No Limite do Amanhã (Edge of Tomorrow)


#Viva e deixe morrer

No Limite do Amanhã nos apresenta um dia na vida do oficial Cage. Contra sua vontade, ele é enviado para a mais importante batalha da raça humana contra os Mimics, espécie alienígena que assola a Terra. Por ironia do destino, o soldado se torna peça fundamental para uma possível vitória do exército dos homens, isso ao descobrir que desenvolveu a habilidade de reiniciar aquele mesmo dia toda vez que morre. 

Ou seja, ele não morre. Depois de ser destroçado por um Mimic, esmagado por um avião, ou tomar um tiro na cabeça, Cage acorda sempre na mesma manhã. Tudo ao redor dele acontece metodicamente da mesma forma, mas suas ações podem influenciar a ordem dos fatores, pois aquele que conhece o momento exato de desviar, tem maior chance der vencer o confronto. 

Só que para conquistar a habilidade de realmente conseguir desviar de qualquer coisa, ele vai precisar de muita ajuda, mais especificamente da ajuda e do treinamento da Full Metal Bitch Rita - a tradução seria algo como Vadia de Ferro, um apelido carinhoso da moçoila, que exemplifica o quão eficiente ela é no ofício de matar Mimics.

O grande diferencial de No Limite do Amanhã é seu humor. Tom Cruise realiza um excelente trabalho ao fugir daquele estereótipo de fodão, e se permite ser enxovalhado e humilhado por tudo e todos. Obviamente, com o tempo ele se torna o fodão, mas até lá a zuera é imensa. Depois resta apenas acompanhar as sequências de ação, que são arrasadoras, para se dizer o mínimo. 

Efeitos especiais incríveis criam uma espécie de inimigo espacial extremamente ameaçador, uma mistura das sentinelas do Matrix com o Space Jockey do Ridley Scott. Todo trabalho de cenografia, trilha sonora e figurinos funcionam perfeitamente. Os pesados trajes, que servem como exoesqueletos que fortalecem os soldados, geram algumas sequências bélicas memoráveis, e também ótimas piadas.

O filme foi dirigido pelo americano Doug Liman. Ele fez o primeiro A Identidade Bourne, mas depois lançou algumas porcarias, como Jumper e Sr. & Sra. Smith. Aqui ele finalmente se redime. Como toda a história se passa no Reino Unido, e a maioria da equipe de filmagem e elenco é formada por europeus, incluindo a belíssima e atlética Emily Blunt, o filme ganha um caráter intercontinental bem distinto, ainda mais com a cara do Tom Cruise como astro principal. Uma mistura de influências que sempre funciona bem, pois mescla aquela autenticidade técnica imersiva do cinema europeu, com o sentimento "Explosions? Fuck Yeah!" de Hollywood.

Enfim, No Limite do Amanhã é tão divertido que você vai querer ver de novo. É o dia da marmota mais uma vez. A direção de Liman é precisa, o roteiro, que adapta a série mangá All You Need is Kill, de Hiroshi Sakurazaka, chega a ser brilhante em determinados momentos, inovando de maneira instigante este conceito de repetição. E Tom Cruise e Emily Blunt formam uma dupla implacável, que no final do dia, se tornam heróis admiráveis. Recomendado.



No Limite do Amanhã/ Edge of Tomorrow: 2014/ EUA, Austrália / 113 min/ Direção: Doug Liman/ Elenco: Tom Cruise, Emily Blunt, Bill Paxton, Brendan Gleeson, Jonas Armstrong, Tony Way, Kick Gurry, Franz Drameh, Charlotte Riley

Sob a Pele (Under The Skin)


#Vazio debaixo da máscara

Nada pode te preparar para a estranheza de Sob a Pele. Logo nos créditos iniciais, percebemos que a ficção científica, extremamente atípica, veio para confundir e não explicar. Emulando um conceito abstrato de imagens, adotado por tantos outros clássicos do gênero, vemos nesta abertura estranhas substancias tomando diferentes formas, líquidos viscosos sendo injetados e círculos se encaixando numa espécie de modelagem artificial. Tudo acompanhado por uma trilha sonora hipnotizante.

Este é o surgimento da personagem protagonista, que é basicamente uma peça substituta. Em seguida, já em modus operandi, se iniciam os procedimentos de integração da mesma, com exercícios básicos de civilidade e pesquisas de campo. Estes exercícios trabalham a adaptabilidade da mulher ao nossos costumes, como por exemplo, a capacidade de iniciar uma conversa com um estranho, no caso, um homem potencialmente interessado em relações sexuais. Para ela, essa é a principal regra social a ser dominada. Um critério no entanto é obrigatório para a consumação: quanto mais solitário o alvo, melhor. A autenticidade do flerte é importante, pois o homem precisa, de livre e espontânea vontade (mesmo que dominado por seus instintos), optar por ser consumido.



O tempo de durabilidade da peça substituta no entanto é curta. Algo inevitável, levando em consideração o realismo humano que é personificado. Uma profunda confusão existencial logo debilita a mulher, e a falta de julgamentos morais, necessária para a captação de recursos e cumprimento da demanda de consumo, se torna impossível. Ao compreender que não é uma mulher completa, ela racionaliza que esta fadada ao descarte. Seu período de uso já é provavelmente estipulado de fábrica.

Ok. Existem formas mais clara e resumidas para se descrever esta história, mas elas com certeza arruinariam toda a proposta de investigar a obra. Sob a Pele é basicamente uma experiência cognitiva, que não se parece em nada com uma produção tradicional. Os sentimentos trabalhados aqui não são prazerosos. Existem momentos de total crueldade e morbidez, e a falta de sentimento incomoda, por ser realista demais. Estranha demais.



O diretor e roteirista Jonathan Glazer sempre buscou alcançar extremos em sua carreira, tanto temáticos como narrativos. Veja por exemplo Sexy Beast, seu longa de estreia, que é basicamente uma ode brutal ao desconforto de se presenciar a submissão humana. No entanto, apesar da temática, foi a tensão narrativa criada na obra, e a interpretação arrasadora de Ben Kingsley como o mafioso Don Logan, que realmente se tornaram memoráveis. Em Sob a Pele, alguns podem dizer que Glazer evidenciou uma espécie de discurso em forma de analogia, que diferencia a relação de poder e submissão de homens e mulheres. Porém, acredito que, como autor, sua intenção mais pungente foi realizar um exercício narrativo desafiador. 

A história é bastante simples, analisando superficialmente. Existem pouquíssimos diálogos e nenhum personagem sequer tem nome. Mas é no simbolismo construido em torno dos personagens e suas motivações, que se encontra a força implacável do filme. A valorização das ideias e sentimentos do roteiro é feita com um brilhantismo praticamente inédito, com cenas talhadas de forma impecável, extremamente expontaneas. Nenhuma ideia é explícita, argumentos são abertos a diferentes interpretações. A ambientação é surreal e pessimista. Por mais arrastada que seja certa sequência, é a instigante improbabilidade do tema que mantém todos acessos.


O grande mérito do trabalho vai então para a perícia de  Glazer como diretor. O britânico consegue capturar o cotidiano e o bizarro com perfeição. Os atores locais de Glasgow, cidade escocesa em que tudo acontece, oferecem puro realismo com seus sotaques pesados e comportamentos rústicos. Em certos momentos, não fica claro se os coadjuvantes que passeiam pelas ruas são ficcionais ou reais. E novamente, a trilha sonora, basicamente alienígena, se revela um importante elemento de imersão.

A obra não é um desafio interpretativo para o elenco, mas é preciso saber valorizar a coragem da atriz Scarlett Johansson, que decidiu se envolver com a produção de baixo orçamento, aceitando até mesmo realizar algumas cenas de nu frontal. Seu carisma trabalha a favor, e sua participação se torna verdadeiramente importante para o resultado positivo da fita.

No final, Sob a Pele é um sci-fi formidável. Instigante, criativo e bizarro como nenhum outro já ousou ser. Não é complexo em demasia, nem simplesmente compreensível. Apesar de estar aberto a discussões morais, filosofais e tudo mais, é no quesito técnico narrativo que o trabalho se destaca. Para não dizer que o longa é isento de falhas, no terceiro ato existe uma pequena queda no andamento, mas que logo é atenuada pelo excelente desfecho, psicologicamente brutal. Para quem se arrisca, recomendado.





Sob a Pele/ Under The Skin: 2013/ Reino Unido, EUA, Suíça / 108 min/ Direção: Jonathan Glazer/ Elenco: Scarlett Johansson, Jeremy McWilliams, Lynsey Taylor Mackay, Paul Brannigan

Sin City: A Dama Fatal (Sin City: A Dame to Kill For)


#Por entre acertos e pecados 

Em 2004, o lançamento de Sin City: A Cidade do Pecado foi algo transcendental. Vimos com olhos enfeitiçados o nascimento de um clássico sangrento de nossa cultura pop, que ainda hoje é uma forte influência visual e conceitual. Agora, a diferença notável entre A Cidade do Pecado e A Dama Fatal é a falta do elemento surpresa para os fãs. Fora isso, tudo parece exatamente o mesmo. Praticamente um certificado de garantia, não é?  

Sin City: A Dama Fatal foi dirigido por Robert Rodriguez em parceria com Frank Miller, o respeitado autor da HQ homônima que o filme adapta. Percebemos vividamente no roteiro de Miller a valorização necessária de todos os elementos que fizeram de seu trabalho nos quadrinhos algo cultuado, e que obviamente funcionaram perfeitamente no primeiro filme: o amor e sexo como ferramentas de construção moral e psicológica, a vingança e honra como motivações terminais destes mesmos valores, e a violência servindo de expressão artística para a loucura dos personagens. Uma válvula de escape.




As histórias atemporais apresentadas em A Dama Fatal, que se misturam cronologicamente com as de Cidade do Pecado, são guiadas por ações exacerbadas, que chegam a ser caricatas de tão honestas. Temos uma deusa capaz de levar qualquer homem a ruína, um jogador que aposta a própria vida no esforço de ser lembrado, e uma mulher à beira da loucura, guiada apenas por sua sede de vingança. 

Estas três linhas narrativas são quase sempre conduzidas por um poético, eloquente e funesto voice-overO texto de Frank Miller explora o lado mais sombrio do ser humano, mas também se preocupa em revelar fraquezas e sensibilidade. Estes já conhecidos argumentos do autor traduzem com perfeição a sensação de que, em nível molecular, estamos vendo na tela uma adaptação de sua HQ.
  
Visualmente a produção continua impressionante. A edição está mais robusta e criativa, devido a própria evolução tecnológica do cinema, e isso valoriza ainda mais o resultado. As cenas de ação parecem sádicas obras de arte, com balas, flechas e espadas transpassando com elegância o corpo humano. O enquadramento minucioso faz de cada frame um retrato belíssimo, e a trilha sonora caseira de Rodriguez complementa a ambientação.



O elenco conta com atores competentes, que no geral realizam um ótimo trabalho. Mickey Rourke retorna como Marv, talvez o sujeito mais badass das últimas décadas do cinema. Joseph Gordon-Levitt é o confiante valete Johnny, personagem criado especialmente para o filme. Jessica Alba consegue, dentro de suas limitações como atriz, trabalhar melhor sua estonteante dançarina Nancy. Josh Brolin convence como Dwight (papel que foi de Clive Owen no filme de 2004), e Eva Green chama atenção com Ava, dama fatal que aparece nua em mais da metade de suas cenas. Realizando pequenas participações vemos também Ray Liotta, Christopher Lloyd, Bruce Willis, Lady Gaga, entre outros.

A falha evidente de A Dama Fatal é sua falta de imersão. A temática pesada, carregada de diálogos pouco espontâneos (por assim dizer) e o roteiro de informações alternantes, torna a experiência mórbida e dissonante além da conta. Isso pode criar uma sensação de morosidade, que no final, para alguns, chega a comprometer todo o trabalho.

Mesmo assim, Sin City: A Dama Fatal é uma realização digna, que carrega a inspiração e suor de Robert Rodriguez e Frank Miller. Os personagens apresentados são impecáveis, as histórias possuem um conceito já mitificado, o estilo visual adotado não só reproduz perfeitamente a inovação dos traços de Miller, na verdade multiplica. Morosidade me parece um preço baixo a se pagar por um trabalho autoral e honesto nos dias de hoje, ainda mais de orçamento enxuto. Recomendado.






Sin City: A Dama Fatal/ Sin City: A Dame to Kill For: 2014/ Chipre, EUA / 102 min/ Direção: Frank Miller, Robert Rodriguez/ Elenco: Mickey Rourke, Jessica Alba, Josh Brolin, Joseph Gordon-Levitt, Rosario Dawson, Bruce Willis, Eva Green, Powers Boothe, Dennis Haysbert, Ray Liotta, Christopher Meloni, Jeremy Piven, Christopher Lloyd, Jaime King, Juno Temple, Stacy Keach, Jamie Chung, Lady Gaga, Alexa PenaVega

Chef - Crítica


#Uma comédia bem temperada e prensada na chapa

O ator, diretor e roteirista Jon Favreau é definitivamente um sujeito surpreendente. O cara fez de Um Duende em Nova York uma espécie de clássico do besteirol, deslumbrou a todos com o visual arrojado de Zathura - Uma Aventura Espacial, e meio que tornou a Marvel o que ela é hoje, graças a moral conquistada pelo excelente Homem de Ferro de 2008. 


E mesmo depois de derrapar com o esquecível Cowboys & Aliens, Favreau teve a coragem (e sabedoria) de abandonar toda pirotecnia e efeitos especiais das grandes produções, para se reinventar com Chef, uma comédia gastronômica que agrada até mesmo os mais exigentes paladares.


Na história, acompanhamos a viagem rumo a redenção de Carl Casper, que outrora era considerado um grande chef de cozinha, mas que virou piada na internet depois de uma crítica negativa ao seu trabalho - praticamente uma ofensa gratuita, o depreciativo texto descarrilou com a vida do sujeito, ainda mais depois de ganhar proporções virais. 


Sem emprego e sem opções, ele resolve fazer "comida de caminhão", algo bem tradicional nos EUA. Viajando e cozinhando especiarias cubanas em seu trailer personalizado, de Miami até Los Angeles, ele aproveita para estreitar a relação com o filho Percy, que andava sentindo-se meio isolado depois do divórcio dos pais.



É fácil perceber então que, além de apresentar a culinária como tema principal, outros três elementos são explorados a fundo na história: a superação necessária para se fazer aquilo que gosta (neste caso boa comida), as dificuldades de uma moderna relação entre pai e filho, e todo o poder de propagação, idolatria e difamação das redes sociais.


Ao falar da paixão por comida, Favreau opta por um tom quase documental. Suas cenas especificamente demonstram, desde o processo de elaboração de pratos complicados, até o preparo de sandubas de queijo perfeitos. Ele usa uma linguagem tradicionalista, sem firulas ou edição pesada, apostando somente na beleza da arte retratada, e o resultado é de fato cativante. Se assistir com fome, será uma prazerosa tortura.

Já a relação de pai e filho é o que move todo o aspecto moral da obra. Os personagens são muito bem construídos, e isso ajuda no desenvolvimento do tema. Jon Favreau atuando empresta tanta personalidade ao honesto e carismático chef Carl Casper, que fica impossível não entender seus dilemas. O jovem ator Emjay Anthony é uma revelação como o pequeno Percy. Cheio de naturalidade, sem forçar a barra em momento algum, ele incorpora uma espécie de mini-buddha, totalmente antenado no universo online, mas carente de atenção como qualquer outra criança.


Por fim, temos uma inteligente abordagem das mídias sociais, como elas funcionam a favor quando bem usadas, ou contra quando tratadas com imprudência. Favreau traça uma análise relevante sobre a adaptabilidade de jovens a este assombroso novo mundo da informação, e a resistência dos mais velhos ao mesmo. Basicamente ele diz que: o que é ruim é ruim, mas o que é bom, pode se tornar inspirador.




O time de apoio conta com os atores John Leguizamo, Dustin Hoffman, Robert Downey Jr., Sofia Vergara e Scarlett Johansson - estas últimas duas estão mais bonitas do que de costume, se é que isso é possível. Todo o elenco trabalha bem, e faz isso sem se esforçar muito.


No final, Chef é uma grande surpresa. Tecnicamente, vemos uma coleção de cenas imensamente criativas, sempre muito bem fotografadas, ornamentadas por uma paleta de cores bem definida, e conduzidas por uma trilha sonora latina de altíssima qualidade. O roteiro consegue amarrar muito bem seus temas, misturando e investigando diferentes discussões, tendo tempo ainda de se tornar um road movie atípico. 


O ruim é que, quando o filme acaba, parece que ele apenas começou, e ver os créditos finais é estranhamente triste. Dá vontade de repetir o prato. Recomendado.

PS: Bati o recorde de analogias de comida e cinema. Elas eram obrigatórias.





Chef: 2014/ EUA / 114 min/ Direção: Jon Favreau/ Elenco: Jon Favreau, John Leguizamo, Bobby Cannavale, Emjay Anthony, Scarlett Johansson, Dustin Hoffman, Sofia Vergara, Oliver Platt, Robert Downey Jr.

Calvary - Crítica


#Calvário irlandês

Teoricamente, todo o conceito de sacerdócio da igreja católica, faz de seus padres símbolos de bondade, caridade e obediência divina. Infelizmente, a realidade é bem diferente. Dia após dia provas de inúmeros desvios de conduta daqueles que se dizem servos do senhor ganham os noticiários, sendo estes na maioria casos de pedofilia.


Na história de Calvary, conhecemos então o padre James, um sacristão verdadeiramente honesto, devemos ressaltar. Certo domingo, durante uma confissão, ele recebe um ultimato: vai morrer em sete dias (no próximo domingo para ser mais exato). Sua morte inocente pagará os pecados de outros padres culpados, algo justo para o suposto assassino, que quando foi vítima também era inocente.

Aproveitando então este polêmico pano de fundo, a obra tece uma relevante análise do comportamento moralmente decadente, depressivo e carente de significados de parte de nossa sociedade moderna. Um retrato mórbido de como o ser humano pode se perder pelo caminho de maneira irremediável, independente da esfera social ou clero que pertença, do abuso que tenha sofrido ou adversidade que tenha enfrentado.



Pois bem, diante da ameaça de morte, cada dia do padre James ganha mais valor. Conforme a semana passa, o mesmo continua fiel à suas habituais missões pessoais, e é assim que conhecemos os personagens do pequeno vilarejo irlandês em que a história acontece. Estas são pessoas amarguradas, sórdidas, solitárias, libertinas, arrogantes, perturbadas. Uma coleção de atributos forçosamente detestáveis e deprimentes, que exemplificam as vastas possibilidades da condição humana. E para o público, todos são prováveis suspeitos da tal ameaça de morte.


A direção e roteiro são de John Michael McDonagh, autor que tem no currículo o também atípico e transgressor O Guarda. Tecnicamente, Calvary se apoia na complexidade de seus personagens, todos cínicos e honestos na medida exata. A equipe de atores escalada para a produção é extraordinária, com destaque para Brendan Gleesson, interpretando o padre protagonista James. O experiente ator empresta sua forte personalidade para o irmão atribulado, passeando perfeitamente entre melancolia e uma espécie de humor dissonante, mas ainda sim funcional.

No final, Calvary não é uma obra especificamente de cunho religioso, nem sobre pedofilia ou perversidades irlandesas. Na verdade, este é um estudo visceral sobre a desilusão humana, uma concepção carregada de um fatalismo pragmático assustador. Existem alguns sinais de esperança no contexto, evidenciados pela tentativa de redenção da personagem Fiona, filha que James teve antes de optar pela batina. Mas no geral, a desconfortável mensagem que fica é algo como "bem-vindo a este inexorável círculo de confusão e dor... puxe uma cadeira". Recomendado.





Calvary: 2014/ Irlanda, Reino Unido / 100 min/ Direção: John Michael McDonagh/ Elenco: Brendan Gleeson, Chris O'Dowd, Kelly Reilly, Aidan Gillen, Dylan Moran, Isaach De Bankolé, M. Emmet Walsh, Domhnall Gleeson


O Melhor Pai do Mundo (World's Greatest Dad)


#Um dos melhores e menos conhecidos trabalhos de Robin Willians

O suicídio de Robin Willians exemplifica pelo menos duas verdades: nada é o que parece, e a depressão é um mal que deve ser levado a sério. Mesmo lutando contra seus demônios, Willians foi lembrado por seus amigos como alguém generoso e amável, além disso, era também um dos maiores atores de nossa geração. Nem tudo que fez foi sucesso, muitas escolhas erradas fazem parte de sua história, mas houve indiscutíveis momentos de pura genialidade, de autêntico brilhantismo, fortes o suficiente para transformá-lo em uma lenda.

Tempos atrás, anotei em minha lista de "filmes que devo assistir", o pouco conhecido O Melhor Pai do Mundo, trabalho elogiado pela crítica no ano de seu lançamento (2009), mas que não chamou atenção do grande público. Nele, Willians interpreta o professor de poesia e escritor injustiçado chamado Lance, que depois de encontrar seu filho morto em um vergonhoso acidente, resolve mentir sobre o acontecido, fazendo com que tudo pareça um suicídio. Para isso, além de mover o corpo, ele também escreve uma carta de despedida.




Logo a tal carta se transforma numa sensação em seu colégio (local de trabalho do pai e de aprendizado do rapaz). O profundo conteúdo da despedida suicida mexe com as emoções de todos, tocando e transformando psicologicamente alunos e professores. Depois de ser recusado por diversas editoras, Lance tem seu trabalho como escritor apreciado pela primeira vez. Sendo assim, ele mais que rapidamente (como um autêntico ghost writer) elabora um suposto diário do problemático filho, intitulado "Você não me Conhece", que também se torna um sucesso, ganhando repercussão nacional. 


Mas a grande ironia por trás de toda essa comoção é que o filho de Lance era um grandessíssimo cretino. Um deturpado sexual que já não se satisfazia com apenas pornografia comum. Ele curtia coisas bem bizarras. Além disso, tratava a todos como lixo, principalmente seu atencioso e amável pai. Quando você assistir este filme, vai desejar que o fedelho seja atropelado por um caminhão ou decapitado de alguma forma. 


Sendo assim, com estas informações sobre a mesa, o longa explora todos os valores e hipocrisias inerentes deste verdadeiro circo midiático, que transformou um moleque que sonhava em defecar nos outros em uma espécie de Che Guevara da sabedoria, com sua imagem estampando camisetas e broches.



Tecnicamente, O Melhor Pai do Mundo é estranhamente funcional. Esta é uma produção de baixíssimo orçamento, só que mesmo com suas limitações, tudo caminha de maneira cadenciada, agradável e despretensiosa, fazendo com que a questão "arrojo visual" se torne apenas um posto de vista. A trilha sonora, composta em sua maioria por canções indie melosas e grudentas, parece forçar a barra, mas como já disse, estranhamente funciona, ainda mais com uma grata canção surpresa no final. 


Mas a pedra fundamental do filme é de fato o excelente roteiro original do diretor Bobcat Goldthwait. O conceito da obra é tão bem elaborado, e os personagens são tão bem moldados, que os problemas de orçamento são relevados, a inexperiência do elenco de apoio é usada a favor, e até mesmo as fraquezas da direção não incomodam. Bobcat fez do humor negro algo emocionante, uma mistura de gêneros incomum, que tem tudo para dar errado, mas que neste caso ficou na medida certa.

E completando os pontos positivos, temos Robin Willians. Este não é aquele típico papel ensandecido do ator. Aqui nós rimos dele, e não com ele. O protagonista Lance é um homem retraído, melancólico, solitário. Mediocremente hilário, por mais cruel que essa descrição possa parecer. Sua tentativa incansável de ser um bom pai é comovente. E ele não desiste, mesmo com o mais cretino de todos os filhos do mundo. 


Willians entrega tudo que é necessário para a credibilidade do papel: a falta de pretensão, o entrosamento com o elenco, a percepção do despojamento da produção, a seriedade com o tema, o humor embargado. Ele se adapta ao personagem com sua facilidade peculiar. Entre tantos trabalhos memoráveis, este é com certeza um de seus melhores, e talvez o mais desconhecido. 

Não perca tempo e assista. Recomendado

PS - Lembra aquele maluco punk do filme Loucademia de Policia? Ele é o diretor.





O Melhor Pai do Mundo/ World's Greatest Dad: 2009/ EUA / 99 min/ Direção: Bobcat Goldthwait/ Elenco: Robin Willians, Daryl Sabara, Morgan Murphy, Naomi Glick, Dan Spencer, Alexie Gilmore, Bruce Hornsby, Krist Novoselic

Ursos (Bears)


#Ursos nos apresenta um verão em família diferente

O documentário Ursos, da Disneynature, acompanha todos os desafios, sacrifícios e também diversão de uma mãe urso com dois filhotes recém-nascidos. A proposta do filme é demonstrar como o primeiro ano de vida dos pequeninos peludos é o mais importante. A maioria não sobrevive a ele. 

Neste trajeto, cujo destino é uma enorme barriga cheia para o inverno, a mãe Sky e os filhotes Amber & Scout descem por montanhas congeladas, nadam por rios perigosos, curtem o prazer de pescar um suculento sushi de salmão, entre outras aventuras.

A fita foi dirigida pelos experientes Alastair Fothergill e Keth Scholey, nomes ligados a diversos trabalhos relacionadas ao tema, como a série Planeta Gelado da BBC, e os longas Terra e Reino dos Felinos.

A qualidade técnica da obra é destaque. É óbvio que nos dias de hoje deslumbre visual se tornou um critério obrigatório para esse tipo de produção, mas em Ursos as escolhas narrativas parecem ir além. Existe uma certa maestria poética na forma com que as imagens são trabalhadas, ou talvez a verdade é que natureza em 1080p não cansa os olhos nunca.


Sendo assim, câmeras especiais captam todo e qualquer ângulo que desejam, com riqueza de detalhes, de forma belíssima. A equipe de filmagem é enxuta e basicamente divide os ambientes com os animais. A proximidade impressiona, e a tensão fica evidente na tela.

Edição e trilha sonora são precisas, e montam um cenário quase lúdico para os animais. Parece até que os bichos estão cientes do que está acontecendo, e resolvem fazer graça para o público. A ótima narração do ator e comediante John C. Reilly provém humor na medida certa, algo bem família, mas sem soar piegas ou coisa assim.

Para quem aprecia documentários do gênero, Ursos é mais que recomendado.




Ursos/ Bears: 2014/ EUA / 78 min/ Direção: Alastair Fothergill, Keith Scholey/ Elenco: John C. Reilly