Whiplash: Em Busca da Perfeição (Whiplash)


#Todo o Horror da Perfeição

Assistir produções autorais como Whiplash é um imenso prazer, pois ver um instrumento musical como protagonista simbólico é algo sempre bem-vindo. A história nos apresenta a evolução de um baterista obstinado, que tenta transcender não só seu talento percussivo, mas também sua história, sua mortalidade. Esta ambição do personagem Andrew pelo sucesso é desmedida, algo que beira a loucura. Mas a intenção parece compreensível, afinal, ele possui a habilidade necessária para se consagrar um grande músico de jazz, e não importa o quão próximo do sol precise voar para conquistar isso.

E no caminho do suposto gênio das baquetas existe um mestre a procura do pupilo perfeito. Na verdade, para ser mais exato, estamos falando de um carrasco, capaz de ofender Andrew de tantas formas diferentes que qualquer um ficaria surpreso. O maestro Fletcher vê no abuso verbal e na humilhação uma ferramenta de crescimento eficaz. Ele desmerece a família de Andrew de maneira vulgar, até atira cadeiras na cabeça do baterista, para que o mesmo nunca perca o 
 quase inalcançável  tempo rítmico perfeito (a complexa composição Whiplash, que leva o nome do filme, é um de seus maiores desafios). 

Você arrasta ou você acelera?!, vocifera o maestro em certo momento. Fletcher simboliza mais do que uma ideologia extremista de ensino, ele é basicamente uma sentença de morte.



O filme foi dirigido e roteirizado por outro jovem genial. Damien Chazelle começou sua carreira quase agora, e promete um futuro instigante para este gênero em específico, de músicos perturbados e canções impossíveis. Seu texto investiga com realismo a sede insaciável de Andrew pela glória do reconhecimento, que torna o mundo ao seu redor pouco importante, e que corrompe, mas ao mesmo tempo edifica sua personalidade. 

As escolhas técnicas de Chazelle em Whiplash são de um senso avidamente apurado, uma cadência perfeita que equilibra a ótima interpretação dos atores com a exploração de ambientes internos sufocantes, onde acontecem performances musicais incríveis. A iluminação difusa é um dos pontos de maior destaque, e ajuda na construção de um clima de tensão quase claustrofóbico.


Visivelmente inspirada pela história, a equipe de produção presta atenção total aos detalhes. O trabalho de fotografia é impecável, assim como o de cenografia e edição. O departamento de som lida com o peso de sua responsabilidade com extrema facilidade, e o exímio compositor Justin Hurwitz é o nome por trás da maioria das composições originais do filme.


O ator do momento, Miles Teller, interpreta Andrew, e o experiente J.K. Simmons, Fletcher. Os personagens parecem opostos em quase todos os sentidos, menos em um: o desejo visceral de escrever o nome na história do jazz. O trabalho dos intérpretes é surpreendente. Teller pode ser considerado o menos expressivo dos dois, mas sua capacidade de fingir ser um baterista de jazz vai além da compreensão. Obviamente ele é muito versátil, encara dramas com responsabilidade e também possui um excelente timing para comédias, mas o fato é que neste filme ele simplesmente decolou na bateria. O cara nasceu para este papel. E pensar que Dane DeHaan era a primeira opção.




No entanto, é inegável que o Fletcher de J.K. Simmons é seu momento Charlie Parker. Não é a brutalidade do maestro o que mais chama atenção – quem conhece o trabalho de Simmons, sabe que ele consegue interpretar cretinos arrogantes de maneira primorosa. O que mais chama atenção é a capacidade do ator de transformar o personagem em um ser humano normal, através de situações cotidianas. São os momentos em que ele não está ofendendo ninguém (rindo com crianças, bebendo com amigos no bar) que fazem de Fletcher um sucesso, porque sua normalidade o torna quase inconcebível, e ao mesmo tempo extremamente real. Simmons humaniza Fletcher, e demonstra que, por trás da raiva explosiva existe sim um ideal, não apenas motivado por frustrações ou traumas passados. É algo maior. Essa profundidade faz dele um ser admirável, de maneira bem incomum.

Em resumo, Whiplash é fúria e gratidão, baixo calão e poesia. O filme apresenta duas pessoas com um ideal em comum, colidindo violentamente, e mesmo não compreendendo elas se moldam, e no momento certo, com um olhar apenas, se completam. Filme Obrigatório.

Curiosidade: Quando era mais novo, Miles Teller sobreviveu a um violento acidente de carro, no qual foi arremessado pela janela em uma das muitas capotagens do veículo, o que lhe deixou com diversas cicatrizes no rosto, e lhe rendeu seu primeiro trabalho como ator no filme Reencontrando a Felicidade, que precisava exatamente de um jovem com cicatrizes no rosto.





Whiplash: Em Busca da Perfeição/ Whiplash: EUA / 2014 / 107 min / Direção: Damien Chazelle / Elenco: Miles Teller, J.K. Simmons, Paul Reiser, Melissa Benoist

Obvious Child - Crítica


#Obvious Child joga nova luz sobre o tema aborto

Nenhum aborto é planejado. Assim como a gravidez inesperada, ele também é indesejado. Diante deste raciocínio, o filme Obvious Child respira fundo e se propõe a falar sobre o tema, de mente aberta, sem dogmas ou exageros de qualquer espécie, rindo e chorando com os dilemas que surgem pelo caminho. O resultado é uma comédia dramática sensacional.

Na história, somos primeiramente apresentados a jovem Donna Stern, comediante stand up sem papas na língua, que acabou de descobrir a traição do namorado enquanto o mesmo terminava o relacionamento com ela. Logo em seguida, conhecemos Max, sujeito gente boa, que toca guitarra, estuda bastante e é um perfeito cavalheiro. Uma espécie de caretão descolado. 


Por acaso, os dois se encontram no bar em que Donna se apresenta. Naquela noite ela usou a frustração do pé na bunda como combustível de seu show, o que foi extremamente pesado. Mesmo assim, eles acabam se dando muito bem (enquanto bebem bastante), e depois disso (devidamente bêbados), fazem sexo e ela engravida.



Obvious Child é um filme pró-aborto, pelo simples fato de tratar do assunto com extrema naturalidade. Todo o drama da experiência de Donna é analisado em detalhes, esmiuçado por debates e confissões comoventes e ao mesmo tempo hilárias.

O humor obviamente faz toda diferença. Além dele humanizar estes personagens de escolhas supostamente condenáveis, também ajuda a demonstrar que as circunstâncias por trás da gravidez não eram – nem de perto – as ideais, nos fazendo pensar até que ponto a situação configura uma justificativa aceitável ou não para o aborto.      



A diretora e roteirista estreante Gillian Robespierre consegue dar voz honesta a sua protagonista. Por ser comediante, Donna é naturalmente fora dos eixos. Ela parece sentir genuíno prazer em descrever situações escatológicas absurdas em seus shows, por exemplo. Tudo sobre ela respira autenticidade, e somos compelidos a nos afeiçoar por seu lado humano com facilidade. 


É preciso ressaltar que a personagem foi feita sobre medida para a atriz Jenny Slate, que aqui revela todo seu potencial. Robespierre e Slate já haviam colaborado juntas no curta homônimo que deu origem ao filme, e por isso ambas estão extremamente confortáveis em suas respectivas posições. Quem viu Slate na série Parks and Recreation, se surpreenderá com sua versatilidade. Este é um trabalho memorável da intérprete.


Enfim, percebemos que um tema é tido como politicamente incorreto quando esbarramos em certas dificuldades para escrever sobre. Obvious Child pode ser considerado politicamente incorreto, pelo simples fato de não estigmatizar o aborto, mas sim tratá-lo como uma realidade, e não como um parágrafo ou pensamento predeterminado. A história se permite dar risada de sua própria tristeza, e se fortalece com isso. É pouco provável que agrade a todos, mesmo assim, continua sendo ótimo. Recomendado.





Obvious Child: Eua / 2014/ 84 min/ Direção: Gillian Robespierre/ Elenco: Jenny Slate, Jake Lacy, Gaby Hoffman, Richard Kind, Polly Draper, Gabe Liedman

O Hobbit - A Batalha dos Cinco Exércitos (The Hobbit: The Battle of the Five Armies)



#Sobre a Ganância e a Semente

Certo criticismo envolve a franquia O Hobbit desde seu início. Alguns acusam ela de oportunista, por diluir o conteúdo de um livro em três filmes, outros taxam a escolha dos 48fps como um erro, e que o resultado é estranho e decepcionante. Outros ainda afirmam que o desenvolvimento de Thorin Escudo de Carvalho ficou de dar sono. 


Exageros à parte, é certo dizer que a história de O Hobbit, no cinema, não é tão cativante como, por exemplo, a de O Senhor dos Anéis. Esta é uma comparação que parece justa e injusta ao mesmo tempo. Mas é preciso lembrar que ambas as trilogias foram gravadas de forma semelhante, pela mesma equipe, nos mesmos sets, e mesmo assim uma é superior a outra, pelo menos em termos narrativos. 

Mas isso é fácil de entender, pois afinal, na sacrificante epopeia de Frodo e Sam, existem mais personagens, com diferentes objetivos, divididos em mais núcleos, o que consequentemente gera mais plot twists e mais fluidez para a trama. Já todo pensamento de O Hobbit aponta para a mesma direção, e isso em tela, promove um desenvolvimento moroso do roteiro, que exige um pouco mais de imersão voluntária do público, por assim dizer.



E se fosse apenas um filme, ou dois, isso aconteceria? Talvez não. Afirmar com toda certeza do mundo que, se O Hobbit fosse apenas um filme, sua recepção seria melhor, que não enfrentaria críticas e que o resultado seria superior, é apenas presunção. No entanto, mesmo que as motivações por trás dos três filmes fossem financeiras – pois nada acontece apenas por causa dos belos olhos da Tauriel –, erguer uma produção como essa não é nada fácil, ainda mais rodeado por inúmeros problemas judiciais envolvendo a "marca" Tolkien. Devemos lembrar que há uns cinco anos atrás, a realização de O Hobbit era praticamente um sonho utópico, que meio que renasceu como trilogia.   

Ainda assim, com problemas narrativos e acusações diversas, a mensagem do roteiro, ironicamente de repúdio a ganância e toda a ignorância que ela proporciona, é tão emblemática em O Hobbit que se torna mais abrasiva do que em O Senhor dos Anéis, este que por sua vez dá mais ênfase a seus personagens. A loucura de Thorin pode ser considerada uma analogia perfeita do maior e mais corrosivo mal de nossa história como sociedade: a corrupção desmedida pelo poder.



E recompensando a atenção dos fãs, o alquimista Peter Jackson novamente transforma sua Nova Zelândia na Terra Média de Tolkien, como em um passe de mágica. É um prazer incomensurável acompanhar o deslumbre visual proporcionado pelo diretor em A Batalha dos Cinco Exércitos. Os 48fps demonstram o quão perfeito é todo o trabalho de cenografia e figurinos. Tudo é feito com uma riqueza de detalhes reveladora, uma opção corajosa, que ao expor demais, exige atenção redobrada.


Os efeitos especiais incríveis misturam realidade e magia, igualam dragão e executor como se os dois fossem feitos da mesma matéria, montam ambientes colossais, dão vida a criaturas assustadoras. De olhos arregalados vemos humanos fugirem do fogo da morte, magos lutando contra os espíritos dos homens, orcs enfrentando anões e elfos em massivas batalhas, talhadas com esmero. O final de A Batalha dos Cinco Exércitos emociona bastante, não pela trilha sonora impecável de Howard Shore, nem pela atuação auspiciosa de Martin Freeman e todo elenco, mas sim pela mensagem, pelo justo preço da ganância, pela semente que será plantada e trará lembranças, pela amizade de Bilbo e Thorin. Recomendado.



O Hobbit - A Batalha dos Cinco Exércitos/ The Hobbit: The Battle of the Five Armies: Eua, Nova Zelândia/ 2014/ 144 min/ Direção: Peter Jackson/ Elenco: Ian McKellen, Martin Freeman, Richard Armitage, Ken Stott, Graham McTavish, William Kircher, James Nesbitt, Stephen Hunter, Dean O'Gorman, Aidan Turner, John Callen, Peter Hambleton, Jed Brophy, Mark Hadlow, Adam Brown, Orlando Bloom, Evangeline Lilly, Lee Pace, Cate Blanchett, Benedict Cumberbatch, Mikael Persbrandt, Sylvester McCoy, Luke Evans

Hackers Venceram a Sony e a Liberdade de Expressão

#Este é o dia em que hackers mesquinhos derrotaram a Sony

(18.12.2014) Quem esteve fora do planeta nas últimas semanas provavelmente não sabe que a gigante Sony Pictures, divisão da megacorporação responsável por filmes e séries, foi hackeada pelo grupo autodenominado Guardians of Peace (Guardiões da Paz). O ataque foi severo, aparentemente 100 terabytes de informação foram roubados. Isso é inacreditavelmente muita coisa.

Basicamente tudo foi levado: dados completos de funcionários e ex-funcionários, roteiros, projetos para TV, e-mails de altos executivos e produtores ofendendo celebridades como Adam Sandler, Angelina Jolie e Leonardo DiCaprio, até mesmo longas inteiros que aguardam lançamento. A situação não poderia ser pior para a Sony. E o motivo disso tudo só pode ser descrito como estupidamente estúpido: a agenda dos tais Guardiões da Paz era impedir o lançamento do filme A Entrevista, da dupla dinâmica Seth Rogen e James Franco.

 
Bem, A Entrevista conta a história do apresentador de televisão americano (fútil e idiota) David Skylark (Franco) e seu produtor Aaron Rappaport (Rogen), que passa por uma espécie de crise de consciência, diante do lixo televisivo que produz, o que lhe desperta uma gana por matérias mais relevantes. Eles conseguem então uma entrevista histórica com Kim Jong-un, líder supremo da Coreia do Norte, que por acaso é super fã do programa de Skylark. Sabendo dessa possibilidade rara de aproximação, a CIA pede gentilmente para os americanos assassinarem o ditador, assim que possível. 

Alguns críticos assistiram A Entrevista, e foi unânime que o filme é mediano. Um típico trabalho de Rogen, com dois amigos malucos tentando escapar de situações perigosas, enquanto fumam maconha e cultivam uma relação homoerótica fortíssima. Só de ver o trailer, fica bem claro que os americanos são o verdadeiro alvo das críticas, enquanto Kim Jong-un é simplesmente uma caricatura simbólica. Ou seja, um filme meia boca, que agora o planeta inteiro quer ver.

 
Os Estados Unidos acreditam ter provas que a Coreia do Norte está por trás do hack da Sony. A Coreia por sua vez declarou, em diferentes ocasiões que, "se recusa a negar o fato, mas que o mesmo foi algo justo". Parece que não existe muito o que possa ser feito, diplomaticamente falando. A bomba de efeito moral seria a Sony se render ao sabor da vingança, e lançar o bendito filme para todo mundo ver. Mas nem isso vai acontecer, pelo menos até agora. Algumas ameaças e referências ao 11 de setembro, divulgadas pelo grupo hacker, fizeram cadeias de cinema abandonarem a missão de trabalhar com a fita. Uma após a outra, todas desistiram. A Sony resolveu então cancelar A Entrevista, nos cinemas e também suas vendas em DVD. Não haverá lançamento nenhum, Seth Rogen e James Franco cancelaram entrevistas de divulgação e não falam mais do póstumo trabalho. 

Nem é preciso dizer que a internet reagiu de maneira explosiva a decisão da Sony. O pensamento geral é: caramba, hackers terroristas venceram, eles dominaram Hollywood, é o fim da liberdade de expressão (veja aqui). Realmente, é muito triste saber que um grupo terrorista hacker pode cancelar o lançamento de um filme. Talvez alguns não sintam a pressão dessa ação de maneira enfática, por que afinal, como disse, esta é uma produção meia boca, de dois comediantes que provavelmente estão rindo disso em casa enquanto fumam maconha e se congratulam por terem entrado para história do cinema (e realmente entraram). No entanto, e se amanhã alguém quiser falar sério sobre o assunto, sobre a Coreia do Norte e seu regime ditatorial insano? Não vai rolar? Hollywood vai se curvar com o rabo entre as patas?

 
Talvez a decisão da Sony de não lançar o filme seja mais financeira do que qualquer outra coisa. Eles já perderam muito dinheiro com o escândalo, e os prospectos devem ser piores ainda, então, mesmo com o prejuízo da produção, o quanto antes pararem de falar nela melhor. Mas aconteceu exatamente o contrário, tudo mundo só fala disso, todo mundo quer ver A Entrevista, e provavelmente vai conseguir, de uma forma ou de outra. 

A atitude da Sony, de cancelar o lançamento do filme, simbolicamente monta uma imagem de Hollywood se acovardando, e isso é realmente negativo para aquele conceito de liberdade de expressão (mesmo que Hollywood meio que seja um antônimo disso em alguns casos). Sendo assim, a cruzada juvenil dos hackers foi bem sucedida, A Entrevista sumiu, eles venceram. Mas toda a repercussão  do ataque, desse "ato de guerra", fez de A Entrevista uma espécie de clássico cult. Se Kim Jong-un foi responsável por esta presepada toda, ele saiu mais queimado do que nunca, por mais impossível que isso pareça. 

PS: Faça-me o favor Sony, libere A Entrevista na net.


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Tusk - Crítica


#Meu Melhor Amigo Morsa

Quando os créditos finais de Tusk subiram, eu não sabia muito bem como reagir. Não sabia o que pensar daquela insanidade toda. O filme foi dirigido e roteirizado pelo rei dos nerds Kevin Smith, e se trata de uma bagunça generalizada, que mistura horror, drama e comédia. É um clássico trash instantâneo, extremamente estranho que, mesmo com seus muitos defeitos, não será esquecido pela audiência jamais!

A história de Tusk narra a transformação animal do jovem Wallace Bryton (Justin Long). Ele é a metade de uma dupla de cretinos que ganha a vida com podcasts na internet. A base do humor dos caras é a trollação pesada, que até parece engraçada em certo momento, mas que no fundo todo mundo sabe que não é. Munido de uma falta de escrúpulos incrível, Wallace viaja ao Canadá para entrevistar um garoto que decepou a própria perna enquanto fazia um desses vídeos sem noção para o youtube. Mas ao chegar lá, as coisas começam a degringolar.



No intuito de fazer sua viagem valer, Wallace queria outra matéria sensacionalista. Depois de ler uma carta colada na parede do banheiro de um bar local, ele topa conhecer um velho, que prometia tremendas histórias sobre a vida, sobre o mar e por aí vai. Obviamente, o velho em questão era um maníaco, que depois de dopar o podcaster, inicia a mais bizarra tortura – pelo menos de que me recordo ter visto – em toda história do cinema. Jigsaw parece criança perto da falta de sentido e crueldade deste sênior algoz, autodenominado Howard Howe. É o estranho ator Michael Parks que empresta seu par de olhos assustadores para o refinado maluco.


Paralelo a isso, o roteiro monta uma trama de traição envolvendo a namorada de Wallace e seu amigo cretino. A bela Genesis Rodriguez interpreta Ally, enquanto Haley Joel Osment (vulgo, moleque do Sexto Sentido) interpreta Teddy Craft. Smith algumas vezes usa um tom mais sério para falar das tristezas da moçoila, que também era traída pelo namorado. Essa opção parece forçada, mas não chega a ser um problema, faz parte da bagunça. Seguindo na história, o casal de traíras, preocupados com o sumiço de Wallace, recebe a ajuda do hilário investigador francês Guy Lapointe, interpretado por Johnny Depp. Juntos eles vão a caça do velho sádico do mar e seu novo melhor amigo de dentes longos, Wallace.



O plote desses personagens paralelos rende alguns bons momentos. Eles possuem uma parcela considerável daqueles típicos diálogos de Smith, extensos e malucos. No entanto, o diretor não acerta na mosca com a conversa deles, e no fim, parece mais que o filme estava enrolando do querendo chegar em algum lugar. Obviamente o trio é indispensável para o desfecho, mas teve uma hora que o papo cansou. 

No entanto, talvez o fator que mais chame atenção da audiência seja a crueldade. Veja bem, toda a tortura de Tusk é completamente caricata, uma palhaçada, pra ser sincero. Mas a violência do contexto é muito forte. Smith fez de Wallace um cretino para demonstrar que a crueldade redimi qualquer um. É impossível não sentir pena do protagonista. A interpretação de Justin Long tem seus méritos, mas a ideia em torno de seu sofrimento é realmente perturbadora. Mesmo sendo tudo improvável, a simples concepção desta "transmutação operada" causa desconforto. É a bagunça de que falei, uma mistura de dó, repulsa e falta de noção. Recomendado, eu acho.

Tusk: 2014/ EUA / 102 min/ Direção: Kevin Smith/ Elenco: Justin Long, Michael Parks, Genesis Rodriguez, Haley Joel Osment, Johnny Depp, Harley Morenstein

Predestination - Crítica


#Sem Começo, Meio e Fim

Se a vida é um círculo, se nós realmente nos tornamos nossos pais, quem veio primeiro afinal, o pai ou o filho? A indagação pode parecer profunda, no entanto, os diretores e roteiristas irmãos, Michael e Peter Spierig, provavelmente desenvolveram Predestination a partir de outra pergunta não tão enigmática, que seria: "Qual é o roteiro mais bizarro que podemos criar dentro do tema "viagem no tempo'"?

Bem, Predestination é muito mais do que apenas um thriller bizarro. O filme é um sci-fi investigativo empolgante, cuja história que serve de alicerce fala de um incansável agente temporal, que persegue até sua última missão o terrorista conhecido apenas como Fizzle Bomber. As vésperas de sua aposentadoria, ele precisa também preparar um novato para o serviço, e de quebra, apagar seu rastro pelo tempo. Acredite, existe muita coisa por trás desta trama, e fica complicado tentar explicá-la sem revelar algum spoiler. Até mesmo os mínimos detalhes, que não são tão mínimos assim, fazem toda a diferença.




Como disse, a obra se utiliza de uma ideia central bastante bizarra, que é, acima de tudo, extremamente criativa. Como todo filme que fala de viagem no tempo, é provável que em certos momentos sua mente crie uma tentativa de racionalizar alguma inconsistência, que por sua vez pode ser refutada por determinado argumento do roteiro, que só depois você se lembra que foi citado, ou não... e por aí vai. O importante é que a tal ideia central é bastante original, uma espécie de maldição meticulosamente orquestrada, não pelo destino, mas pela falta dele.

Porém, o que pode causar maior estranheza na audiência é o fato de algumas regras morais e sociais fundamentais (sem dizer biológicas) serem quebradas pelos personagens com uma facilidade que vai muito além da razão. Em certa situação em particular (um encontro), acontecem coisas tão improváveis que, por serem improváveis, merecem o benefício da dúvida. O que quero dizer é que, pelo simples fato de saber que uma situação nunca vai acontecer, como diabos é possível dizer que determinado comportamento nunca iria ocorrer com alguém nessa situação... que nunca vai acontecer. Entendeu?




Tecnicamente o filme funciona muito bem. Tem ótimas ideias visuais e elabora algumas soluções inteligentes para driblar o orçamento enxuto. Certo descompasso surge vez ou outra, pois afinal, os diretores irmãos são basicamente iniciantes. Antes desse, eles dirigiram outra ficção competente sobre vampiros, chamada Daybreakers, primeira colaboração deles com Ethan Hawke, que é o nome que de fato promove Predestination. Além do bom trabalho do ator como o angustiado agente temporal, temos também uma grande surpresa no elenco, a jovem atriz Sarah Snook, que dá vida a personagem que pode ser chamada de "Mãe Solteira", embora seu nome seja Jane. 


Snook se revela uma profissional completa, versátil e focada na realização de seu trabalho. Sua Mãe Solteira é de longe a mais complexa e desafiadora da fita, diria até que é mais importante que o agente de Ethan Hawke, mas o certo é dizer que ambos possuem o mesmo valor dentro da trama. Recomendado.








Predestination: 2014/ Austrália / 97 min/ Direção: The Spierig Brothers/ Elenco: Ethan Hawke, Sarah Snook, Noah Taylor, Freya Stafford, Elise Jansen

The Babadook - Crítica


#O passado não pode ser esquecido

The Babadook é um suspense dramático que se arrasta por debaixo da pele da audiência. A produção australiana conta a história de Amelia e Samuel, mãe e filho que se veem perseguidos por uma presença sinistra, autodenominada Babadook. Vivendo como reclusos, os dois enfrentam seus maiores medos juntos, muitas vezes como aliados, outras como inimigos.


O filme é feito com esmero, e a diretora e roteirista Jennifer Kent consegue oferecer uma diferenciada experiência para o gênero. Na maior parte do tempo, a tensão criada pela trama é incômoda, pois a relação da mãe e do filho é tão desgastante que chega a ser perturbadora, e este é o reflexo perfeito do estado psicológico de ambos. No entanto, existe por trás dessas atitudes desesperadas, uma dramática história envolvendo o pai da família. Este evento trágico que moldou a personalidade dos dois, e que por ironia do destino possui data de celebração, é o catalisador do surgimento do temível Babadook.




E diante da centralização dos personagens, o filme nada seria sem o trabalho inspirado dos atores. O jovem talento Noah Wiseman, que interpreta o filho Samuel, é de uma espontaneidade incrível, e sua habilidade com cenas intensas é surpreendente. Já a experiente atriz Essie Davis encarna o literal sentido da palavra depressão. Sua Amelia aparece exausta e apática desde a primeira cena. Ela se arrasta pelo dia tentando, de maneira autêntica, manter-se sã, mas falha miseravelmente. Davis consegue nos fazer sentir pena de Amelia, mesmo quando a personagem empunha sua faca contra o filho. Um trabalho visceral.

Por fim, The Babadook é uma proposta de suspense completamente diferente, e por isso talvez não agrade o público mais acostumado com filmes populares do gênero. O mais interessante desta história é todo o clima lúdico criado em torno da caricata entidade do mal conjurada, que no final é apenas uma inteligente representação da fraqueza humana, que se bifurca por muitos caminhos, como o medo e a depressão. Após o bizarro e excelente desfecho, a mensagem que fica é: o passado não pode ser esquecido, acontecimentos traumáticos sempre farão parte de você. Porém, eles não precisam dominar sua vida. É possível conviver com o passado sem ser afetado por ele. Recomendado.








The Babadook: 2014/ EUA / 93 min/ Direção: Jennifer Kent/ Elenco: Essie Davis, Noah Wiseman, Daniel Hensall, Tiffany Lyndall-Knight, Cathy Adamek