Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)


O Show Deve Continuar

Birdman parece feito em um take só. Obviamente não é, mas o simples fato de parecer feito em um take só já é um desafio incalculável, orquestrado pelo exímio diretor Alejandro González Iñárritu. Não importa o quão improvável seja o trajeto e ação dos personagens, as lentes de Emmanuel Lubezki se esgueiram por corredores apertados ou mesmo flutuam de maneira inconcebível para captar todos os momentos, e o show sempre continua. Ironicamente, Alfonso Cuarón fez o mesmo com seu clássico sci-fi, Gravidade. Parece até que os amigos combinaram uma aposta: "Quem consegue mais prêmios com um filme de um take só?". Iñárritu ganhou com facilidade.

Poucas são as vezes que temos o privilégio de acompanhar algo tão bem executado como Birdman. O filme não é só arrasadoramente perfeito no quesito técnico, mas também possui um roteiro igualmente hipnotizante. O enredo é uma ode destrutiva ao sonho americano do estrelato e da fama. Toda a crueldade do ofício – que com a mesma facilidade que concede suas graças, também as tira – é explorada através de uma simbólica adaptação teatral da peça What We Talk About When We Talk About Love, do autor Raymond Carver. Nela, o protagonista, cansando de implorar pelo amor dos outros, decide se matar. Ele já não mais existia para ninguém, então porque continuar sem aplausos?




Quem realiza a peça é  Riggan Thomson, um desacreditado ator que no passado arrecadou milhões com o blockbuster Birdman, filme de herói em que interpreta um homem-pássaro. Para ele, o personagem se tornou uma assombração, uma voz em sua mente, que constata apenas a verdade. Pressionado em todos os aspectos possíveis por esta ousada nova ideia (de uma celebridade hollywoodiana se aventurar no sagrado solo do teatro), Riggan dramaticamente se vê a beira de um abismo existencial. E agravando seu senso de responsabilidade, ele não consegue se relacionar com a filha Sam, que representa uma geração que nem mesmo se importa em se importar com a existência do homem-pássaro, muito menos quem o interpretava. O sujeito está quebrado, cansado e com medo. Está preso em uma espécie de pesadelo particular, onde coisas muito estranhas começam a acontecer, como sua raiva se tornar telecinética.


Diante disso, percebemos que o mais impressionante aspecto de Birdman é a monumental participação de Michael Keaton como o protagonista Riggan. Keaton, que se consagrou Batman a mais de 25 anos atrás, é o exemplo personificado de como um bom intérprete pode desaparecer na sombra de um personagem. Hoje este ciclo ironicamente está fechado. Respeitados astros, como Michael Fassbender por exemplo, convivem muito bem com suas personas heroicas. É algo que não mais afeta credibilidade ou mesmo carreiras. Hollywood se converteu, e é fácil entender o porquê. Mas para Keaton tudo foi bem diferente, e é por isso mesmo que em Birdman ele aposta sua própria história. É algo pessoal, que vai além do sonho do estrelato e da fama de que falei. É basicamente um desabafo. Ele arriscou tudo.



O sentimento de impotência que todos os personagens dividem, diante desse massacrante mercado de aparências, é totalmente honesto por que é algo próximo deles, na posição de atores interpretando atores. Todo o elenco oferece um trabalho impecável. Cada um deles possui pelo menos uma cena memorável no roteiro. A jovem e prolífera Emma Stone é destaque como a filha Sam, que dispara em certo momento um discurso brutalmente realista sobre a solidão e o medo que se abate sobre nossa sociedade moderna. Edward Norton também entrega um dos melhores trabalhos de sua carreira, como o mítico e inigualável ator dos palcos, Mike Shiner. É quase impossível decidir se você torce ou simplesmente despreza o cara. Neste mesmo nível de qualidade, vemos participações edificantes de nomes como Naomi Watts, Zach GalifianakisAmy RyanAndrea Riseborough.


E lapidando a fita com precisão, temos o mexicano Iñárritu, aproveitando a liberdade como autor para transcender sua própria arte. A genialidade do roteiro é incomparável, assim como a atenção aos detalhes. Vemos pura inspiração, desde os créditos iniciais até a belíssima fotografia de Lubezki, da construção de uma enorme e ininterrupta cena, até a trilha sonora perseguidora do jazzista Antonio Sanchez que mais parece uma linha de bateria improvisada (J.K. Simmons ficaria orgulhoso, ou não).  



A sequência da Times Square, por exemplo, sintetiza muito bem o que foi gravar Birdman. Foram apenas quatro tomadas para cena toda. Não poderiam ocorrer atrasos, senão a luz estaria comprometida. Apenas quatro pessoas acompanharam Keaton na cena, Iñárritu foi uma delas, e durante a caminhada, ele fez um take separado com seu celular, que acabou sendo usado posteriormente no filme. Fora os poucos assistentes na multidão, todo o resto era é a Times Square a pleno vapor, pois ela não para.


Enfim, muito se falou sobre Boyhood merecer o Oscar de melhor filme, muito se falou sobre Birdman merecer também. Analisando imparcialmente, os dois filmes são opostos extremos. Um deles levou 12 anos para ser realizado, o outro foi simbolicamente conjurado em duas horas, "em tempo real". O elenco de um é formado em grande parte por não atores, o outro é um casting estrelar. A história de um é simples como vida, do outro, é complexa como a vida. No entanto, apesar de completamente diferentes, as duas obras são igualmente incríveis e importantes para o cinema, e escolher entre elas é simplesmente injusto, quase sem sentido na verdade. Por isso, Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) é mais que recomendado, é obrigatório!






Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)/ Birdman: Or (The Unexpected Virtue of Ignorance): EUA/ 2014 / 119 min/ Direção: ALejandro González Iñárritu/ Elenco: MIchael Keaton, Emma Stone, Zach Galifianakis, Edward Norton, Naomi Watts, Andrea Riseborough

O Abutre (Nightcrawler)


Um retrato grotesco da força de vontade humana

Louis Bloom é um homem de visão, um empreendedor obstinado que almeja, acima de tudo, fazer sucesso com um trabalho que ame de verdade. Seus valores e preceitos profissionais foram todos adquiridos através da internet, e quando o mesmo repete mecanicamente alguns destes ensinamentos, percebemos que algo está extremamente errado. Sua intensidade é psicótica. No entanto, ele possui a ferramenta necessária para vencer neste mundo cão: força de vontade.

O filme O Abutre é um retrato assustador da capacidade humana de subverter valores, de transformar fatalidades em um espetáculo amoral. Louis Bloom é simplesmente mais um agente do caos que joga combustível nesta fogueira. Sua "almejada vocação" é o telejornalismo verdade, aquele que se resume em apontar a câmera para acidentes, resgates, crimes, pessoas mortas ou agonizando. Se sangrar, alguém vai pagar pra ver, a demanda é de fato impressionante. Sendo assim, a mais importante missão da profissão é conseguir chegar no local da tragédia rapidamente, até mesmo antes da polícia. Isso permite uma captura de imagens mais bem trabalhada, com detalhes e enquadramentos que se fixam nas cabeças dos telespectadores. Um ajuste aqui, um ângulo aberto ali, e a cena de uma colisão fatal se torna uma pepita de ouro.



Este é o primeiro filme de Dan Gilroy como diretor e roteirista – até então ele havia apenas roteirizado algumas obras esquecíveis, como Gigantes de Aço e O Legado Bourne. O resultado foi tecnicamente impecável. Gilroy acerta em todas suas escolhas, começando pela incrível trilha sonora que estabelece o ritmo das cenas, hora carregadas de urgência, hora mórbidas e desumanas. Já seu texto disserta com perfeição sobre o mercado de horrores que é o telejornalismo americano, em que emissoras vendem o medo para um público friamente selecionado (brancos, que vivem em bairros ricos). E por fim, temos a escalação de Jake Gyllenhaal como Louis Bloom, um marco na carreira do ator.

Gyllenhaal tem uma cota considerável de personagens lunáticos em seu currículo, mas Louis Bloom é o maior de todos, e provavelmente o mais articulado. O ator emagreceu mais de 10 quilos para o papel, o que lhe rendeu um aspecto doente, como de um viciado em crack (principalmente com seus olhos arregalados). Toda a construção da personalidade de Bloom é impressionante. Ao mesmo tempo em que ele parece totalmente no controle da situação, parece também a ponto de explodir. Suas técnicas de trabalho não são as melhores, seus discursos institucionais soam como pura loucura, mas sua dedicação inabalável, no propósito de se tornar um autêntico carniceiro da humanidade, o faz progredir nos negócios.



O excelente roteiro de Gilroy se preocupa em montar passo a passo este desenvolvimento de Bloom como cinegrafista. O personagem bate a cabeça até aprender que quanto menos ele é notado no local das filmagens, melhor. Pouco tempo depois (pois ele aprende muito rápido), sua verve artística ganha contornos míticos, e sua frieza diante de cenários brutais o torna uma espécie de mestre do horror. Com experiência, ele percebe todas as possibilidades do trabalho, começa enxergar frestas no sistema, e criar oportunidades maiores e mais rentáveis em cima disso.

Em resumo, O Abutre demonstra de maneira incisiva o que uma pessoa obstinada é capaz de conquistar, mesmo que as inclinações morais envolvidas sejam perversas. A única inconsistência desta é história é que Louis Bloom já deveria ter dado certo antes. Como disse, o cara é pura força de vontade. Recomendado.





O Abutre/ Nightcrawler: EUA/ 2014 / 117 min / Direção: Dan Gilroy/ Elenco: Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Bill Paxton, Kevin Rahm, Riz Ahmed 

Operação Big Hero (Big Hero 6)


Com Operação Big Hero, a Disney consegue ser maior e melhor

Operação Big Hero é o resultado da união dos poderes de diversas pessoas espetaculares, e não estou falando dos personagens do filme, mas sim do time Disney por trás da animação. Big Hero 6 (nome da obra lá fora) foi originalmente uma HQ da Marvel, que não encontrou público certo quando lançada em 1998. Depois do Mickey comprar a Marvel, todo o universo do quadrinho - de pesada influência oriental e de tom muito mais sério  - foi completamente remodelado, para enquadrar-se a personalidade dos trabalhos da casa.   

A história de Operação Big Hero se passa em San Fransokyo, uma espécie de universo paralelo que mistura São Francisco e Tóquio. No lugar, parece que não existem etnias definidas, todos são o resultado de uma mistura universal de raças. A tecnologia avançada desta realidade possibilita a construção de aparatos futurísticos e robôs inteligentes que vão além de nossa imaginação. São designs criados para o bem, mas que se caírem em mãos erradas, podem se tornar armas poderosas.



E diante do surgimento de um super-vilão na cidade, um grupo de amigos cientistas se vê na obrigação de fazer alguma coisa. A equipe de seis heróis é liderada pelo garoto Hiro, que tem como seu braço direito o robô – que mais parece um marshmallow gigante  Baymax, uma herança de seu irmão Tadashi. Juntos, os novos defensores do bem vão combater o inimigo em comum. No entanto, o caminho para se tornarem realmente dignos de seus poderes e responsabilidades, precisa ser percorrido com sabedoria.

Bem, para ser honesto, essa pequena sinopse nem mesmo arranha a superfície do que é a Operação Big Hero. O trabalho de criação por trás do filme é sensacional. O roteiro, de maneira cativante, fala do poder de novas amizades na vida de uma pessoa, reflete sobre a depressão do luto, sobre a irracionalidade da vingança, e demonstra que todo amadurecimento leva a redenção. Os personagens foram moldados com tanta atenção, que para descrever apenas um deles, este texto ficaria longo demais, é melhor conhecê-los pessoalmente. 


Cada cena e cada diálogo ajuda a construir um novo aspecto dos heróis. Devido as possibilidades infinitas de desenvolvimento de cenas, a valorização dos argumentos e situações é feita sempre de maneira retumbante, com a trilha sonora épica de Henry Jackman estabelecendo o ritmo, e a criatividade por trás dos efeitos especiais trabalhando a mil por hora.


O universo criado para Operação Big Hero é provavelmente um dos mais bem talhados pela computação gráfica. São dúzias de cenários extraordinários, que apresentados em outro contexto, seriam impossíveis de serem identificados como não reais. Este nível de perfeição técnica é algo que surpreende, uma realização que eleva os parâmetros e expectativas de audiências futuras. 

E analisando bem a equipe por trás do filme, podemos perceber as razões de tudo ter dado muito certo. A produção conta com dois diretores, Don Hall e Chris Williams, e três roteiristas, Jordan Roberts, Daniel Gerson e Robert L. Baird. Entre os filmes dirigidos e roteirizados por esses caras, estão obras como: Tarzan, A Nova Onda do Imperador, A Família do Futuro, A Princesa e o Sapo, O Ursinho Pooh, Mulan, Bolt: Supercão, A Marcha dos Pinguins, Monstros S.A., Universidade Monstros, Enrolados para Sempre e Carros. 


Agora, o grupo Big Hero 6 foi repaginado dos gibis para telona pela a dupla inseparável Duncan Rouleau e Steven T. Seagle, mentes criativas por trás de séries animadas como: Os Vingadores Unidos, Ultimate Homem-Aranha e, principalmente, tudo que existe de Ben 10. Nos créditos eles assinam a participação como Man of Action

Costumo pensar que, em termos de criação, menos é mais, por isso é uma surpresa ver que tantas cabeças conseguiram se entender e se complementar de maneira tão correta. Não ousaria dizer que Operação Big Hero é a melhor animação da Disney, mas chega muito perto disso. O filme pega emprestado diversos elementos explorados por outras animações famosas, como a tristeza da morte (Up), a afeição do robô amigo (WALL-E), o humor dos heróis atrapalhados (Os Incríveis), o voo do navegador (Como Treinar seu Dragão), e potencializa estas ideias ao máximo, se tornando maior e melhor. 

Mesmo com um complexo processo de criação por trás de tudo, no espírito da obra reside a honestidade e simplicidade que toda criança do mundo quer ver em um filme... e adultos também. Recomendado.





Operação Big Hero/ Big Hero 6: EUA/ 2014 / 102 min / Direção: Don Hall, Chris Williams/ Elenco: Scott Adsit, Ryan Potter, Daniel Henney, T.J. Miller, Jamie Chung, Damon Wayans Jr., Genesis Rodriguez, James Cromwell, Alan Tudyk, Maya Rudolph 

De Volta ao Jogo (John Wick)


Velhos Hábitos Nunca Morrem

Como muitos já devem ter percebido, existe uma nova tendência em Hollywood. Atores conhecidos do grande público, que já chegaram nos 50 anos (em alguns casos até nos 60), tentam se manter produtivos no mercado com fitas de ação de orçamento enxuto e farta divisão de lucros. Liam Neeson, por exemplo, é o grande propulsor deste formato, e recentemente lançou a última parte de sua trilogia Busca Implacável, franquia que virou uma espécie de lenda dentro do cenário, para o bem ou para o mal. 

Bem, dados os parâmetros, fica meio claro que De Volta ao Jogo pega carona neste rentável expresso da meia idade. O filme traz Keanu Reeves interpretando o protagonista John Wick, e a oportuna diferença da produção é que Reeves já é consagrado por seus filmes de ação, e não aparenta tanto os 50 anos que têm.

A história é muito simples, e não oferece muitas surpresas, mas o conceito de honra que serve de base para o texto é bem maneiro. É o seguinte: John Wick é uma espécie de assassino lendário da máfia. Na verdade, ele era o assassino dos assassinos lendários. Literalmente o bicho papão. No entanto, depois de encontrar o amor verdadeiro, o cara resolveu se aposentar e aproveitar a vida. Mas como apenas os bons morrem cedo, sua mulher logo ficou doente, e Wick permaneceu ao lado dela até os últimos momentos. A esposa, consciente de seu destino, havia encomendado um pequeno cãozinho para servir de companhia ao marido. Seu último presente.



O problema começa quando o filho do chefe da máfia russa resolve roubar o extremamente sensacional carro de John Wick, um Mustang Boss 249, 1969. Para isso, o fedelho invade a residência de Wick acompanhado de capangas, que espancam o enfraquecido viúvo, matam o cachorro e roubam o carro. Agora, para alguém que acabou de acompanhar a esposa se apagando lentamente, e que tinha no cachorro um símbolo de redenção, qual seria a coisa mais digna a se fazer? Matar todos envolvidos, obviamente, e depois encarar uma tempestade de consequências. Está é a resposta certa.

De Volta ao Jogo foi o primeiro filme dirigido por Chad Stahelski, que possui vasta experiência como coreografo de artes marciais e coordenador de equipes de dublês. Suas escolhas técnicas funcionam muito bem, o que não deixa de ser uma surpresa. Com uma visão apurada, Stahelski valoriza os detalhes da ação explosiva que o filme se propõe a entregar, e vai além, ao construir certa dramaticidade e um eficiente clima de tensão. O universo criado pelo roteirista novato Derek Kolstad possui personalidade, é bem estruturado e conta com personagens interessantes.



Keanu Reeves é conhecido por fazer questão de realizar suas cenas de ação, e isso definitivamente engradece sua participação no filme. As lutas são tão bem coreografadas, que parecem inventar novas técnicas mortais de combate corpo a corpo. O personagem John Wick é um cara fechado, de feição apática e pouca conversa. Em outras palavras, o papel de sempre para Reeves. Sabemos que ele não é um ator que transpira naturalidade, mas muitos de seus trabalhos possuem uma base de fãs hardcore (Bill & Ted, Caçadores de Emoção, Matrix, A Scanner Darkly), o que significa que algo está sendo feito de forma correta, ocasionalmente. 

Em resumo, De Volta ao Jogo é uma despretensiosa e divertida opção de entretenimento para se assistir em casa. Levando em conta que este é um filme que preza pelo realismo de suas ações, o texto algumas vezes se monstra pouco coerente, o que fatidicamente é uma das marcas do gênero. Mas o que seria desse tipo de ação se, por exemplo, o vilão não capturasse o mocinho para despejar xingamentos e chover porrada na cara dele? Ao invés de matá-lo de uma vez por todas? Se ninguém arriscasse torturar um mestre assassino, não existiriam frases como "se me soltar agora, não vai sofrer na hora de morrer", ou então "vou te matar primeiro com esse garfo", e obviamente não existiriam os três mandamentos de Liam, "Eu vou te procurar, Eu vou te encontrar, e Eu vou te matar". É uma linha tênue entre o brega e o totalmente badassRecomendado.





De Volta ao Jogo/ John Wick: EUA, Canadá, China / 2014 / 101 min / Direção: Chad Stahelski, David Leitch (não creditado) / Elenco: Keanu Reeves, Michael Nyqvist, Alfie Allen, Willem Dafoe, Adrianne Palicki, John Leguizamo, Ian McShane, Lance Reddick

Whiplash: Em Busca da Perfeição (Whiplash)


#Todo o Horror da Perfeição

Assistir produções autorais como Whiplash é um imenso prazer, pois ver um instrumento musical como protagonista simbólico é algo sempre bem-vindo. A história nos apresenta a evolução de um baterista obstinado, que tenta transcender não só seu talento percussivo, mas também sua história, sua mortalidade. Esta ambição do personagem Andrew pelo sucesso é desmedida, algo que beira a loucura. Mas a intenção parece compreensível, afinal, ele possui a habilidade necessária para se consagrar um grande músico de jazz, e não importa o quão próximo do sol precise voar para conquistar isso.

E no caminho do suposto gênio das baquetas existe um mestre a procura do pupilo perfeito. Na verdade, para ser mais exato, estamos falando de um carrasco, capaz de ofender Andrew de tantas formas diferentes que qualquer um ficaria surpreso. O maestro Fletcher vê no abuso verbal e na humilhação uma ferramenta de crescimento eficaz. Ele desmerece a família de Andrew de maneira vulgar, até atira cadeiras na cabeça do baterista, para que o mesmo nunca perca o 
 quase inalcançável  tempo rítmico perfeito (a complexa composição Whiplash, que leva o nome do filme, é um de seus maiores desafios). 

Você arrasta ou você acelera?!, vocifera o maestro em certo momento. Fletcher simboliza mais do que uma ideologia extremista de ensino, ele é basicamente uma sentença de morte.



O filme foi dirigido e roteirizado por outro jovem genial. Damien Chazelle começou sua carreira quase agora, e promete um futuro instigante para este gênero em específico, de músicos perturbados e canções impossíveis. Seu texto investiga com realismo a sede insaciável de Andrew pela glória do reconhecimento, que torna o mundo ao seu redor pouco importante, e que corrompe, mas ao mesmo tempo edifica sua personalidade. 

As escolhas técnicas de Chazelle em Whiplash são de um senso avidamente apurado, uma cadência perfeita que equilibra a ótima interpretação dos atores com a exploração de ambientes internos sufocantes, onde acontecem performances musicais incríveis. A iluminação difusa é um dos pontos de maior destaque, e ajuda na construção de um clima de tensão quase claustrofóbico.


Visivelmente inspirada pela história, a equipe de produção presta atenção total aos detalhes. O trabalho de fotografia é impecável, assim como o de cenografia e edição. O departamento de som lida com o peso de sua responsabilidade com extrema facilidade, e o exímio compositor Justin Hurwitz é o nome por trás da maioria das composições originais do filme.


O ator do momento, Miles Teller, interpreta Andrew, e o experiente J.K. Simmons, Fletcher. Os personagens parecem opostos em quase todos os sentidos, menos em um: o desejo visceral de escrever o nome na história do jazz. O trabalho dos intérpretes é surpreendente. Teller pode ser considerado o menos expressivo dos dois, mas sua capacidade de fingir ser um baterista de jazz vai além da compreensão. Obviamente ele é muito versátil, encara dramas com responsabilidade e também possui um excelente timing para comédias, mas o fato é que neste filme ele simplesmente decolou na bateria. O cara nasceu para este papel. E pensar que Dane DeHaan era a primeira opção.




No entanto, é inegável que o Fletcher de J.K. Simmons é seu momento Charlie Parker. Não é a brutalidade do maestro o que mais chama atenção – quem conhece o trabalho de Simmons, sabe que ele consegue interpretar cretinos arrogantes de maneira primorosa. O que mais chama atenção é a capacidade do ator de transformar o personagem em um ser humano normal, através de situações cotidianas. São os momentos em que ele não está ofendendo ninguém (rindo com crianças, bebendo com amigos no bar) que fazem de Fletcher um sucesso, porque sua normalidade o torna quase inconcebível, e ao mesmo tempo extremamente real. Simmons humaniza Fletcher, e demonstra que, por trás da raiva explosiva existe sim um ideal, não apenas motivado por frustrações ou traumas passados. É algo maior. Essa profundidade faz dele um ser admirável, de maneira bem incomum.

Em resumo, Whiplash é fúria e gratidão, baixo calão e poesia. O filme apresenta duas pessoas com um ideal em comum, colidindo violentamente, e mesmo não compreendendo elas se moldam, e no momento certo, com um olhar apenas, se completam. Filme Obrigatório.

Curiosidade: Quando era mais novo, Miles Teller sobreviveu a um violento acidente de carro, no qual foi arremessado pela janela em uma das muitas capotagens do veículo, o que lhe deixou com diversas cicatrizes no rosto, e lhe rendeu seu primeiro trabalho como ator no filme Reencontrando a Felicidade, que precisava exatamente de um jovem com cicatrizes no rosto.





Whiplash: Em Busca da Perfeição/ Whiplash: EUA / 2014 / 107 min / Direção: Damien Chazelle / Elenco: Miles Teller, J.K. Simmons, Paul Reiser, Melissa Benoist

Obvious Child - Crítica


#Obvious Child joga nova luz sobre o tema aborto

Nenhum aborto é planejado. Assim como a gravidez inesperada, ele também é indesejado. Diante deste raciocínio, o filme Obvious Child respira fundo e se propõe a falar sobre o tema, de mente aberta, sem dogmas ou exageros de qualquer espécie, rindo e chorando com os dilemas que surgem pelo caminho. O resultado é uma comédia dramática sensacional.

Na história, somos primeiramente apresentados a jovem Donna Stern, comediante stand up sem papas na língua, que acabou de descobrir a traição do namorado enquanto o mesmo terminava o relacionamento com ela. Logo em seguida, conhecemos Max, sujeito gente boa, que toca guitarra, estuda bastante e é um perfeito cavalheiro. Uma espécie de caretão descolado. 


Por acaso, os dois se encontram no bar em que Donna se apresenta. Naquela noite ela usou a frustração do pé na bunda como combustível de seu show, o que foi extremamente pesado. Mesmo assim, eles acabam se dando muito bem (enquanto bebem bastante), e depois disso (devidamente bêbados), fazem sexo e ela engravida.



Obvious Child é um filme pró-aborto, pelo simples fato de tratar do assunto com extrema naturalidade. Todo o drama da experiência de Donna é analisado em detalhes, esmiuçado por debates e confissões comoventes e ao mesmo tempo hilárias.

O humor obviamente faz toda diferença. Além dele humanizar estes personagens de escolhas supostamente condenáveis, também ajuda a demonstrar que as circunstâncias por trás da gravidez não eram – nem de perto – as ideais, nos fazendo pensar até que ponto a situação configura uma justificativa aceitável ou não para o aborto.      



A diretora e roteirista estreante Gillian Robespierre consegue dar voz honesta a sua protagonista. Por ser comediante, Donna é naturalmente fora dos eixos. Ela parece sentir genuíno prazer em descrever situações escatológicas absurdas em seus shows, por exemplo. Tudo sobre ela respira autenticidade, e somos compelidos a nos afeiçoar por seu lado humano com facilidade. 


É preciso ressaltar que a personagem foi feita sobre medida para a atriz Jenny Slate, que aqui revela todo seu potencial. Robespierre e Slate já haviam colaborado juntas no curta homônimo que deu origem ao filme, e por isso ambas estão extremamente confortáveis em suas respectivas posições. Quem viu Slate na série Parks and Recreation, se surpreenderá com sua versatilidade. Este é um trabalho memorável da intérprete.


Enfim, percebemos que um tema é tido como politicamente incorreto quando esbarramos em certas dificuldades para escrever sobre. Obvious Child pode ser considerado politicamente incorreto, pelo simples fato de não estigmatizar o aborto, mas sim tratá-lo como uma realidade, e não como um parágrafo ou pensamento predeterminado. A história se permite dar risada de sua própria tristeza, e se fortalece com isso. É pouco provável que agrade a todos, mesmo assim, continua sendo ótimo. Recomendado.





Obvious Child: Eua / 2014/ 84 min/ Direção: Gillian Robespierre/ Elenco: Jenny Slate, Jake Lacy, Gaby Hoffman, Richard Kind, Polly Draper, Gabe Liedman

O Hobbit - A Batalha dos Cinco Exércitos (The Hobbit: The Battle of the Five Armies)



#Sobre a Ganância e a Semente

Certo criticismo envolve a franquia O Hobbit desde seu início. Alguns acusam ela de oportunista, por diluir o conteúdo de um livro em três filmes, outros taxam a escolha dos 48fps como um erro, e que o resultado é estranho e decepcionante. Outros ainda afirmam que o desenvolvimento de Thorin Escudo de Carvalho ficou de dar sono. 


Exageros à parte, é certo dizer que a história de O Hobbit, no cinema, não é tão cativante como, por exemplo, a de O Senhor dos Anéis. Esta é uma comparação que parece justa e injusta ao mesmo tempo. Mas é preciso lembrar que ambas as trilogias foram gravadas de forma semelhante, pela mesma equipe, nos mesmos sets, e mesmo assim uma é superior a outra, pelo menos em termos narrativos. 

Mas isso é fácil de entender, pois afinal, na sacrificante epopeia de Frodo e Sam, existem mais personagens, com diferentes objetivos, divididos em mais núcleos, o que consequentemente gera mais plot twists e mais fluidez para a trama. Já todo pensamento de O Hobbit aponta para a mesma direção, e isso em tela, promove um desenvolvimento moroso do roteiro, que exige um pouco mais de imersão voluntária do público, por assim dizer.



E se fosse apenas um filme, ou dois, isso aconteceria? Talvez não. Afirmar com toda certeza do mundo que, se O Hobbit fosse apenas um filme, sua recepção seria melhor, que não enfrentaria críticas e que o resultado seria superior, é apenas presunção. No entanto, mesmo que as motivações por trás dos três filmes fossem financeiras – pois nada acontece apenas por causa dos belos olhos da Tauriel –, erguer uma produção como essa não é nada fácil, ainda mais rodeado por inúmeros problemas judiciais envolvendo a "marca" Tolkien. Devemos lembrar que há uns cinco anos atrás, a realização de O Hobbit era praticamente um sonho utópico, que meio que renasceu como trilogia.   

Ainda assim, com problemas narrativos e acusações diversas, a mensagem do roteiro, ironicamente de repúdio a ganância e toda a ignorância que ela proporciona, é tão emblemática em O Hobbit que se torna mais abrasiva do que em O Senhor dos Anéis, este que por sua vez dá mais ênfase a seus personagens. A loucura de Thorin pode ser considerada uma analogia perfeita do maior e mais corrosivo mal de nossa história como sociedade: a corrupção desmedida pelo poder.



E recompensando a atenção dos fãs, o alquimista Peter Jackson novamente transforma sua Nova Zelândia na Terra Média de Tolkien, como em um passe de mágica. É um prazer incomensurável acompanhar o deslumbre visual proporcionado pelo diretor em A Batalha dos Cinco Exércitos. Os 48fps demonstram o quão perfeito é todo o trabalho de cenografia e figurinos. Tudo é feito com uma riqueza de detalhes reveladora, uma opção corajosa, que ao expor demais, exige atenção redobrada.


Os efeitos especiais incríveis misturam realidade e magia, igualam dragão e executor como se os dois fossem feitos da mesma matéria, montam ambientes colossais, dão vida a criaturas assustadoras. De olhos arregalados vemos humanos fugirem do fogo da morte, magos lutando contra os espíritos dos homens, orcs enfrentando anões e elfos em massivas batalhas, talhadas com esmero. O final de A Batalha dos Cinco Exércitos emociona bastante, não pela trilha sonora impecável de Howard Shore, nem pela atuação auspiciosa de Martin Freeman e todo elenco, mas sim pela mensagem, pelo justo preço da ganância, pela semente que será plantada e trará lembranças, pela amizade de Bilbo e Thorin. Recomendado.



O Hobbit - A Batalha dos Cinco Exércitos/ The Hobbit: The Battle of the Five Armies: Eua, Nova Zelândia/ 2014/ 144 min/ Direção: Peter Jackson/ Elenco: Ian McKellen, Martin Freeman, Richard Armitage, Ken Stott, Graham McTavish, William Kircher, James Nesbitt, Stephen Hunter, Dean O'Gorman, Aidan Turner, John Callen, Peter Hambleton, Jed Brophy, Mark Hadlow, Adam Brown, Orlando Bloom, Evangeline Lilly, Lee Pace, Cate Blanchett, Benedict Cumberbatch, Mikael Persbrandt, Sylvester McCoy, Luke Evans

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