anos 80: a trilha sonora é emblemática (synthwave da dupla Mitch Murder e Lost Years), os símbolos nerdísticos altamente absurdos estão por todos os lados, e a violência requintada, gore, serve de combustível que eleva a testosterona da audiência. 



Como foi dito inicialmente, a história conta as façanhas do detetive Kung Fury, que depois de ser atingindo por um raio, e ser mordido por uma cobra, se torna o mais badass mestre de Kung Fu de todos os tempos, o escolhido. Uma mistura de Bruce Lee + Van Damme + Jason Statham + Marty McFly. Com seu senso de humor apurado e sua sede de justiça, ele é praticamente indestrutível. 

O grande vilão do curta é também o grande vilão do mundo, ninguém menos que Adolf Hitler, ou melhor dizendo, Kung Führer. Para vencer esta batalha, Kung Fury viaja pelo o espaço-tempo, e com a ajuda de seus amigos Hackerman, Thor, Triceracop, Barbariana e Katana, enfrentará quantos nazistas forem necessários para alcançar o maquiavélico líder supremo.



O projeto foi idealizado pelo sueco David Sandberg, da produtora Laser Unicorns. Ele dirigiu, roteirizou e interpretou o protagonista Kung Fury  o cara manda muito bem nas artes marciais. É certo dizer que o roteiro funciona mais como uma plataforma de exibição para todo o conceito visual orquestrado, por isso, hora ou outra, o andamento meio que engasga, mas isso não chega a prejudicar a experiência. 

O elenco é composto basicamente por amadores, mas conta com participações interessantes, como Jorma Taccone interpretando Hitler –o ator é mais conhecido por sua parceria com a galera insana do Lonely Island –, e também David Hasselhoff, que dublou a voz do Hoff 9000, o computador de bordo do lamborghini de Kung Fury – uma referência ao seriado A Supermáquina. Hosselhoff ainda estrelou um clipe musical, cantando o hit que gruda na cabeça, True Survivor.



Mas o grande mérito de Kung Fury é definitivamente sua qualidade técnica. Toda a temática oitentista chama atenção, desde o aspecto de fita cassete danificada, até a cenografia e figurinos. Os efeitos especiais são incríveis, quase inacreditáveis por algum motivo, e as frenéticas sequências coreografadas demonstram a dedicação e atenção aos detalhes dos realizadores.  

Como o próprio vídeo de promoção do Kickstarter explicou, todo o trabalho de filmagem, edição e efeitos especiais foi feito de maneira praticamente artesanal. Na cena da delegacia, por exemplo, os policiais presentes foram inseridos digitalmente, e Sandberg teve de filmá-los separadamente, pois contava com apenas um uniforme na época. Enfim, táticas de guerrilha de uma equipe pequena e obviamente inspirada.



Resumindo, e repetindo o que disse inicialmente: é difícil encontrar um curta independente tão inovador e que seja tão bem feito como Kung Fury. Esta é uma pequena pérola das comédias de artes marciais, em que o protagonista encarna o mais puro espírito sayajin, cavalga num T-Rex, enfrenta fliperamas assassinos, faz amizade com guerreiras viking, que carregam metralhadoras giratórias e Uzis... Ou seja, muita coisa pra falar de algo com apenas 30 minutos de duração. 

Lembrando que (e isso é o melhor de tudo), a obra foi disponibilizada gratuitamente na internet. Então confira logo abaixo Kung Fury na íntegra, e também o clipe da música True Survivor.

Saiba mais sobre Kung Fury no Site OficialFique atento agora no mais que interessante Hardcore (Veja mais no Indiegogo)





Kung Fury: Suécia/ 2015 / 30 min/ Direção: David Sandberg/ Elenco: David Sandberg, Jorma Taccone, Leopold Nilsson, Andreas Cahling, Erik Hörnqvist, Eleni Young, Helene Ahlson, David Hasselhoff

Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road)


Acredite no hype! 

Há mais de trinta anos atrás, o diretor George Miller criou o futuro distópico de Mad Max, povoado por sobreviventes fugitivos e dominado por psicopatas perturbados, homens que foram levados à loucura, talvez pela imensidão do deserto que engoliu a humanidade. No inóspito local, um muscle car de motor V8 é sinônimo de poder, pois estradas se tornaram o palco de violentas batalhas, e o combustível se manteve um commodity pelo qual vale a pena matar.  

Diante da descrição, fica fácil compreender o retorno arrasador da franquia. Mad Max: Estrada da Fúria vem demonstrando que seu universo continua extremamente relevante, e melhor ainda, altamente lucrativo. Teoricamente, o filme é uma sequência da episódica história de Max, mas na verdade o lançamento é um reboot, que apresenta o personagem para novas gerações, e simplesmente deslumbra os admiradores de longa data.



Seguindo a tradição da série, a história de Estrada da Fúria é simples. Só que mesmo com sua linearidade absoluta – que nos leva do ponto A ao ponto B em alta velocidade –, temos no roteiro personagens riquíssimos, moldados por um background carregado de novas profecias apocalípticas. Neste fim do mundo, o assustador Immortal Joe se tornou um deus (como o próprio nome sugere), e sua vontade se fez religião. 


Ele é o líder impiedoso que controla com mão de ferro a distribuição de água para sua população putrefata e decadente. Seus cães de guarda são kamicrazys, um exército suicida sedento em demonstrar seu valor no campo de batalha. Para eles, os portões da Valhala só se abrem perante uma morte digna, o que não é algo fácil de se conquistar, pois o testemunho de seus irmãos é mesquinho e altamente exigente. Ou seja, morrer em combate não é o bastante, o ato precisa ser extraordinário.




Com todo este poder nas mãos, Immortal Joe se tornou um tirano de fetiches bizarros. Além de validar o nepotismo, ao empregar em altos cargos seus estranhos e deformados irmãos, ele também mantém uma produção de leite materno (aí você se pergunta: como?) e possui cinco parideiras, presas a cintos de castidade dentados, alienadas de tudo e todos. São jovens belíssimas, que existem apenas para servir e conceber um novo lorde da guerra. Um sucessor. 

É nesse momento, muito próximo do nascimento do primeiro filho de Joe, que conhecemos a Imperatriz Furiosa, até então braço direito do chefe supremo, mas que se cansou de servir o maldito. Ela consegue libertar as parideiras, mas sua fuga contra os war boys será longa e cansativa. Furiosa precisará de toda ajuda possível. É aí que ela conhece Max.




Mad Max: Estrada da Fúria parece um grande ato teatral. Tudo é milimetricamente ensaiado, ao ponto de parecer o mais natural possível. 
Edição e montagem não perdem o senso de continuidade nem por um segundo, a grandiosidade das cenas de ação é hipnotizante. São inúmeros veículos mecanicamente transmutados (veja mais aqui) explodindo por todos os lados, enquanto dublês se penduram, saltam e voam agarrados em hastesÉ inacreditável que ninguém tenha morrido durante essas filmagens, pois tudo parece extremamente perigoso, e o resultado é algo sem precedentes. 

Controlando o ritmo desta literal caravana de fogo, estão as composições do DJ holandês Tom Holkenborg, aka Junkie XL. Trazer um DJ para comandar uma trilha cinematográfica é pouco comum, mas neste caso a aposta deu certo. Ele compilou influências que fizeram da personalidade do filme algo indestrutível. Senão fosse pela união perfeita de movimento e trilha sonora (especificamente ESTA trilha sonora), a recepção de Estrada da Fúria não seria a mesma.



A sonoridade de XL passeia por temas clássicos, até mesmo operísticos, que podem se transformar em Rock 'N' Roll ou batidas eletrônicas carregadas. Os riffs pesados do guitarrista piromaníaco Doof Warrior são acompanhados por grandes tambores tribais, e o uso do silêncio absoluto faz do deserto um local ainda mais solitário. Em certa sequência, surge uma música pulsante, que eleva a testosterona da audiência. Em outra sequência, semelhante a primeira, ouvimos uma canção melancólica, que exalta a honra e o instinto de sobrevivência dos personagens. Isso faz com que um tiroteio entre carros e motocicletas consiga emocionar. De alguma forma inconcebível, acontece. 


O extenso elenco trabalha bem, mas a força do longa está centralizada em quatro atores. Nicholas Hoult surpreende como o kamycrazy Nux. O cara começa como vilão, mas logo percebemos que vale a pena torcer por ele, principalmente pelo desenvolvimento controverso de sua relação com uma "bolsa de sangue". Nux e o parceiro Slit são o alívio cômico do filme. Já o vilão da história é mesmo Immortal Joe, interpretado pelo ator Hugh Keays-Byrne, que retoma a parceria com o diretor George Miller. Byrne foi o primeiro vilão da franquia Mad Max em 1979, o vingativo Toecutter. 


E calçando sapatos importantes, temos Tom Hardy como Max Rockatansky. A todo momento em cena, Hardy parece inexpressivo, de poucas palavras, como se calculasse incessantemente o momento exato em que perderá a sanidade. O Mad Max ideal, o personagem é exatamente isso. Por fim, Charlize Theron vive a Imperatriz Furiosa, e que excepcional personagem ela lapidou. Furiosa é tão importante para Estrada da Fúria, que faz de Max um coadjuvante. Sem dúvida um dos papéis definitivos da carreira da atriz.



Resumindo, Mad Max: Estrada da Fúria não só sobrevive ao hype, ele supera expectativas, deixando polêmicas cretinas de lado, e garantindo, no mínimo, mas um filme para o futuro. Depois de trabalhos como Baby, o Porquinho Atrapalhado na Cidade e Happy Feet (que é excelente), Miller retornou a suas origens mais aterradoras, e o resultado foi poético, foi brilhante, foi mais do que qualquer um esperava. Filme Obrigatório.

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Mad Max: Estrada da Fúria/ Mad Max: Fury Road: Austrália, EUA/ 2015 / 120 min/ Direção: George Miller/ Elenco: Tom Hardy, Charlize Theron, Nicholas Hoult, Hugh Keays-Byrne, Josh Helman, Nathan Jones, Zoë Kravitz, Rosie Huntington-Whiteley, Riley Keough, Abbey Lee, Courtney Eaton, John Howard, Richard Carter, Iota, Angus Sampson

Kurt Cobain: Montage of Heck


"Melhor queimar de uma vez do que se apagar aos poucos"

O Nirvana foi a última "maior banda de rock do mundo". Kurt Cobain foi o último grande rockstar, pelo menos o último autêntico, daqueles que surgem como uma resposta natural da sociedade, ou uma ofensa. O cantor e compositor americano se matou aos 27 anos de idade, no auge do sucesso – foi consumido por tudo aquilo que a palavra autêntico representava. O documentário Kurt Cobain: Montage of Heck se propõe a contar a versão autorizada da vida de Kurt, que não foi longa, mas foi suficiente para transformá-lo numa espécie de herói utópico.

Por ser uma história relativamente recente, o material disponível para a produção do filme foi enorme, e o diretor Brett Morgen soube utilizá-lo muito bem. "Montage of Heck", por exemplo, foi o título dado por Kurt a uma fita cassete editada por ele mesmo, uma compilação poética de dissonâncias e palavras arrastadas. Muito material escrito pelo compositor também está presente, como rascunhos originais de canções famosas e esquecidas, pensamentos aleatórios e desabafos suicidas. A edição do documentário é incrível e a trilha sonora dispensa comentários. A união destes fatores constrói então um instigante mural de informações secretas, rasuradas e ornamentadas por desenhos estranhos. Uma verdadeira ode ao espírito jovem do artista, algo cult e pulsante.




Kurt foi o primeiro filho, e por isso ele meio que unificou as famílias de seus pais quando nasceu. A criança era o centro das atenções, literalmente um anjinho de olhos azuis. O registro dele (vídeos e fotos) nesta idade foi extenso. No entanto, conforme envelheceu, seu comportamento começou a desagradar, foi taxado como hiperativo, e seguindo prescrições médicas, aos sete anos começou a tomar Ritalina, substância estruturalmente relacionada com anfetaminas.


A separação dos pais foi o estopim para um comportamento mais destrutivo na adolescência. Ele saiu de casa, vagou sem rumo durante um tempo, isso depois de ter sido renegado por praticamente todos da família. Este período mais obscuro da vida do músico quase não possui imagens, e para suprir esta falta, o documentário opta, inteligentemente, por uma animação estilizada, e o resultado é excelente. Estas cenas cartunescas são narradas por palavras do próprio cantor, e explicam alguns momentos problemáticos de sua juventude. Desde cedo ele já pensava no suicídio como uma alternativa de escapar da alienação do mundo.




Montage of Heck apresenta alguns momentos importantes do Nirvana, como o show da banda no Brasil e os bastidores da capa do Nevermind. Porém, o enfoque fica mesmo na personalidade do cantor. São suas contradições os fatores realmente esmiuçados. Entrevistas antigas e recentes, de parentes e amigos, corroboram e ajudam a moldar um quadro geral, mas são os arquivos e textos de Kurt que enfaticamente dizem algo relevante. 


Um dos momentos de maior interação de Kurt com as câmeras se deu num período de exílio, em que, junto com a esposa Courtney Love, se afundou no consumo de heroína. Os dois protagonizam cenas deprimentes, decadentes, com Kurt cheio de escaras e magro como um zumbi. Em certo momento Courtney chacoalha sua filha de um lado para o outro de maneira irritante. Os jornais da época insistiam que Frances Bean Cobain havia nascido viciada em heroína. Foi uma gravidez conturbada, e depois disso veio o In Utero.


No final, Montage of Heck é uma análise quase subjetiva das inspirações e maldições que moveram Kurt Cobain. Ao que parece, o cantor era uma contradição ambulante. Foi merecedor do sucesso, mas nunca esteve pronto para o mesmo. Provavelmente almejava a fama, quase como uma obrigação, mas em suas entranhas, simplesmente repudiava todo o estardalhaço. Ele perdeu o prazer pela música, seu comportamento não era mais autêntico. O vício estava fazendo dele um grande alvo da mídia sensacionalista, e ele odiava ser humilhado. Recomendado.




Kurt Cobain: Montage of Heck: EUA/ 2015 / 145 min/ Direção: Brett Morgen/ Elenco: Kurt Cobain, Don Cobain, Kim Cobain, Jenny Cobain, Courtney Love, Krist Novoselic, Tracey Marander, Wendy O'Connor, Frances Bean Cobain, Pat Smear

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