Grandes Olhos (Big Eyes)


Olhos Nunca Mentem

Grandes Olhos é provavelmente o trabalho "mais normal" da carreira de Tim Burton, não pelo fato de abordar uma história real (lembra do insano Ed Wood?), mas sim pela incursão de uma linearidade inédita dentro da linguagem do diretor. Burton deixou um pouco de lado seu clima lúdico rotineiro, e se focou nos fatos e sentimentos do que estava contado. Seu conceito visual estilístico obviamente se manteve, porém um pouco menos acentuado, devido a esta mudança de narrativa.

O roteiro de Scottt Alexander e Larry Karaszewski adapta a incrível história de Margaret Keane e seu marido (na época) Walter Keane. Durante uma década, pinturas de Margaret foram vendidas como sendo trabalhos de Walter. A série de quadros, batizada como Big Eyes (que obrigatoriamente ilustrava personagens com olhos desproporcionalmente grandes) foi um sucesso arrasador e vendeu muito bem. A fraude é considerada uma das maiores do mundo da arte.




O principal mérito de Grandes Olhos é a capacidade de humanizar e também desumanizar seus protagonistas com facilidade, inclusive Walter Keane. As motivações por trás da fraude são construídas de maneira extremamente orgânica e natural. Parece até que Burton tenta nos convencer que, se não fosse por Walter, Margaret provavelmente não alcançaria o sucesso. Na época, uma pintura era simplesmente desconsiderada se fosse feita por uma mulher, uma lastimável injustiça. Como os dois eram pintores, e depois de casados ambos assinavam Keane (sobrenome dele), uma confusão com as identidades logo se formou, e assim, para não "azarar" as vendas, ele se tornou o autor dos Grandes Olhos, com o consenso sofrido de Margaret.


As qualidades de Walter como vendedor fizeram dos quadros um negócio milionário. Adaptando o pensamento modernista de Andy Warhol (que pregava o fim da padronização da arte, podemos dizer), Walter transformou o mercado ao inverter completamente seus valores de exclusividade. O fato é que todos queriam um exemplar dos Grandes Olhos, mas nem todos podiam pagar o alto preço de um quadro na parede. Ele então começou a produzir cópias desses quadros. Eram pôsteres e mais pôsteres que vendiam como água. Logo, até mesmo cartões, canecas e travesseiros tinham estampas pintadas por Margaret. Era o início da comercialização em massa da Pop Art. Mas a fama e a riqueza acabaram por consumir todos os envolvidos, e no final, Margaret quebrou o silêncio.




Amy Adams e Christoph Waltz provaram ser escolhas perfeitas para o casal Keane. Adams faz de sua Margaret um frágil elemento da natureza, feita de pura inspiração e talento. Acorrentada a costumes, valores e homens usurpadores por toda a vida, ela sempre esteve sozinha com sua arte, e nela se refugiou. Assim como os quadros, os olhos de Adams parecem não mentir nunca. Sua humildade com a personagem é tocante. 


Do lado negro da força temos Waltz, o vilão que todos adoram adorar. Inicialmente, Walter não parece tão culpado assim. Parece um malandro apaixonado, mais interessado em fazer algum dinheiro pra viver bem com a esposa, mesmo que isso signifique não respeitá-la moralmente como deveria (pois afinal, a sociedade machista praticamente pregava esse desrespeito). Porém, ao mínimo sinal de sucesso e fama, o homem se transforma completamente. Seu ego alcança o tamanho de uma muralha, e suas atitudes ganham contornos grotescos, até mesmo perigosos. Essa evolução de Walter, sua mutação como personagem, é muito bem construída pelo roteiro e perfeitamente interpretada por Waltz. Sem dúvida um papel complicado, mas aparentemente feito sob medida para o ator austríaco.

No final, Grandes Olhos é um retrato envolvente desta embasbacante fraude dos Keane. Tim Burton se mostra confortável com uma narrativa mais humanizada, e o eficiente roteiro proporciona aos atores o material necessário para que seus personagens sejam compreendidos, com suas complexas verdades e mentiras. Quando criança, Margaret ficou temporariamente surda, e nesse período de perda de sentidos, se fixou nos olhos ao seu redor. Seu trabalho se tornou genial, mas sua vida definitivamente não foi um conto de fadas. Recomendado.







Grandes Olhos/ Big Eyes: EUA, Canadá/ 2014 / 106 min/ Direção: Tim Burton/ Elenco: Amy Adams, Christoph Waltz, Danny Huston, Krysten Ritter, Jason Schwartzman, Terence Stamp

O Ano Mais Violento (A Most Violent Year)


Amigos, Amigos, Negócios à Parte

Como o próprio título explica, 1981 foi um dos anos mais violentos da cidade de Nova Iorque. Manter um negócio de forma honesta era uma missão praticamente impossível, o clima era de ladrão rouba ladrão e quem bate mais forte manda. Mas aqui estamos falando de negócios "legítimos", como uma companhia de óleo por exemplo, que rouba o caminhão da concorrência sem suar uma gota de remorso. Não fazer parte do acordo, não aceitar facilitações, ou mesmo não permitir funcionários armados, são fraquezas fatalmente exploradas pelos adversários. Escolher trilhar um caminho honesto faz de você um alvo aparentemente fácil.

No entanto, neste novo filme do diretor e roteirista J.C. Chandor, a persistência é o grande diferencial da história. O protagonista Abel Morales, imigrante latino que prosperou nos Estados Unidos com sua empresa Standard Oil, definitivamente não é um alvo fácil. Na verdade, ele parece um símbolo americano ambulante, daqueles que provam que o sucesso vem para quem se esforça. O cara é um diplomata natural, que sabe como se expressar, como liderar e inspirar seus funcionários, que pensa meticulosamente antes de lidar com as mais extenuantes situações em que se vê envolvido. Obviamente ele também falha, e pode até ser considerado suspeito por muitos – tudo é meio nebuloso inicialmente, pois o hipnotizante roteiro de Chandor faz questão de não estabelecer nenhum tipo de background explícito para trama e seus personagens, tudo começa abruptamente e vai se amarrando gradativamente.



E diante desse mote, percebemos a quebra de certos padrões criativos, principalmente para o gênero mafioso. A obra de Chandor consegue se comunicar de maneira extraordinária, pelo simples fato de optar por um ideal que hoje parece perdido, a busca pela honestidade. O filme exemplifica todas as dificuldades diretamente ligadas a esta escolha, e demonstra a seriedade e principalmente a frieza necessária para se manter persistente. O texto faz isso sem glorificar as atitudes do personagem, pois deixa claro que a diferença entre o bem e o mal é tênue. A consolidação digna do nome Standard Oil se tornou o único objetivo de Morales, ainda mais quando forças externas demonstram sem medo sua gana de corromper. As filhas e a esposa Anna, são a motivação que mantém o empresário focado, tanto moralmente como financeiramente. Mas ser lembrado como exemplo de sucesso diante das adversidades, isso de fato é uma recompensa tentadora. No final, tudo é uma questão de ego, ironicamente.

J.C. Chandor já falou de persistência em seus trabalhos anteriores. Em 2013, ele surpreendeu com o filme Até o Fim, drama de um homem só em que Robert Redford tenta desesperadamente se manter fora d'água, após seu barco colidir com um contêiner perdido no oceano. Com O Ano Mais Violento, a narrativa consegue ser ainda mais envolvente. Sua abordagem valoriza principalmente o desenvolvimento dos diálogos, o andamento das cenas e as interpretações do elenco, o que consequentemente enfatiza a incrível história que está sendo contada. Visualmente, ele opta por tomadas contemplativas belíssimas, e perseguições angustiantes, como a fuga pela ponte 59th Street Brigde, perfeitamente orquestrada. Mas qualquer que seja o ângulo, a cidade de Nova Iorque sempre chama atenção como o pano de fundo perfeito, hora ensolarada, hora coberta por uma espessa camada de neve, mas sempre imponente.



Uma história como essa só poderia ser contada por intérpretes de honra. O protagonista Abel Morales inicialmente seria interpretado por Javier Bardem, o que não aconteceu. Oscar Isaac foi chamado para preencher a vaga, e sinceramente, fica difícil imaginar outra pessoa para o papel, a não ser um Al Pacino de 30 anos atrás. Interpretando a esposa Anna temos Jessica Chastain, talvez uma das mais belas e talentosas atrizes da última década. Mesmo não conhecendo por completo o passado da personagem, percebemos todas suas diferentes camadas vividamente. Uma construção exemplar de Chandor, um trabalho impecável de Chastain. No elenco estão também Albert Brooks, David Oyelowo, Elyes Gabel e Alessandro Nivola.        

Por fim, O Ano Mais Violento é um clássico do cinema. É um sucesso técnico e autoral, que analisa as raízes do crime organizado disfarçado de American Dream, e faz isso de maneira realista, racional, e ao mesmo tempo poética. Durante todo o ano de 1981, Morales persistentemente tenta ser justo, só que mesmo o mais íntegro dos negócios acaba batizado com o sangue de inocentes. Recomendado.




O Ano Mais Violento/ A Most Violent Year: EUA Emirados Árabes Unidos/ 2014 / 125 min/ Direção: J.C. Chandor/ Elenco: Oscar Issac, Jessica Chastain, David Oyelowo, Alessandro Nivola, Albert Brooks, Elyes Gabel, Catalina Sandino Moreno

Força Maior (Force Majeure)


Catástrofe Humana

É mesmo impressionante a capacidade de alguns cineastas europeus de criar em seus filmes um clima de tensão literalmente tóxico. Força Maior é assim, é algo tremendamente incômodo de se assistir. Com a obra, o diretor e roteirista sueco Ruben Östlund, oferta a oportunidade de analisarmos um retrato dramático da covardia humana, que pode ser racionalizada por alguns como um instinto de sobrevivência inconsciente, e por muitos outros como algo desforme e patético. 

Na história, acompanhamos as férias de uma família nos Alpes Franceses. O casal Tomas e Ebba, juntos com os filhos Harry e Vera, se divertem pra valer esquiando nas belíssimas montanhas próximas ao hotel em que estão hospedados. No segundo dia de viagem, quando se preparavam pra lanchar num restaurante com vista para os alpes, eles ouvem uma explosão no cume das montanhas. Se trata de um procedimento que provoca uma avalanche controlada, que remove a neve mais instável da superfície, garantindo assim a segurança dos esquiadores, exatamente contra deslizamentos. 


Porém, naquela explosão especificamente, algo parece ter saído do controle, e a neve acabou descendo mais forte que de costume, o que deixou os clientes do restaurante apavorados, pelo menos por um breve momento. No final, tudo foi apenas um grande susto. Os turistas ficaram cobertos por uma expeça neblina gelada, mas ninguém se feriu.



O grande problema no entanto se deu no momento em que todos começaram a se assustar e correr – pois imaginavam um impacto iminente. O pai da família, Tomas, empurrou seu filho para o lado e disparou sem ao menos olhar pra trás, abandonando a mulher e as duas crianças. A esposa Ebba, enquanto abraçava os filhos e tentava se proteger, gritava o nome do marido desesperada. Ele só voltou depois que tudo se acalmou, e desconfortavelmente, terminaram suas refeições.

Força Maior usa este exemplo de comportamento para investigar a desintegração do relacionamento de uma família. Depois do aconteceu, Ebba fica visivelmente consternada com a atitude do marido, que por sua vez, ridiculamente, diz que não foi isso que aconteceu, que este é apenas um erro de interpretação da esposa. A negação torna a situação ainda mais desconfortável.   


Quando sozinhos, a falta de diálogo entre os dois é predominante. Eles nem ao menos conseguem se olhar nos olhos. Tentando corroborar seu argumento, que expõe a falha do marido, Ebba acaba discutindo o assunto com conhecidos em encontros informais, que se tornam situações tóxicas, como disse anteriormente. Mesmo os amigos são atingidos por estes questionamentos morais hipotéticos.




Conforme o filme se desenrola, vamos aprendendo que a covardia do marido nestas férias em família foi apenas mais um de seus erros. A esposa, até então conformista (presa à dogmas e obrigações), aceita a dura realidade: seu marido é fraco, manipulador, e usa um desespero dissimulado para entristecer os filhos, visando assim que a mãe os conforte, fazendo com que a mesma esqueça (na verdade enterre) tudo o que sente, deixando que falsas redenções restabeleçam o status quo.

Esta é uma mensagem deprimente. O desconforto arrasador de Força Maior vem da falta de contato do casal, da ausência de empatia entre os dois. Depois de anos, eles parecem estranhos que por acaso tiveram filhos, acomodados em um limbo onde, aconteça o que acontecer, tudo deve continuar o mesmo, até o ponto de explodir em mil pedaços, ou uma avalanche cair em suas cabeças. 


As crianças, irritadiças e sem controle, não conseguem entender a profundidade dos males que atormentam seus pais. Elas apenas absorvem o sentimento, se entristecem e se abraçam confusas, com medo da separação. Provavelmente se tornarão covardes, que fogem sem olhar para trás. Este é um problema de largas proporções, todos caminham juntos nesta estrada, mas como estranhos. É uma catástrofe humana sem precedentes. Recomendado.





Força Maior/ Force Majeure: Suécia, França, Noruega, Dinamarca/ 2014 / 120 min/ Direção: Ruben Östlund/ Elenco: Johannes Kuhnke, Lisa Loven Kongsli, Vicent Wettergren, Clara Wettergren, Kristofer Hivju, Fanni Metelius, Karin Myrenberg, Brady Corbet, Johannes Moustos

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)


O Show Deve Continuar

Birdman parece feito em um take só. Obviamente não é, mas o simples fato de parecer feito em um take só já é um desafio incalculável, orquestrado pelo exímio diretor Alejandro González Iñárritu. Não importa o quão improvável seja o trajeto e ação dos personagens, as lentes de Emmanuel Lubezki se esgueiram por corredores apertados ou mesmo flutuam de maneira inconcebível para captar todos os momentos, e o show sempre continua. Ironicamente, Alfonso Cuarón fez o mesmo com seu clássico sci-fi, Gravidade. Parece até que os amigos combinaram uma aposta: "Quem consegue mais prêmios com um filme de um take só?". Iñárritu ganhou com facilidade.

Poucas são as vezes que temos o privilégio de acompanhar algo tão bem executado como Birdman. O filme não é só arrasadoramente perfeito no quesito técnico, mas também possui um roteiro igualmente hipnotizante. O enredo é uma ode destrutiva ao sonho americano do estrelato e da fama. Toda a crueldade do ofício – que com a mesma facilidade que concede suas graças, também as tira – é explorada através de uma simbólica adaptação teatral da peça What We Talk About When We Talk About Love, do autor Raymond Carver. Nela, o protagonista, cansando de implorar pelo amor dos outros, decide se matar. Ele já não mais existia para ninguém, então porque continuar sem aplausos?




Quem realiza a peça é  Riggan Thomson, um desacreditado ator que no passado arrecadou milhões com o blockbuster Birdman, filme de herói em que interpreta um homem-pássaro. Para ele, o personagem se tornou uma assombração, uma voz em sua mente, que constata apenas a verdade. Pressionado em todos os aspectos possíveis por esta ousada nova ideia (de uma celebridade hollywoodiana se aventurar no sagrado solo do teatro), Riggan dramaticamente se vê a beira de um abismo existencial. E agravando seu senso de responsabilidade, ele não consegue se relacionar com a filha Sam, que representa uma geração que nem mesmo se importa em se importar com a existência do homem-pássaro, muito menos quem o interpretava. O sujeito está quebrado, cansado e com medo. Está preso em uma espécie de pesadelo particular, onde coisas muito estranhas começam a acontecer, como sua raiva se tornar telecinética.


Diante disso, percebemos que o mais impressionante aspecto de Birdman é a monumental participação de Michael Keaton como o protagonista Riggan. Keaton, que se consagrou Batman a mais de 25 anos atrás, é o exemplo personificado de como um bom intérprete pode desaparecer na sombra de um personagem. Hoje este ciclo ironicamente está fechado. Respeitados astros, como Michael Fassbender por exemplo, convivem muito bem com suas personas heroicas. É algo que não mais afeta credibilidade ou mesmo carreiras. Hollywood se converteu, e é fácil entender o porquê. Mas para Keaton tudo foi bem diferente, e é por isso mesmo que em Birdman ele aposta sua própria história. É algo pessoal, que vai além do sonho do estrelato e da fama de que falei. É basicamente um desabafo. Ele arriscou tudo.



O sentimento de impotência que todos os personagens dividem, diante desse massacrante mercado de aparências, é totalmente honesto por que é algo próximo deles, na posição de atores interpretando atores. Todo o elenco oferece um trabalho impecável. Cada um deles possui pelo menos uma cena memorável no roteiro. A jovem e prolífera Emma Stone é destaque como a filha Sam, que dispara em certo momento um discurso brutalmente realista sobre a solidão e o medo que se abate sobre nossa sociedade moderna. Edward Norton também entrega um dos melhores trabalhos de sua carreira, como o mítico e inigualável ator dos palcos, Mike Shiner. É quase impossível decidir se você torce ou simplesmente despreza o cara. Neste mesmo nível de qualidade, vemos participações edificantes de nomes como Naomi Watts, Zach GalifianakisAmy RyanAndrea Riseborough.


E lapidando a fita com precisão, temos o mexicano Iñárritu, aproveitando a liberdade como autor para transcender sua própria arte. A genialidade do roteiro é incomparável, assim como a atenção aos detalhes. Vemos pura inspiração, desde os créditos iniciais até a belíssima fotografia de Lubezki, da construção de uma enorme e ininterrupta cena, até a trilha sonora perseguidora do jazzista Antonio Sanchez que mais parece uma linha de bateria improvisada (J.K. Simmons ficaria orgulhoso, ou não).  



A sequência da Times Square, por exemplo, sintetiza muito bem o que foi gravar Birdman. Foram apenas quatro tomadas para cena toda. Não poderiam ocorrer atrasos, senão a luz estaria comprometida. Apenas quatro pessoas acompanharam Keaton na cena, Iñárritu foi uma delas, e durante a caminhada, ele fez um take separado com seu celular, que acabou sendo usado posteriormente no filme. Fora os poucos assistentes na multidão, todo o resto era é a Times Square a pleno vapor, pois ela não para.


Enfim, muito se falou sobre Boyhood merecer o Oscar de melhor filme, muito se falou sobre Birdman merecer também. Analisando imparcialmente, os dois filmes são opostos extremos. Um deles levou 12 anos para ser realizado, o outro foi simbolicamente conjurado em duas horas, "em tempo real". O elenco de um é formado em grande parte por não atores, o outro é um casting estrelar. A história de um é simples como vida, do outro, é complexa como a vida. No entanto, apesar de completamente diferentes, as duas obras são igualmente incríveis e importantes para o cinema, e escolher entre elas é simplesmente injusto, quase sem sentido na verdade. Por isso, Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) é mais que recomendado, é obrigatório!






Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)/ Birdman: Or (The Unexpected Virtue of Ignorance): EUA/ 2014 / 119 min/ Direção: ALejandro González Iñárritu/ Elenco: MIchael Keaton, Emma Stone, Zach Galifianakis, Edward Norton, Naomi Watts, Andrea Riseborough

O Abutre (Nightcrawler)


Um retrato grotesco da força de vontade humana

Louis Bloom é um homem de visão, um empreendedor obstinado que almeja, acima de tudo, fazer sucesso com um trabalho que ame de verdade. Seus valores e preceitos profissionais foram todos adquiridos através da internet, e quando o mesmo repete mecanicamente alguns destes ensinamentos, percebemos que algo está extremamente errado. Sua intensidade é psicótica. No entanto, ele possui a ferramenta necessária para vencer neste mundo cão: força de vontade.

O filme O Abutre é um retrato assustador da capacidade humana de subverter valores, de transformar fatalidades em um espetáculo amoral. Louis Bloom é simplesmente mais um agente do caos que joga combustível nesta fogueira. Sua "almejada vocação" é o telejornalismo verdade, aquele que se resume em apontar a câmera para acidentes, resgates, crimes, pessoas mortas ou agonizando. Se sangrar, alguém vai pagar pra ver, a demanda é de fato impressionante. Sendo assim, a mais importante missão da profissão é conseguir chegar no local da tragédia rapidamente, até mesmo antes da polícia. Isso permite uma captura de imagens mais bem trabalhada, com detalhes e enquadramentos que se fixam nas cabeças dos telespectadores. Um ajuste aqui, um ângulo aberto ali, e a cena de uma colisão fatal se torna uma pepita de ouro.



Este é o primeiro filme de Dan Gilroy como diretor e roteirista – até então ele havia apenas roteirizado algumas obras esquecíveis, como Gigantes de Aço e O Legado Bourne. O resultado foi tecnicamente impecável. Gilroy acerta em todas suas escolhas, começando pela incrível trilha sonora que estabelece o ritmo das cenas, hora carregadas de urgência, hora mórbidas e desumanas. Já seu texto disserta com perfeição sobre o mercado de horrores que é o telejornalismo americano, em que emissoras vendem o medo para um público friamente selecionado (brancos, que vivem em bairros ricos). E por fim, temos a escalação de Jake Gyllenhaal como Louis Bloom, um marco na carreira do ator.

Gyllenhaal tem uma cota considerável de personagens lunáticos em seu currículo, mas Louis Bloom é o maior de todos, e provavelmente o mais articulado. O ator emagreceu mais de 10 quilos para o papel, o que lhe rendeu um aspecto doente, como de um viciado em crack (principalmente com seus olhos arregalados). Toda a construção da personalidade de Bloom é impressionante. Ao mesmo tempo em que ele parece totalmente no controle da situação, parece também a ponto de explodir. Suas técnicas de trabalho não são as melhores, seus discursos institucionais soam como pura loucura, mas sua dedicação inabalável, no propósito de se tornar um autêntico carniceiro da humanidade, o faz progredir nos negócios.



O excelente roteiro de Gilroy se preocupa em montar passo a passo este desenvolvimento de Bloom como cinegrafista. O personagem bate a cabeça até aprender que quanto menos ele é notado no local das filmagens, melhor. Pouco tempo depois (pois ele aprende muito rápido), sua verve artística ganha contornos míticos, e sua frieza diante de cenários brutais o torna uma espécie de mestre do horror. Com experiência, ele percebe todas as possibilidades do trabalho, começa enxergar frestas no sistema, e criar oportunidades maiores e mais rentáveis em cima disso.

Em resumo, O Abutre demonstra de maneira incisiva o que uma pessoa obstinada é capaz de conquistar, mesmo que as inclinações morais envolvidas sejam perversas. A única inconsistência desta é história é que Louis Bloom já deveria ter dado certo antes. Como disse, o cara é pura força de vontade. Recomendado.





O Abutre/ Nightcrawler: EUA/ 2014 / 117 min / Direção: Dan Gilroy/ Elenco: Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Bill Paxton, Kevin Rahm, Riz Ahmed 

Operação Big Hero (Big Hero 6)


Com Operação Big Hero, a Disney consegue ser maior e melhor

Operação Big Hero é o resultado da união dos poderes de diversas pessoas espetaculares, e não estou falando dos personagens do filme, mas sim do time Disney por trás da animação. Big Hero 6 (nome da obra lá fora) foi originalmente uma HQ da Marvel, que não encontrou público certo quando lançada em 1998. Depois do Mickey comprar a Marvel, todo o universo do quadrinho - de pesada influência oriental e de tom muito mais sério  - foi completamente remodelado, para enquadrar-se a personalidade dos trabalhos da casa.   

A história de Operação Big Hero se passa em San Fransokyo, uma espécie de universo paralelo que mistura São Francisco e Tóquio. No lugar, parece que não existem etnias definidas, todos são o resultado de uma mistura universal de raças. A tecnologia avançada desta realidade possibilita a construção de aparatos futurísticos e robôs inteligentes que vão além de nossa imaginação. São designs criados para o bem, mas que se caírem em mãos erradas, podem se tornar armas poderosas.



E diante do surgimento de um super-vilão na cidade, um grupo de amigos cientistas se vê na obrigação de fazer alguma coisa. A equipe de seis heróis é liderada pelo garoto Hiro, que tem como seu braço direito o robô – que mais parece um marshmallow gigante  Baymax, uma herança de seu irmão Tadashi. Juntos, os novos defensores do bem vão combater o inimigo em comum. No entanto, o caminho para se tornarem realmente dignos de seus poderes e responsabilidades, precisa ser percorrido com sabedoria.

Bem, para ser honesto, essa pequena sinopse nem mesmo arranha a superfície do que é a Operação Big Hero. O trabalho de criação por trás do filme é sensacional. O roteiro, de maneira cativante, fala do poder de novas amizades na vida de uma pessoa, reflete sobre a depressão do luto, sobre a irracionalidade da vingança, e demonstra que todo amadurecimento leva a redenção. Os personagens foram moldados com tanta atenção, que para descrever apenas um deles, este texto ficaria longo demais, é melhor conhecê-los pessoalmente. 


Cada cena e cada diálogo ajuda a construir um novo aspecto dos heróis. Devido as possibilidades infinitas de desenvolvimento de cenas, a valorização dos argumentos e situações é feita sempre de maneira retumbante, com a trilha sonora épica de Henry Jackman estabelecendo o ritmo, e a criatividade por trás dos efeitos especiais trabalhando a mil por hora.


O universo criado para Operação Big Hero é provavelmente um dos mais bem talhados pela computação gráfica. São dúzias de cenários extraordinários, que apresentados em outro contexto, seriam impossíveis de serem identificados como não reais. Este nível de perfeição técnica é algo que surpreende, uma realização que eleva os parâmetros e expectativas de audiências futuras. 

E analisando bem a equipe por trás do filme, podemos perceber as razões de tudo ter dado muito certo. A produção conta com dois diretores, Don Hall e Chris Williams, e três roteiristas, Jordan Roberts, Daniel Gerson e Robert L. Baird. Entre os filmes dirigidos e roteirizados por esses caras, estão obras como: Tarzan, A Nova Onda do Imperador, A Família do Futuro, A Princesa e o Sapo, O Ursinho Pooh, Mulan, Bolt: Supercão, A Marcha dos Pinguins, Monstros S.A., Universidade Monstros, Enrolados para Sempre e Carros. 


Agora, o grupo Big Hero 6 foi repaginado dos gibis para telona pela a dupla inseparável Duncan Rouleau e Steven T. Seagle, mentes criativas por trás de séries animadas como: Os Vingadores Unidos, Ultimate Homem-Aranha e, principalmente, tudo que existe de Ben 10. Nos créditos eles assinam a participação como Man of Action

Costumo pensar que, em termos de criação, menos é mais, por isso é uma surpresa ver que tantas cabeças conseguiram se entender e se complementar de maneira tão correta. Não ousaria dizer que Operação Big Hero é a melhor animação da Disney, mas chega muito perto disso. O filme pega emprestado diversos elementos explorados por outras animações famosas, como a tristeza da morte (Up), a afeição do robô amigo (WALL-E), o humor dos heróis atrapalhados (Os Incríveis), o voo do navegador (Como Treinar seu Dragão), e potencializa estas ideias ao máximo, se tornando maior e melhor. 

Mesmo com um complexo processo de criação por trás de tudo, no espírito da obra reside a honestidade e simplicidade que toda criança do mundo quer ver em um filme... e adultos também. Recomendado.





Operação Big Hero/ Big Hero 6: EUA/ 2014 / 102 min / Direção: Don Hall, Chris Williams/ Elenco: Scott Adsit, Ryan Potter, Daniel Henney, T.J. Miller, Jamie Chung, Damon Wayans Jr., Genesis Rodriguez, James Cromwell, Alan Tudyk, Maya Rudolph 

De Volta ao Jogo (John Wick)


Velhos Hábitos Nunca Morrem

Como muitos já devem ter percebido, existe uma nova tendência em Hollywood. Atores conhecidos do grande público, que já chegaram nos 50 anos (em alguns casos até nos 60), tentam se manter produtivos no mercado com fitas de ação de orçamento enxuto e farta divisão de lucros. Liam Neeson, por exemplo, é o grande propulsor deste formato, e recentemente lançou a última parte de sua trilogia Busca Implacável, franquia que virou uma espécie de lenda dentro do cenário, para o bem ou para o mal. 

Bem, dados os parâmetros, fica meio claro que De Volta ao Jogo pega carona neste rentável expresso da meia idade. O filme traz Keanu Reeves interpretando o protagonista John Wick, e a oportuna diferença da produção é que Reeves já é consagrado por seus filmes de ação, e não aparenta tanto os 50 anos que têm.

A história é muito simples, e não oferece muitas surpresas, mas o conceito de honra que serve de base para o texto é bem maneiro. É o seguinte: John Wick é uma espécie de assassino lendário da máfia. Na verdade, ele era o assassino dos assassinos lendários. Literalmente o bicho papão. No entanto, depois de encontrar o amor verdadeiro, o cara resolveu se aposentar e aproveitar a vida. Mas como apenas os bons morrem cedo, sua mulher logo ficou doente, e Wick permaneceu ao lado dela até os últimos momentos. A esposa, consciente de seu destino, havia encomendado um pequeno cãozinho para servir de companhia ao marido. Seu último presente.



O problema começa quando o filho do chefe da máfia russa resolve roubar o extremamente sensacional carro de John Wick, um Mustang Boss 249, 1969. Para isso, o fedelho invade a residência de Wick acompanhado de capangas, que espancam o enfraquecido viúvo, matam o cachorro e roubam o carro. Agora, para alguém que acabou de acompanhar a esposa se apagando lentamente, e que tinha no cachorro um símbolo de redenção, qual seria a coisa mais digna a se fazer? Matar todos envolvidos, obviamente, e depois encarar uma tempestade de consequências. Está é a resposta certa.

De Volta ao Jogo foi o primeiro filme dirigido por Chad Stahelski, que possui vasta experiência como coreografo de artes marciais e coordenador de equipes de dublês. Suas escolhas técnicas funcionam muito bem, o que não deixa de ser uma surpresa. Com uma visão apurada, Stahelski valoriza os detalhes da ação explosiva que o filme se propõe a entregar, e vai além, ao construir certa dramaticidade e um eficiente clima de tensão. O universo criado pelo roteirista novato Derek Kolstad possui personalidade, é bem estruturado e conta com personagens interessantes.



Keanu Reeves é conhecido por fazer questão de realizar suas cenas de ação, e isso definitivamente engradece sua participação no filme. As lutas são tão bem coreografadas, que parecem inventar novas técnicas mortais de combate corpo a corpo. O personagem John Wick é um cara fechado, de feição apática e pouca conversa. Em outras palavras, o papel de sempre para Reeves. Sabemos que ele não é um ator que transpira naturalidade, mas muitos de seus trabalhos possuem uma base de fãs hardcore (Bill & Ted, Caçadores de Emoção, Matrix, A Scanner Darkly), o que significa que algo está sendo feito de forma correta, ocasionalmente. 

Em resumo, De Volta ao Jogo é uma despretensiosa e divertida opção de entretenimento para se assistir em casa. Levando em conta que este é um filme que preza pelo realismo de suas ações, o texto algumas vezes se monstra pouco coerente, o que fatidicamente é uma das marcas do gênero. Mas o que seria desse tipo de ação se, por exemplo, o vilão não capturasse o mocinho para despejar xingamentos e chover porrada na cara dele? Ao invés de matá-lo de uma vez por todas? Se ninguém arriscasse torturar um mestre assassino, não existiriam frases como "se me soltar agora, não vai sofrer na hora de morrer", ou então "vou te matar primeiro com esse garfo", e obviamente não existiriam os três mandamentos de Liam, "Eu vou te procurar, Eu vou te encontrar, e Eu vou te matar". É uma linha tênue entre o brega e o totalmente badassRecomendado.





De Volta ao Jogo/ John Wick: EUA, Canadá, China / 2014 / 101 min / Direção: Chad Stahelski, David Leitch (não creditado) / Elenco: Keanu Reeves, Michael Nyqvist, Alfie Allen, Willem Dafoe, Adrianne Palicki, John Leguizamo, Ian McShane, Lance Reddick

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